sábado, 30 de novembro de 2019

Dor e Glória





Conversar sobre cinema é bom e faz bem, principalmente porque cada um vê seu próprio filme, e confrontar nossa opinião com outros pontos de vista alarga nossa percepção e sensibilidade. Mas isso não vale para qualquer filme, a menos que Pedro Almodóvar seja o diretor.
            Acabo de ver Dor e Glória, e não havendo interlocutor disponível no momento resolvo escrever. Antonio Banderas interpreta um cineasta em fim de carreira, consumido pela doença e pelas drogas, impedido de filmar pelo precário estado físico e isolamento social, e quando percebemos que seu corte de cabelo imita o de Almodóvar, fica evidente que predomina a autobiografia. Quanto há de realidade, quanto há de ficção, isso nunca importa. O resultado é comovente.
            A primeira e a última cenas são belíssimas. O filme começa com lavadeiras à beira de um rio, a cantar, lavar e estender roupa sobre o alto capim, observadas por um pequeno menino; uma delas é mãe dele. Percebemos então que que trata de memórias. Por razões óbvias, não escrevo sobre o fecho do filme.
            A infância do protagonista é descrita da forma mais poética possível, ao mostrar o imenso amor que une mãe e filho, a despeito das precárias condições materiais. (Almodóvar há de carregar tais experiências como algo fundamental na constituição de seu caráter.)
            A Glória é relatada de modo discreto, sem o estardalhaço das cores de Almodóvar, presentes do início ao fim do filme, indicando que algumas coisas nunca mudam; são de muitíssimo bom gosto, em meu ponto de vista, presentes nos detalhes, nos objetos do belo apartamento onde mora o cineasta, nos móveis, no vestuário, nas paredes, nas flores, até mesmo em uma certa porta de elevador. A Dor sim, ganha destaque e protagonismo, até mesmo quando Banderas – em ótima interpretação – entra ou sai de um taxi. Dói mesmo, para quem sabe o que significa dor nas costas.
            A homossexualidade, em meu modo de ver, destaca-se como tema central do drama. Ela é tratada de maneira sublime, com toda a delicadeza, porém de forma verdadeira, desde o beijo escancarado em um encontro de antigos amantes, até a manifestação de desejo do menino diante do homem nu, cena construída com toque de gênio. O diálogo tardio entre mãe e filho sobre o assunto é de uma franqueza e sensibilidade comoventes.
            A apresentação de monólogo escrito pelo protagonista e representado por antigo colega de cinema, relatando a difícil relação com parceiro usuário do cavalo (palavra repetida ad nauseam, para que o expectador nunca se esqueça), em um teatro com palco, cenário e plateia reais, me fez lembrar que em Hamlet, Shakespeare também colocou um peça dentro da peça principal. Belo artifício do diretor.
            Arrisco um palpite: se os ditos homofóbicos vissem o filme de Almodóvar com isenção, despidos de qualquer preconceito, com espírito aberto, talvez se encantassem com as diferenças, com as escolhas que cada um de nós fazemos na vida, com as várias possibilidades de amar. Se...
            Belíssimo Dor e Glória, dos melhores filmes de Pedro Almodóvar, em meu modo de sentir e pensar.