sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Peso da palavra

 

Há poucos dias assistia um bom jornal de conhecido canal de tevê quando uma das comentadoras utilizou-se da palavra “denegrir”, e usou adequadamente, bem inserida no contexto em questão, que por sinal não se referia de modo algum a problemas raciais. Veio o intervalo, se não me engano, ou o comentário de outro jornalista, fato é que a primeira comentadora pediu a palavra e disse, muito constrangida, aproximadamente o seguinte:

         “– Acabo de receber aqui pelo ponto [o microfone inserido na orelha] a informação que utilizei a palavra denegrir. Foi um lapso [ou coisa parecida], erro meu, peço desculpas, às vezes a gente erra mesmo.”

         O mediador ou âncora do jornal ainda deu força à comentadora, “É isso mesmo, todo mundo de vez em quando erra”. Seguiram-se outras notícias, não se falou mais no assunto.

Desde então continuo matutando: estão quer dizer que a palavra denegrir está proscrita de nosso vocabulário! Proibidíssima!

Vejamos o que registra o Caldas Aulete Digital:

 

Denegrir:

1. Fig. Manchar ou infamar (a honra [de]); tornar (algo ou alguém) desacreditado; CONSPURCAR: Invejoso, vive a tentar denegrir o caráter do bom homem: "Revoltava-me ler o que dele se dizia, na ânsia de denegri-lo, a despeito de tudo quanto havia realizado." (Josué Montello, Sempre serás lembrada).

2. Fazer(-se) negro ou escuro: A poluição denigre as paredes: Com o tempo denigrem-se as pinturas.

[F.: de- + rad. pop. negr - (< negro) + -ir. Tb. denigrir (f. erudita).]

 

Vamos à etimologia: 

 

"Denegrir" vem do latim "denigrare", que por sua vez vem da junção das palavras "de" e "niger", significando "mais" e "negro". O significado original de "denegrir", portanto, seria "tornar escuro" ou "manchar". Por associação temos também, hoje, a significação "difamar". 

 

         É aí que as coisas começam a complicar: o sentido figurado de “difamar”, porque vem do escuro, do negro, gera a conclusão óbvia, porém “errada”, que denegrir significa difamar o negro, as pessoas de raça negra.

         A frase “denegrir significa difamar o negro” traduz uma ideia. Mas as palavras não encerram ideias, mas sim, significados, às vezes múltiplos. Para que uma palavra exprima uma ideia é preciso analisá-la dentro do contexto em que está sendo empregada. Considerar a palavra apenas por sua etimologia, fora de qualquer contexto, isso sim, gera preconceito. O dicionário registra: denegrir = fazer (-se) negro ou escuro. Apenas isso. Não há qualquer ideia nessa simples palavra.

O ramo da Linguística que estuda como as palavras se comportam dentro de um contexto é denominado Pragmática. “A Pragmática estuda a linguagem no contexto de seu uso na comunicação. A pragmática está além da construção da frase, objeto da sintaxe, ou do seu significado, objeto da semântica. A pragmática estuda essencialmente os objetivos da comunicação.” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Pragmática)

 

         Ora, se a jornalista utilizou “denegrir” dentro de um contexto adequado, sem qualquer ligação com ideias racistas, não há por que pedir desculpas. Talvez ela deva pedir desculpas à Língua Portuguesa.

         Reconheço, entretanto, que eventual leitor desse meu texto possa viralizar o denegrimento de minha pessoa, só porque amo as palavras.

         

Famoso expressionista alemão

Meus quadros favoritos 


Ernest Kirchner

Village with Blue Paths

Por do sol

Meus quadros favoritos 



Claude Monet

Sunset on the Siene, 1874


O poder da Ignorância


 

“Não é somente a corrupção que degrada a política, como querem fazer crer os oportunistas que se travestiram de cruzados anticorrupção para alcançar o poder nas eleições passadas. A política também perde o sentido quando a ignorância é elevada à categoria de ativo eleitoral.”

 

            Assim tem início o editorial de O Estado de S. Paulo de ontem (15 out 2020). Destaco a expressão “ativo eleitoral”, ou seja, tudo que significar potencial de voto. E não se trata da capacidade intelectual do candidato, de sua habilidade administrativa, da honestidade à toda prova, do amor ao meio ambiente, do tino para escolher equipe competente, de imunidade à corrupção que atenta, da aversão ao nepotismo, do apreço pela transparência de atitudes, enfim, de tudo que for bom para a nação e seu povo. 

            Nada disso, o que conta, o que vale, o que leva votos às urnas, o que faz ganhar uma eleição é a Ignorância! E ganha a eleição, vem a Ganância!

            Meu leitor quer exemplos? Aqui vai uma lista – adoro listas – de predicados essenciais do candidato vencedor.

 

– Seja terraplanista.

– Negacionista.

– Mantenha toda a família na política.

– Homofóbico.

– Especialista em fabricar Fake News.

– Inimigo feroz do meio ambiente e dos índios.

– Propagandista da cloroquina.

– Contrário ao uso de máscaras.

– Incentivador de aglomerações.

– Sem nunca ter lido um, tenha ódio do livro.

– Trabalhe apenas com dinheiro vivo.

– Seja fascista.

– Falsifique seu currículo. 

– Cultive e exale o ódio.

– Seja um fundamentalista religioso.

– Seja boçal.

– Seja burro mesmo.

– Mentiroso contumaz, melhor mitômano.

– Nunca se esqueça da cueca.

– Etc...

 

            Nem precisa disso tudo para ganhar uma eleição, basta meia dúzia dos melhores predicados!

            E o que pensar dos eleitores desses mesmos candidatos? Certamente cultivam a ignorância.

            Agora, antídoto para salvar o Brasil, só há um: EDUCAÇÃO!

 

 

https://opiniao.estadao.com.br/noticias/notas-e-informacoes,ignorancia-como-ativo-eleitoral,70003475492

 

Prova de morte

Morto há 12 h, a mulher o levou ao banco em cadeira de rodas para fazer prova de vida e sacar sua aposentadoria. Policial atestou a morte.