quarta-feira, 30 de julho de 2014

vem comigo


vem comigo, fica um ano na inglaterra
cidade universitária
quarenta minutos de ônibus de londres

ela o dissera três vezes
inglês precário
brincadeira?

vem comigo
cabelos pintados de azul
como picasso em sua fase azul
uma fase?
óculos de tartaruga
pele branca

pós-graduação em bio-mecânica
bio-próteses
carne e metal

vem

...

na despedida
um abraço morno
recendendo à covardia

Aldo Pereira Neto

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Desolação

A foto do dia.


Destruição na Cidade de Gaza.



Foto: Mahmud Hams

http://www.theguardian.com/world/live/2014/jul/28/gaza-israel-fatal-strikes-shaky-ceasefire-live

Gênio?



              Após ler O sorriso do lagarto, A casa dos budas ditosos, O conselheiro come, Miséria e grandeza do amor de Benedita, de João Ubaldo Ribeiro, além de acompanhar suas crônicas nos jornais de domingo, confesso que não havia me tornado fã do baiano de Itaparica. A contrário, desgostava mesmo dele.
            Logo após sua morte, li em algum lugar a manchete que o chamava de GÊNIO. Gênio?, pensei. Ou o articulista estava tomado pela emoção da perda recente, ou era amigo pessoal do baiano, ou sei lá o quê... ou eu estava completamente enganado quanto ao valor literário do homem. O mesmo artigo dizia que a obra prima do
João Ubaldo era o Sargento Getúlio, publicado em 1971, que eu não havia lido, embora o livro dormisse em minha biblioteca há mais de vinte anos. Resolvi lê-lo.
            Estou assombrado com o livro! É, de fato uma obra prima. (E o autor deste blog confessa aqui sua ignorância – ou se trata de arrogância? –, por não ter lido o livro vinte ou trinta anos atrás...)
            A trama é simples: Getúlio, um sargento, tem que fazer uma entrega. Tem que entregar uma coisa; aliás, “o coisa”. No trajeto, de Paulo Afonso a Aracaju, vão ocorrendo as peripécias. O final é quase previsível, nada demais. Então o que sobra?
A forma! Coisa de gênio.
            Há poucos diálogos, quase tudo é a narrativa feita por Getúlio, monólogo de humor finíssimo, às vezes de uma violência e crueldade extraordinárias. O monólogo vai se tornando cada vez mais interior, até desaguar num fluxo de consciência delirante.
            Nessas croniquetas que costumo apresentar aqui, gosto de transcrever pequenos trechos dos livros que comento, a título de ilustração. Desta vez não o faço, por uma razão bem simples: seria preciso transcrever o livro inteiro.
            Aos pouquíssimos leitores desse blog, se ainda não leram Sargento Getúlio, façam-no com urgência. Não se pode morrer sem ler este livro!

quinta-feira, 24 de julho de 2014

terça-feira, 22 de julho de 2014

O trocadilho não morreu: Homenagem a Emílio de Menezes



Em recente crônica na Folha de São Paulo (27/7/2014), José Simão saiu-se com esta pérola: “O Maluf partiu pro Skaf. Skafedeu!” Eis o trocadilho perfeito!
Segundo Houaiss, trocadilho vem de troca + -ilho; em espanhol, a expressão a la trocadilla, significa “às avessas”. Deonísio da Silva, em De onde vêm as palavras (Novo Século, 2009), ao tratar do verbete cita Millôr Fernandes, que se referia a José Sarney como Sir Ney; e João Batista Figueiredo, que chamava Tancredo Neves de Tancredo Never.
            A conotação política está presente em grande parte dos trocadilhos, mas não é obrigatória. Entre os anos 50 e 60, cursava eu o segundo grau em Guaratinguetá, no Instituto de Educação Conselheiro Rodrigues Alves, e fazia parte de um quarteto de trocadilhistas, composto por dois vetustos professores, o de física, Valdemar da Ponte, a de química, Santina Gianico, o colega Geraldo e este modesto blogueiro. A disputa era permanente e motivo de muita gargalhada. Tínhamos até um patrono ilustre, Emílio de Menezes!
            Emílio Nunes Correia de Menezes nasce em Curitiba em 1866. Aos 20 anos embarca para o Rio de Janeiro, trabalha por pouco tempo no Banco do Brasil, quando passa a se dedicar ao jornalismo. Envolve-se com a Bolsa de Valores, ganha muito dinheiro e vive como um boêmio, frequentador assíduo da Colombo. Publica inúmeros livros de poesia, quase todos de cunho satírico.
Josué Montello prefacia a Obra Reunida do autor (José Olympio Editora, 1980) e registra que, com a morte de José do Patrocínio, em 1905, fala-se em Emílio de Menezes para seu sucessor na ABL. Sondado por alguns acadêmicos, o presidente da instituição, ninguém menos que Machado de Assis, leva alguns imortais a um bar no centro da cidade, “em cuja parede aparecia o poeta a empunhar um copázio espumante”. O nome de Emílio não é aprovado.
Em 1916, com a morte de Salvador de Mendonça, Emílio candidata-se à vaga, sendo eleito por larga margem de votos, batendo o grande Gilberto Amado. Seu discurso de posse é censurado e Emílio não toma posse. Morre em 8 de junho de 1918. Apenas em 1924 a ABL divulga, com modificações, seu discurso de posse.
Emílio traduziu o famoso poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, e dedicou-o a Machado de Assis, com as seguintes palavras: “Ao inexcedido e inexcedível tradutor do genial poema de Edgar Poe, consagro esta pálida paráfrase que em nada se aproxima e jamais pretendeu aproximar-se da imorredoura tradução feita pelo Mestre dos Mestres.”
Grande cultor do soneto, eis um exemplo do poeta parnasiano (Poesias, 1909):

Noite de insônia

Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
E unimos, ambos nós, o peito contra o peito.
Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;

Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto.
Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito.
Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!...

Louco e só! Desvairado! A noite vai sem termo
E, estendendo, lá fora, as sombras augurais.
Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.

E mal julgas talvez, quando, acaso, te vais,
Quanto me punge e corta o coração enfermo,
Este horrível temor de que não voltes mais!...

Além de poeta satírico, Emílio cultivou a arte do trocadilho. Cito alguns exemplos, todos de uma ingenuidade comovente.

“O ministro da fazenda adquiriu, para o serviço externo da Diretoria Geral do Gabinete, uma “barata” da força de 60 cavalos. Admira que tenha feito semelhante aquisição um financeiro como o sr. Xico Salles. Por que não adquiriu s. ex.a um landaulet? Pois não sabe s. ex.a que a barata sai cara?”

“– Conheces? É a mulher do Properoso: é uma santa...
– Já ouvi dizer: por isso é que os amigos do marido a chamam Nossa Senhora.”

“Dizem os telegrama de Roma que os italianos tomaram o porto de Acaba. A crer na verdade das palavras deve ser esse o fim da luta.”

            “Entre funcionários:
            – A minha repartição é um verdadeiro Mar Morto.
            – Por que?
            – Faltam-lhe vagas”.

            “Fala-se de um dos nossos mais conhecidos elegantes colombianos, grande bilontra, e cuja esposa é muito ciumenta:
            – Sabes? O S. tem agora uma deliciosa amante.
            – Já me disseram; por sinal que há um ponto de semelhança entre ela e a esposa legítima, observa o Domingos.
            – Qual?
            – É que a amante é deliciosa e a esposa dele ciosa.”

            “Numa festa, a senhora da alta sociedade perguntou a Emílio:
            – O sr. sabe quais são os encantos da mulher?
            Ao que ele respondeu de pronto:
            – Sei-os...”

Logo que cheguei a Brasília, uma senhora aflitíssima abordou-me numa superquadra, dizendo ter sido informada que precisava de autorização de um ministério para poder viajar com seu cãozinho. Perguntou-me se eu sabia que ministério era esse, ao que respondi instantaneamente, Minha senhora, só pode ser o Ministério das Cãomunicações! A mulher não gostou da pilhéria e saí de fininho, mas orgulhoso de minha obra prima.
Da lavra de meu irmão Paulo: A mulher entra numa loja chique e pergunta o preço de um par de luvas. "Mil e quinhentos reais", informa a vendedora. "Cara!", reage a cliente. "Elas são de couro de javali, Senhora." O marido, ao lado, solta, sem pestanejar: "Então eu já-vou-ali e volto..."

Há quem classifique os trocadilhos como algo infame. Discordo. São apenas jogos de palavras, cheios de humor, e quando espontâneos, são capazes de provocar o riso sincero em todos nós. E dizem que rir é o melhor remédio...