segunda-feira, 17 de junho de 2013

memória



é o que se leva
desta vida, um buquê
de lindas orquídeas

Foto: A.Vianna, Brasília, 2013.

A grande aula


Lá pelos idos de 60, ia eu pela metade do curso de Medicina e, embora um menino, já cultivava meus sonhos e ambições. Um deles era tornar-me um bom cirurgião. E o fascínio pela Cirurgia começou com o fascínio pela Anatomia (entretido com um colega no estudo das veias da pelve, não nos demos conta de que o anatômico já havia sido fechado, e passamos a noite entre os cadáveres, respirando o fortíssimo cheiro do formol, com enorme entusiasmo).
De modo que, quando foi anunciada a aula do Prof. Portugal, minha excitação chegou ao auge! É preciso esclarecer antes de mais nada que o Prof. José Ribe Portugal já era uma lenda na Faculdade de Medicina. Neurocirurgião de renome internacional, havia desenvolvido certa via de acesso a determinada região do cérebro, uma técnica cirúrgica a revolucionar o tratamento de patologia específica. À época, eu sabia muito pouco além disso, mas já era o bastante para provocar no tal menino a mais profunda admiração pelo homem. (A isso, hoje, dou o nome de idealização. E daí?)
Acrescido a tudo isso, Prof. Portugal dava apenas uma aula durante todo o ano! Era o bastante, em se tratando de quem ele representava para a ciência do país, talvez do mundo. Talvez fosse mais que o bastante, era mesmo um privilégio que ele se dignasse a proferir uma aula para estudantes do quarto ano de Medicina.
Percebi que poucos, pouquíssimos colegas meus compartilhavam deste ponto de vista, alheios àquele acontecimento, o que fazia que me sentisse muito só, pensando e sentindo aquela experiência que me parecia transcendental, na expectativa de que ela fosse determinante para meu futuro dentro da profissão. Uma aula com o Prof. Portugal! Porém, jamais considerei que aquilo pudesse ser um delírio meu; pensava que os outros é que não percebiam a importância daquele momento...
Até que chegou o dia da grande aula. Era uma tarde quente de uma quarta-feira, a sala estava abafada, as cadeiras desarrumadas, um projetor de slides em meio às cadeiras, nada que se parecesse com o ambiente propício para uma Aula Magna, o que em mim causou certo constrangimento. A presença do projetor, no entanto, provocou alguma excitação, Que imagens ele vai nos mostrar?
Com meia hora de atraso entra na sala o grande homem. De baixa estatura, em torno de 60 anos, cabelos tingidos de preto e fixados provavelmente pelo que se usava à época, Gumex, bigode bem aparado igualmente tinto, usando um paletó preto, justo, de corte moderno, o que chamava mesmo a atenção era a gravata, tipo mexicana, dois cordões negros pendentes do colarinho, terminando numa ponta de prata. (Não tenho qualquer convicção de que o estilo da gravata seja mexicano. Apenas assim me parecia, influência de algum filme de faroeste da época.)
Apresentou-se, modestamente. Desejo apresentar a vocês uma ótima experiência que vivi recentemente, numa viagem que fiz a Veneza. A cidade é lindíssima!
Iniciou-se então a projeção de uma série interminável de slides com fotografias de Veneza, nada profissionais, isso era fácil de se perceber, portanto tiradas por ele mesmo, o Prof. José Ribe Portugal. E a aula terminou com a frase Espero que vocês algum dia possam visitar Veneza!
Foi a melhor aula que assisti em toda a minha vida.