quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Trabalho e escravidão

 

 


“No Brasil colonial, trabalho e escravidão caberiam no mesmo verbete de um dicionário. Eram sinônimos. “Sem negros não pode haver ouro, açúcar nem tabaco”, afirmava, em 1739, o vice-rei André de Melo e Castro, conde de Galveias. Nas minas e garimpos de ouro e diamantes, nas fazendas e lavouras de cana-de-açúcar, os cativos submetiam-se a jornadas longas, pesadas e perigosas. A labuta começava antes ainda do nascer do sol e ia até o anoitecer. Nos engenhos, durante a safra, as caldeiras ferviam noite adentro sobre fornalhas que os escravos iam alimentando de lenha, expostos a temperaturas altíssimas. Tarefas como construir e reparar cercas, abrir valetas, roçar as áreas em volta das casas e preparar a farinha de mandioca exigiam ainda jornadas extras, de mais três ou quatro horas de trabalho, sem qualquer outra contrapartida que não o esgotamento físico e o encurtamento da vida útil dos cativos.”

 

In Escravidão, volume II

Laurentino Gomes, 

Globo Livros, 2021, p.295. 

 

Ainda hoje, vez em quando, vemos na mídia a notícia de “trabalho escravo”, quer em zona rural, quer nas cidades grandes. No Brasil colônia, segundo Laurentino Gomes, a expressão era um tremendo pleonasmo! E subsiste.

 

África e a Língua Portuguesa




 

Para os que amam as palavras, eis um fragmento de Escravidão, de Laurentino Gomes, que não me canso de elogiar:

 

“Provavelmente nenhum outro aspecto da civilização brasileira foi tão afetado pela presença africana quanto a própria língua portuguesa. Em um dos trechos mais inspirados do seu Casa-grande & senzala, ao tratar da africanização dos hábitos e costumes do Brasil colonial, incluindo o próprio idioma, o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre perguntava:

 

Que brasileiro, pelo menos do Norte, sente algum exotismo em palavras como caçamba, canga, dengo, cafuné, lubambo, mulambo, caçula, quitute, mandinga, moleque, camundongo, moganga, cafajeste, quibebe, quengo, batuque, banzo, mucambo, banguê, bozô, mocotó, bunda, zumbi, vatapá, caruru, banzé, jiló, mucama, quindim, catinga, munguzá, malungo, berimbau, tanga, cachimbo, candomblé? [...] São palavras que correspondem melhor que as portuguesas às nossas experiências, ao nosso paladar, aos nossos sentidos, às nossas emoções.”

 

 

In Escravidão, volume II

Laurentino Gomes, 

Globo Livros, 2021, p. 258.