sábado, 30 de março de 2019

Saramago e a arte contemporânea



De Paris, em 1997, Eduardo Prado Coelho fez quatro perguntas a José Saramago. A segunda delas foi a que me interessou: “Como vês as artes plásticas contemporâneas?”
            Ao que o autor do Manual de pintura e caligrafia respondeu:

“Salvo as exceções (que não são muitas), vejo-as com uma desagradável impressão de aborrecimento. Curiosamente, porém, interessa-me o que se costuma designar por “instalações”, talvez pelo que haja nelas de... arquitetura. Meia dúzia de pedras dispostas no chão, quatro tábuas armadas no ar, podem impressionar-me muito mais que um quadro de Mondrian.”

            Esta é a opinião de um homem que conhece profundamente a arte de escrever. A arte contemporânea causa-lhe aborrecimento, mas aprecia instalações.
            O que pensa o leitor sobre arte contemporânea?


P.s: Pergunta e resposta estão no Último caderno de Lanzarote, em 29 de março, p. 82 (Companhia das Letras, 2018).
            

Depois de Auschwitz





Depois de Auschwitz não há teologia:
das chaminés do Vaticano sai fumaça branca,
sinal de que os cardeais elegeram o seu papa.
Dos crematórios de Auschwitz sobe uma fumaça negra,
sinal de que Deus ainda não decidiu sobre a escolha
do povo eleito. Depois de Auschwitz não há teologia:
os números nos antebraços dos prisioneiros do extermínio
são os números do telefone de Deus,
números dos quais não há resposta,
agora eles estão cortados, um por um.

Depois de Auschwitz há uma nova teologia:
os judeus que morreram na Shoá
tornaram-se semelhantes ao seu Deus
que não tem forma nem corpo.
Eles não têm imagem nem corpo.


                                   Yehuda Amichai
                                   In Terra e paz – antologia poética
                                   Tradução: Moacir Amâncio

quinta-feira, 28 de março de 2019

Melhor professor do mundo




Tabichi entre Hugh Jackman e o príncipe Mohammed Ao Maktoum

“O melhor professor de 2019 é franciscano e tem um clube de ciência na parte mais remota do Quênia”, informa Elisa Silió, de Dubai (25 mar 2019).
Peter Tabichi, 36, é um monge franciscano que revolucionou o modo de ensinar matemática e física em uma aldeia remota do Quênia e é o vencedor do Global Teacher Prize, o prêmio concedido anualmente pela Fundação Varkey, de Dubai. O prêmio de um milhão de dólares deve ser usado para fins educativos. 
Informa Silió: “Peter, que doa aos pobres quase todo seu salário, ensina na Escola Secundária Keriko, um colégio em Pwani, uma aldeia tão miserável do vale do Rift que 95% de seus alunos são pobres, um terço não tem pai ou mãe e os problemas com drogas, gravidez na adolescência e suicídios estão na ordem do dia. Por isso surpreende tanto que seus alunos, com idades entre 11 a 16 anos – alguns caminham sete quilômetros por dia para ir à escola – tenham vencido a competição nacional de Ciência e que a equipe de Matemática esteja classificada para um torneio científico e de engenharia no Arizona (Estados Unidos). É reconhecido assim o mérito de uma escola sem recursos, com uma proporção de 58 alunos por turma, um único computador e uma conexão precária à Internet.”
Tabichi criou um clube de ciências para motivar as crianças. 
“Este ano, 10.000 candidatos de 177 países se inscreveram para o Global Teacher Prize. Depois de uma primeira seleção, ficaram 50 semifinalistas e, na final, restaram 10 com perfis muito diferentes, mas sempre com um comprometimento muito grande com uma comunidade estudantil cercada de problemas. Tabichi é o primeiro homem que vence, antes dele foram quatro mulheres – elas são maioria no ensino –, e nas apostas entravamos nomes de dois latino-americanos (a brasileira Débora Garofalo e o argentino Martin Salvetti) porque o subcontinente ainda não foi premiado, apesar de ter muitos semifinalistas.”





Melhor instrumento


Tocava viola numa grande orquestra. Roubaram-lhe o precioso instrumento. Passou a cantar Bach, com estrondoso sucesso.

terça-feira, 26 de março de 2019

Oposição

Charge do dia



André Dahmer

Jogo dos Microcontos


1 . Pensava que a vida dele daria um filme. Com trilha sonora um tanto dissonante.

(Em parceria com Paulo Sergio Viana)


2. Pensava que a vida dele daria um filme. Morreu atropelado. O acidente, filmado por uma câmera de rua, apareceu nos noticiários.


3. Pensava que a vida dele daria um filme. Depois descobriu que quase todo mundo pensa a mesma coisa. Perdeu a graça.


4. Pensava que a vida dele daria um filme. Etcétera.


Uma brincadeira 

Eis uma sugestão para aqueles que ministram oficinas de escrita, ou para qualquer grupo que aprecia as palavras e gosta de brincar, e que poderíamos chamar Jogo dos Microcontos
Alguém oferece a primeira frase, curta de preferência, e o grupo completa o microconto, com o limite de 140 toques (ou o limite que o grupo escolher). 
Ganha aquele que compuser o melhor texto. Ou ganham todos que amam as palavras.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Ah!, as mesóclises


Ao ser preso, afirmou: 
- Explicar-me-ei junto às instâncias competentes.

Karen Uhlenbeck



Karen Uhlenbeck, prêmio Abel de Matemáticas, em Princeton.
Andrea Kane/AFP


“A matemática norte-americana Karen Keskulla Uhlenbeck se tornou a primeira mulher a receber o Prêmio Abel (considerado o "Nobel" da Matemática) desde que começou a ser concedido, em 2003. Professora emérita da Universidade do Texas, em Austin, e Senior Research Scholar da Universidade de Princeton e do Instituto de Estudos Avançados (EUA), Uhlenbeck fez avanços impressionantes no campo das equações diferenciais parciais geométricas, na teoria de gauge e em sistemas integráveis. Seus resultados tiveram um impacto transformador nos campos da geometria e da análise, ampliando os limites do conhecimento e fazendo descobertas profundas na fronteira da matemática com a física.”



terça-feira, 19 de março de 2019

Estranha vingança


Procurou a mulher para assassiná-la. Não a encontrou. Por vingança, matou o próprio cachorro.

Maxime Maufra

Meus quadros favoritos



Maxime Emile Louis Maufra (Nantes, Fr. 1861 – Sarthe, 1918)
Pintor e paisagista francês.

Colheita da maçã



Colheita em pomar de São Joaquim, na serra catarinense
Foto: Giovanni Bello/Folhapress


A reportagem é de Paula Sperb, para a Folha (19 mar 2019):
“Doces, suculentas e crocantes. Assim são as maçãs produzidas em São Joaquim (SC). Neste ano, a colheita, feita manualmente, deve atrair 5.000 trabalhadores de diversas partes do país para a cidade de 26.763 habitantes, a 156 km de Florianópolis. 
Tirar as frutas das macieiras é trabalhoso. Os empregados usam escadas para alcançar o topo das macieiras, que podem chegar a quatro metros de altura.
A safra da serra catarinense deve variar de 350 mil a 400 mil toneladas, o que equivale a um terço da produção brasileira, segundo Rogerio Pereira, presidente da Associação de Maçã e Pera de Santa Catarina (Amap). 
A colheita ocorre de fevereiro a maio, mas as maçãs duram muito mais. É provável que as frutas colhidas agora sejam as consumidas na ceia do Réveillon de 2020. Isso porque elas são armazenadas em câmaras refrigeradas com uso de tecnologia específica.”


segunda-feira, 18 de março de 2019

Morte inesperada


Mulher morre após ser estuprada e espancada por homem que efetuava serviço de pedreiro para ela. Morreu aos 92 anos de idade. 

Al-Jahiz e a evolução das espécies




O Livro dos Animais, de al-Jahiz, tem sete volumes
GETTY IMAGES


Darwin, em seu livro A Origem das Espécies, de 1859, causou verdadeira revolução no conhecimento humano, ao propor a ideia de que as espécies mudam gradualmente por meio de um mecanismo chamado seleção natural, e que as diferentes espécies surgiram de um ancestral comum. 
            A espantosa notícia publicada pela BBC News (16 mar 2019) é a seguinte: “Cerca de mil anos antes de Darwin, um filósofo muçulmano que vivia no Iraque, conhecido como Al-Jahiz, escreveu um livro sobre como os animais mudam através de um processo que também chamou de seleção natural”.
Seu nome era Abu Usman Amr Bahr Alkanani al-Basri, e seu apelido, Al-Jahiz, que significava “alguém com olhos esbugalhados”. Seu livro intitulava-se Kitab al-Hayawan (O livro dos animais, em tradução livre).



“Al-Jahiz nasceu no ano 776 na cidade de Baçorá, sul do atual Iraque, numa época em que o movimento Mutazilah – uma escola de pensamento teológico que defendia o exercício da razão humana – estava crescendo na região, no auge do califado Abássida. Obras acadêmicas eram traduzidas do grego para o árabe, e Baçorá sediava importantes debates sobre religião, ciência e filosofia”.
“O papel havia sido introduzido no Iraque por comerciantes chineses, o que impulsionou a difusão de ideias, e o jovem Al-Jahiz começou a escrever sobre vários temas, como ciência, geografia, filosofia, gramática árabe e literatura. Acredita-se que ele tenha publicado 200 livros durante a vida, mas só um terço sobreviveu até nossos dias.” 
“Sua obra mais famosa, O Livro dos Animais, foi concebida como uma enciclopédia com 350 espécies, onde Al-Jahiz postula ideias que se parecem muito com a teoria da evolução de Darwin. Os animais estão envolvidos numa luta pela existência e pelos recursos, para evitar serem comidos e se reproduzirem", escreve Al-Jahiz. "Os fatores ambientais influenciam nos organismos fazendo com que desenvolvam novas características para assegurar a sobrevivência, transformando-os assim em novas espécies. Os animais que sobrevivem para se reproduzir podem transmitir suas características exitosas a seus descendentes".
“A contribuição do mundo muçulmano à ideia da evolução não era um segredo para intelectuais europeus do século 19. De fato, um contemporâneo de Darwin, o cientista William Draper, falava da "teoria da evolução maometana" em 1878. No entanto, não há evidências de que Darwin conhecesse o trabalho de Al-Jahiz ou de que entendesse árabe.”
“O jornalista científico Ehsan Masood, que realizou uma série para a BBC chamada Islam and Science (O Islã e a Ciência), diz que o criacionismo não parecia existir como movimento significativo no século 9 no Iraque, quando Bagdá e Baçorá eram os principais centros de ensino avançado na civilização islâmica.” 
Espantosa notícia!




sábado, 16 de março de 2019

Lila e Blimunda




Aldravia N.81


atrevida
Lila
chega
-- rouba
a
cena


Foto: Mercêdes Fabiana, mar 2019.

Yehuda Amichai, antologia




Jerusalém


Num telhado da Cidade Velha,
A roupa no varal ilumina-se à última luz do dia:
o lençol branco de uma mulher inimiga,
a toalha de um homem inimigo
para enxugar o suor do meu rosto.

No céu da Cidade Velha
há uma pipa.
No fim da linha – 
um menino,
que eu não vejo
por causa da muralha.

Hasteamos muitas bandeiras,
eles hastearam muitas bandeiras.
Para pensarmos que eles são felizes.
Para pensarem que nós somos felizes.


                                   Yehuda Amichai
                                   In: Terra e paz, antologia poética.
                                   Tradução: Moacir Amâncio
                                   Ed. Bazar do tempo, 2018.


Yehuda Amichai (1924-2000), celebrado poeta israelense, foi traduzido para mais de 40 idiomas. A citada antologia é sua primeira publicação no Brasil, traduzida diretamente do hebraico. A capa do livro é belíssima, com foto do Muro Ocidental, em Jerusalém, projeto gráfico de Victor Burton.


Mais de Pedro Salomão


Enquanto as pessoas lutam umas com as outras
para defender seu próprio conceito de paz,
eu prefiro sair do ringue e ir respirar lá fora.
Eles que se matem pelos seus ideais.
Meu valor é ser.
Minha expressão é agir.
Existe o bem e o mal
Eu sou todo o resto.

* * *

Tem presença leve,
e não é por ser leve
que passa despercebida.
Pelo contrário,
quando chega nos lugares
ilumina o ambiente inteiro.

p.s. Quando te vi chegar.

* * *

Às vezes eu flutuo.
Às vezes eu afundo.
Meus pés raramente estão no chão.

* * *

Está tão apaixonada 
que agora não consegue se ver com outra pessoa
além dela mesma.

                                               
                                               Pedro Salomão
                                               In Eu tenho sérios poemas mentais.


Apresentação:


quarta-feira, 13 de março de 2019

Flores e formigas

fotominimalismo
e haicai





doçura nas flores
as formigas se lambuzam
– estarão felizes?



Foto: AVianna, mar 2019, jardim, Iphone 8 plus.

terça-feira, 12 de março de 2019

Lila dorme

fotominimalismo




Foto: AVianna, mar 2019.

Delicadeza de Medvedev

Meus quadros favoritos




Igor Medvedev (1931-2015), pintor nascido na Ucrânia, antiga União Soviética.

350 anos da morte de Rembrandt




A Ronda Noturna ou A Ronda da Noite é uma pintura a óleo sobre tela do pintor neerlandês Rembrandt, pintada entre 1639 e 1642. A pintura mede 380 cm de altura e 454 cm de largura e mostra a Guarda Cívica de Amsterdã sob comando do capitão Frans Banning Cocq. Geralmente considerada como a magnum opus de Rembrandt, A Ronda Noturna é uma das pinturas mais conhecidas do Barroco. A peça é de propriedade do município de Amsterdã e faz parte da exposição permanente do Rijksmuseum, principal museu especializado em pintura neerlandesa.”





Homenagem a Coutinho




Morreu ontem Coutinho, companheiro de Pelé; ambos ficaram famosos pelas tabelinhas e pelo número de gols que marcaram para o Santos FC na década de 6o.

Foto: Arquivo AE

Carnaval no Recife




Cecília fantasiada para o Carnaval



Carnaval em P & B

domingo, 10 de março de 2019

sábado, 9 de março de 2019

Na Espanha as maiores manifestações

A foto do dia


375 mil pessoas nas manifestações de Madri
no Dia Internacional da Mulher


Foto: Fernando Villar / EFE
Charge do dia (tirinha)


Este cão sou eu!


Saramago perde a carteira




Numa postagem anterior a esta, sob o título A chegada, (http://loucoporcachorros.blogspot.com/2019/03/a-chegada.html), tratei de assunto corriqueiro, prosaico, banal, que foi perder-me em um estacionamento de aeroporto, certo de que me haviam roubado o carro, quando da visita de meu amado irmão. A intenção era confirmar a ideia de que qualquer assunto serve para uma crônica. O que varia é a arte do escrevinhador.
            Havia lido dois dias antes, no Último caderno de Lanzarote, de José Saramago Companhia das Letras, 2018), texto interessantíssimo do nosso Nobel, relatando a terrível experiência de esquecer a carteira numa cabine telefônica e perdê-la. Terrível porém corriqueira, prosaica, banal, e Saramago aproveita-se dela para escrever delicioso texto, repleto de humor fino, a erigir até mesmo uma estátua da Desolação.  
            Isso é saber escrever!
            Vamos a um trecho do diário de 13 de fevereiro de 1998.

“Restava-me agora aguardar tranquilamente que acabasse de se organizar a caravana de autocarros que transportaria os passageiros a Corralejo, de onde o barco da carreira me devolveria a Lanzarote. A tranquilidade, porém, não durou muito, a alma caiu-me desamparada aos pés. Tinha deixado na cabina telefônica a carteira em que guardo os documentos de viagem, passaporte, bilhetes, cartões de companhias aéreas, cartões para chamadas, algum dinheiro... Não era a primeira vez que me acontecia uma destas nem iria ser com certeza a última. Extraio meticulosamente a carteira da mala de mão, coloco-a direitinha na prateleira da cabina, mesmo diante do nariz, não vá a má sorte fazer com que me esqueça, enfio o cartão na ranhura, marco o número, falo, ouço, termino a chamada, e depois (se não o deixei lá...) retiro o cartão e vou aos meus outros afazeres como se nada de anormal tivesse sucedido, abandonado os preciosos salvo-condutos à curiosidade ou à cobiça do primeiro que apareça. Levantei a alma do chão e corri à cabina como um desesperado, mas a carteira desaparecera. Suponho que quem reparasse em mim naquele momento pensaria que a administração do aeroporto de Fuerteventura decidira erigir uma estátua representando a Desolação, inspirada, talvez, no conhecido abatimento do passageiro frustrado que perdeu o voo no último minuto. Eu não perdera o voo, perdera a carteira, e entre perdê-lo a ele e perdê-la a ela, viesse o diabo e escolhesse.”

Peço encarecidamente ao leitor que não faça qualquer comparação entre as duas postagens: impossível alguém escrever frase mais linda que “a alma caiu-me desamparada aos pés”.

P.S.: A carteira foi encontrada pela mulher da limpeza e devolvida intacta ao ilustre proprietário.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Mangueira e Marielle

A foto do dia



Não consegui até agora identificar o autor.

A chegada


De antemão posso assegurar ao meu eventual leitor que os acontecimentos que passo a narrar são absolutamente verídicos e isentos de qualquer dose de ficção e que esta afirmação é endereçada principalmente a mim mesmo pois custo a acreditar no ocorrido tanto mais ele me retorna à mente – uma lembrança recorrente de quem parece recusar-se a encarar a verdade.
            Meu irmão, e aí reside a chave do problema – trata-se do meu irmão –, chegaria de São Paulo às onze e trinta da noite de uma sexta-feira para passar conosco o fim de semana. Minha agitação começou há duas semanas, de modo que um tempão antes da hora marcada já me encontrava no aeroporto, de olho no painel Arrivals
            E o painel anunciou a confirmação da chegada dentro do horário previsto!
            Tudo bem, agora é esperar, mas eu não conseguia tirar os olhos da porta de desembarque, dos passageiros que chegavam em voos anteriores. Meu olhar desviava-se alternadamente dos passageiros que cruzavam o portão para o painel que marcava a chegada dos voos e ao relógio do meu celular. No painel, o voo do irmão sempre CONFIRMADO. Mesmo assim, minha ansiedade aumentava a cada minuto.
            Landed. Pronto, pousou, agora o olhar não mais se desvia do portão de desembarque, cada face que passa é escrutinada pelo meu complexo retina-cérebro, o coração acelera, a respiração ofegante, a impressão é que aquele desfile de rostos desconhecidos não acaba mais, até que reconheço o irmão. Nos abraçamos efusivamente.
            A primeira conversa é sempre a mesma, O voo chegou cinco minutos adiantado, Então foi bom eu chegar mais cedo, A que horas chegou?, Há quinze minutos (mentira), Ótimo voo, Cansado?, Nada, Deixa eu pagar o estacionamento, mas antes preciso avisar em casa que você chegou, para que o bacalhau vá para o forno.
            E passo a procurar um caixa eletrônico para o pagamento. O primeiro, fora de serviço; o segundo funcionando, lugar escuro, quase meia-noite, leio as instruções com certa dificuldade, coloco o cartão do estacionamento, depois o meu cartão de crédito, senha, sai o comprovante, retiro meu cartão de crédito e vamos embora.
            Então a saga tem início. Andamos quase até o fim do estacionamento e nada de encontrar o carro. Olho de um lado, olho de outro, ando pra-lá-e-pra-cá, encontro-me numa área praticamente deserta, não vejo meu carro e nenhum outro carro, sensação estranha, não sei onde estou, estou perdido, quase pânico, ROUBARAM MEU CARRO!  
Tive a impressão de que o irmão não se impressionou com a retumbante frase, não se abalou nem um pouquinho, como quem não acreditasse no que estava ouvindo, e isso me afetou. Talvez o carro esteja aqui, eu é que não o encontro, pensei, e meu irmão já sabe disso, pensamento que me acalmou. (Liguei para avisar que íamos nos atrasar para o jantar.) Então pude analisar com mais calma a topografia do enorme estacionamento de aeroporto e percebi que estava no lugar errado. (O irmão colocou a mochila no chão e permaneceu calmo imóvel impassível durante todo esse tempo.)
            Ufa! Encontrei o carro. Bagagem no porta-malas, nos acomodamos aliviados, dei a partida em direção à saída, não sem antes ligar para casa e avisar minha mulher que agora estávamos saindo do aeroporto. Parado em frente à cancela, onde o cartão do estacionamento? PERDI O CARTÃO DE ESTACIONAMENTO. PUTA-QUE-O-PARIU!
            Confesso, estava à beira de um surto psicótico. Havia também o constrangimento de obrigar o irmão a passar por todo aquele vexame. A vontade era de arremessar o carro contra a cancela, arrebentá-la, ir para casa, terminar com aquele suplício. Uma câmera bem postada dizia-me que aquela era outra má ideia.
            Procurei o guichê onde havia um funcionário com quem pudesse conversar, expliquei o caso, a senhora que me atendeu pediu documentos, identidade, carteira de motorista – parecia coisa séria –, paguei multa, recebi outro cartão para a saída, liguei de novo para casa para avisar que houve um contratempo, mas que chegaríamos em breve. (O irmão aventou a hipótese de que o cartão do estacionamento ficara esquecido na máquina de pagamento eletrônico, hipótese tão provável quanto inútil naquele momento, atestando apenas mais uma falha de minha memória.) A esta altura eu estava exausto e meu irmão visivelmente espantado com tamanha confusão. Sobre o que pensou sobre tamanho desvario, jamais me disse.
            Em pouco mais de meia hora estávamos jantando a ótima comida preparada por minha mulher, acompanhada de um bom tinto, e pouco se falou sobre o acontecido, que não me sai da cabeça decorrido mais de ano. Uma lembrança recorrente de quem parece recusar-se a encarar a verdade? Medo do tal alemão? Quem sabe este registro – mais uma vez a escrita terapêutica! – possa aliviar o pesadelo.
            

Lei boa

Charge do dia



Vacina e autismo


Por mais absurdo que pareça, ainda se discute a ocorrência de possíveis efeitos colaterais das vacinas, como o autismo.
A tese de que a vacina contra a rubéola, caxumba e sarampo, conhecida como tríplice viral, provoca o autismo surgiu após a publicação de um artigo de Andrew Wakefield, em 1998, no The Lancet. O boato persiste até hoje.
Daí a importância do recente estudo desenvolvido na Dinamarca, envolvendo 600.000 crianças e publicado nesta segunda-feira no Annals of Internal Medicine, como mostra El País de hoje (6 mar 2019), por Carolina Garcia, com o título Vacinas não causam autismo: o mais amplo estudo do tema sai na Dinamarca. 
Os pesquisadores “estudaram as características das crianças e o tempo decorrido desde a vacinação, um total de 657.461 nascidos na Dinamarca de 1999 a 2010, e as acompanharam desde o primeiro ano de vida até agosto de 2013. 
Em todos os casos se avaliou se as crianças foram vacinadas, se tinham sido diagnosticadas com autismo, se havia algum membro da família com esse transtorno neurobiológica ou algum outro fator de risco para o autismo. No total, foram avaliadas mais de cinco milhões de pessoas, das quais apenas 6.517 crianças foram diagnosticadas com a incidência de autismo, dizem os autores, ou seja, 129,7 para cada 100.000 habitantes. 
Não se observou nenhuma diferença entre as crianças vacinadas e as que não eram, e não se verificou nenhum risco adicional para padecer de TEA entre os vacinados.”
“Nossa conclusão é que a vacina tríplice viral não aumenta o risco de sofrer de autismo".
A óptica dos grandes números tem força para estabelecer a verdade. 



terça-feira, 5 de março de 2019

Bom uso do palavrão


Em sua crônica de hoje para a Folha de S.Paulo (5.mar.2019), Qual crime?, Hélio Schwartsman aproveita o desmoronamento da barragem em Brumadinho para fazer a distinção entre homicídio culposo e homicídio doloso.
Escreve ainda sobre a figura do dolo eventual, “que ocorre quando o acusado, embora não desejasse a morte da vítima, assume o risco de causá-la, revelando verdadeiro desprezo por sua vida”. Ao explicar a diferença entre dolo eventual e culpa consciente, Schwartsman utiliza-se do palavrão, pelo que pede desculpas antecipadamente.
            Eis o excelente parágrafo do articulista:

“Imagine um cidadão de bem, armado, que quer dar um susto no ladrão, atirando em sua direção. Se ele tem consciência de que pode acertar um órgão vital e matar o bandido, mas diz "foda-se" e atira, temos dolo eventual. Se, ao contrário, depois de atirar e matar o gatuno ele exclamar "fodeu", ocorre a culpa consciente. Brumadinho parece mais um caso de "fodeu" do que de "foda-se".”

            A palavra em questão não tem uso corrente nos principais jornais do país, todos com seu Manual de Instruções aos respectivos jornalistas. Schwartsman tem autoridade moral para registrá-la, e o faz com propriedade.
            Repito uma pequena história pessoal, que me marcou para a vida inteira. Tive ótimo professor de português no ginásio e científico (era assim que se chamava, naqueles idos de 50), tratado por Seu Afonso, e que dizia enfático, As palavras são criadas para serem usadas adequadamente, uma bela menina possui lábios, mas o demônio tem beiço.
            O foda-se do Schwartsman é para a vida toda.
            



segunda-feira, 4 de março de 2019

O susto de Suzete


Meu querido André,

como você demora a me escrever, escrevo eu, mesmo que não tenha grandes novidades para contar. 
Não escrevo sobre política pois sei que você está bem mais atualizado do que eu, nesse nosso país da piada pronta, como diz o José Simão. Mas escrevo quando tenho um caso para contar, aí sim, com prazer redobrado relato o acontecido no salão, ah! sempre o salão, com gente que senta na minha cadeira, onde só corto cabelo de homem. (Outro dia recebi um e-mail de um leitor de seu blog, dizendo que eu repito muito esse negócio de “só cortar cabelo de homem”, está bem, todos já entenderam isso, que não preciso ficar repetindo repetindo repetindo, mas o que posso fazer se esta é a minha marca registrada?) Sem mais delongas (nunca pensei que um dia escreveria esta palavra!), vamos ao caso.
Há poucos dias sentou-se em minha cadeira homem perto dos 40, bonito, porte atlético, pediu o corte da moda, máquina zero nas laterais, deixando o cabelo curto até a nuca. Meu trabalho já ia pela metade quando de repente o homem, Bráulio seu nome, saiu-se com essa:
– Você sabe que a Terra é plana?
Putaqueopariu André, levei um susto danado, certa de que estava cortando cabelo de um maluco.
– Como? retruquei.
– Você nunca ouviu falar nos terraplanistas?
            – Terra-o-quê?
            – Terraplanistas. Sou um deles. Nós não acreditamos nessa bobagem difundida pela mídia oportunista reacionária conservadora que prega que a Terra é redonda. Onde já se viu? Eu acredito no que vejo, e vejo a Terra bem planinha; você já viu essas plantações de algodão soja milho cana feijão arroz café, todas a perder de vista, uma planura só, já viu? Pois é, como a Terra pode ser redonda, me diga?
            André, eu não sabia o que dizer, se ria ou se chorava, Bráulio falava com tamanha convicção, não havia espaço para diálogo, muito menos contradição. E ele continuou com a ladainha, com sua epanástrofe cansativa, eu parada com pente e tesoura nas mãos, besta de tudo.
            – E onde o senhor aprendeu isso, Seu Bráulio?
            – No YouTube, naturalmente! Está tudo lá, é só você procurar. Tudo provado e comprovado, a Terra é, e sempre foi, PLANA. E nós, os terraplanistas, estamos planejando uma viagem para o lugar onde a Terra termina.
            Arrisquei mais uma intervenção:
            – Mas o que pensar das fotografias enviadas por satélites, pelas naves ocupadas por astronautas, mostrando a terra azul e redonda?
            – Tudo conspiração de uma mídia manipuladora. Está tudo lá, a verdade, no YouTube. São os terraplanistas que afirmam e provam: a Terra é plana!
            André, não abri mais a boca, terminei logo o serviço, o homem elogiou o corte, levantou-se e se despediu enfaticamente:
– Vá ao YouTube, está tudo lá, ciência pura, junte-se a nós, porque a Terra é plana.
Você não vai acreditar, meu amigo. Ao chegar em casa abri meu computador e fui direto ao YouTube, onde encontrei milhares de notícias, vídeos, prós e contras a ideia da Terra Plana, uma discussão sem fim, e eu nunca tinha ouvido falar dessa estultícia. 
Pergunto a você, que sabe das coisas, que mundo é esse em que vivemos? Se tem gente duvidando até da redondeza da Terra, em que então podemos acreditar? Mídia manipuladora, é isso mesmo?
Bem, eis o caso que desejava contar.
Espero sua resposta em breve.

Da sempre sua,
                                               Suzete.


P.S.: Gostou da epanástrofe? Aprendi isso, usar palavras dicionarizadas mas que não são de uso comum, com o Evandro Affonso Ferreira, de quem você é fã.