terça-feira, 7 de abril de 2020

Um novo mundo?


Dá o que pensar a crônica de ontem do grande Ruy Castro para a Folha de S. Paulo, Dilema do escritório (6 abr 2020). Ele fala da criação dos escritórios, e de como “o mundo melhorou com os escritórios”, embora tenham gerado “afetos, desafetos, intrigas e paixões, com tudo que isso implica —prazer, êxtase, amor, assim como, às vezes, sofrimento, desespero, dor”. Enfim, Ruy Castro fala das consequências das mudanças do comportamento humano diante de uma crise.
E conclui sua crônica:  “É o que veremos depois de superado o coronavírus: se o mundo a que voltaremos será o de antes, que nos moldou como somos, ou se será um novo mundo, habitado por pessoas que talvez não reconheçamos de saída e custaremos a entender quem são — nós mesmos.”
Com o isolamento social temos tempo de sobra para pensar. É tanto tempo sobrando que começamos a conjecturar Sobre O Que Virá Depois. Isso faz parte da natureza humana, conjecturar diante do desconhecido, talvez com o intuito de aplacar o medo e a angústia.
Ruy Castro nos apresenta uma inquietante questão: haveremos de nos reconhecer a nós mesmos depois da catástrofe? Espertamente, ele não nos oferece qualquer resposta.
Se a resposta for negativa, é possível que sobrevenham transtornos mentais, mais ou menos intensos conforme os fatores preexistentes. Portanto, a melhor pergunta não é o que virá depois, mas o que podemos fazer hoje para que não venha o pior. Enfim, o que fazer hoje para que Não Deixemos De Nos Reconhecer?
Pensar pensar pensar, manter o aparelho de pensar (Bion) em pleno funcionamento, dormir bem, fazer exercícios físicos, ler bons (?) livros, ouvir boa (?) música, cozinhar a própria comida, informar-se minimamente sobre o que ocorre no mundo, e, dentre outras coisas, escolher duas ou três pessoas que também saibam pensar e conversar – o que não é fácil – e conversar com elas, mesmo que virtualmente, à distância, com certa regularidade. (Digo duas ou três pessoas porque não acredito que haja tanta disponibilidade assim, para quem deseja conversar. Como é difícil conversar, meu deus!)
            A qualidade dos livros e da música fica por conta de cada um. Contra a praga das tais redes sociais, recomendo um livro de 700 páginas que prenda o leitor como chiclete. Na música, em função das comemorações dos 250 anos de nascimento de Beethoven, ouvir a obra completa do compositor ocuparia isolamento social de um semestre. Ficam aqui as dicas. 
Quanto aos amigos, ah! isso é mais difícil de recomendar...




segunda-feira, 6 de abril de 2020

Na caligrafia de Uzan Nagao



“Na parede, pende um poema chinês na caligrafia de Uzan Nagao.

            Salgueiros já espalham a paina
            Sem que tu no entanto retornes.
            Rouxinóis emudecem, flores enlanguescem
     Meus sonhos em vão se perdem.
            Na festiva cidade de inúmeros prazeres
     Peônias contemplo sob a chuva serena.”


Extraído de Diário de um velho louco, de Jun‘Ichiro Tanizaki (Estaçao Liberdade, 1916)

domingo, 5 de abril de 2020

As irmãs Makioka




Termino a leitura de As irmãs Makioka, de Jun‘Ichiro Tanizaki (Estação Liberdade, 2019). Como o livro contém 742 páginas, e não é barato, passou-me célere pela mente uma nuvem de tristeza, só de pensar que muito poucas pessoas haverão de lê-lo, sem saber o que estarão perdendo.
            Passada a tal nuvem, retorna meu estado de espírito de esfuziante alegria, por ter lido a obra aos 73 anos de idade, em plena lucidez – sou grato à Vida por isso!
            Trata-se de um romance, parece que o único escrito pelo autor, que descreve a saga das quatro irmãs Makioka. A mais velha é casada e tem vários filhos que nunca entram na história, embora o marido seja muito atuante; a segunda também é casada, tem uma filha pequena, menina inteligente, e o marido é igualmente decisivo; a terceira, aos 35 ainda permanece solteira, e precisa casar para que a quarta irmã, a koisan (irmã caçula) possa casar. (Koisan é bem da pá virada...) Aí está o resumo da história, que vai do início do século XX até a metade da Segunda Guerra Mundial. 
            O que interessa mesmo é a literatura de altíssimo nível, a despeito de se tratar de uma tradução. (São quatro os tradutores: Leiko Gotoda, Kanami Hirai, Neide Nagae e Elisa Atsuko Tashiro, merecedores de aplausos pelo esforço hercúleo, imagino.) A leitura é agradabilíssima, mágica mesmo, pois embora nada aconteça de extraordinário, prende o leitor até a última página. Aos interessados, já postei trecho do livro, sob o título “Vagalumes”, aqui no blog:
 http://loucoporcachorros.blogspot.com/2020/03/vagalumes.html
            Minto, vez em quando acontece um tsunami de montanha, um tufão, uma doença grave em uma das irmãs, a morte de certo pretendente, mas logo a vida volta ao normal, serena e pacífica, em “ritmo milenar”, se é que existe tal expressão.
            A contínua citação de restaurantes japoneses e as respectivas comidas típicas é de dar água na boca! 
            Jun’Ichiro Tanizaki (1886-1965), nascido em Tóquio, foi um magistral contador de histórias! Inicio a crônica falando de minha alegria ao ler o livro, mas bate uma certa tristeza ao terminar a leitura, uma certa melancolia. Quem ainda não sentiu isso diante de um bom livro?
            

ensina-me


oh! gigante misterioso
não conhecerei todos teus segredos
tens o poder e a fúria dos deuses
a simplicidade do Deus único, a eternidade 
ensina-me a lidar com os ciclos
com a Lua e o magnetismo
oh! universo submerso
mostra-me que o acaso não importa
revela-me tua humildade 
que também segues leis
e sabes ser pequeno
afasta meus medos e dúvidas 
dá-me a coragem dos navegadores
oh! imenso deserto de sal
fonte preciosa de ar e vida
tantos morreram de sede em tuas águas
muitos ainda viverão do teu sopro
dá-me a calma dos pescadores
ajuda-me a aceitar o vazio
cura-me da ambição de ser eterno


                                                                  
Moisés Lobo Furtado (01/04/2020)


Com enorme prazer, este blog apresenta o agora poeta Moisés, conhecido até então como exímio microcontista! Pois ele também é poeta! 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Moisés afiado!


Má vontade

– Queria ser você, para poder ser e conhecer tudo.
– Queria ser você, para ainda querer tanto.



Má companhia

– Por que não aproveita para conhecer um lugar bem legal?
– Porque quem vai estar lá sou eu.



Aposentado

A quarentena estava lhe atrapalhando. Não conseguia mais ficar sozinho em casa.



Avô em pandemia

Gostava de sentir a preocupação dos filhos e netos, mas o silêncio em casa era ainda melhor. 


                          Moisés Tito Lobo Furtado,
                          para a honra deste blog.

Ipanema em tempo de Apocalipse

A foto do dia


Que desperdício de felicidade!

Hora chegando

Charge do dia
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Laerte Coutinho