terça-feira, 26 de abril de 2016

Truman



            Talvez Truman pudesse ser visto como um filme comum, já que o tema de que trata é frequente no cinema, não fora a interpretação magistral, inesquecível, digna de todos os prêmios, do argentino Ricardo Darin, com roteiro e direção do espanhol Cesc Gay.
            Julian (Darin) é um ator de teatro que vai morrer em breve. Um câncer disseminado o leva a recusar qualquer outro tipo de tratamento, o que o condena à morte num período de tempo relativamente curto.
            Julian tem um cachorro chamado Truman e um grande amigo, Tomás (Javier Cámara), que o visita por quatro dias, vindo de um país distante. O animal e o amigo criam o fio condutor da narrativa.
            Serão quatro dias vividos com grande intensidade, com toques de humor, muita sensibilidade, sem descambar para a pieguice ou mau gosto, em torno da perda gerada pela morte.
            A relação de Julian com seu cão presta-se perfeitamente para o tratamento do tema perda. Aqueles que convivem com seus cães por muitos anos sofrem terrivelmente na hora da morte do animal. Diante desta perda, alguns adquirem outro cachorro, seguros de que um dia voltarão a sofrer com a morte dele. Outros afirmam que jamais terão outro animal de estimação, pois não suportariam vivenciar a perda novamente.
            Mas não é assim a vida, uma sucessão de perdas desde que nascemos? Aí entra outro aspecto decisivo do filme de Cesc Gay: Tomás, o amigo, aceita a opção feita por Julian, a de recusar outras formas de tratamento, e permanece a seu lado, amorosamente, sem criticá-lo, sem tentar fazê-lo mudar de atitude, uma verdadeira e rara amizade.
            Porém é a interpretação de Ricardo Darin, volto a enaltecer, que emociona o expectador. Sua expressão corporal, os silêncios, a expressão ora de raiva, ora de revolta, a resignação, o amor pelo cão, a confiança que deposita no amigo, são manifestações que emprestam tremenda credibilidade à trama, fazendo com que o expectador se identifique e se entristeça profundamente por Julian.
            Filme bom é aquele sobre o qual podemos conversar ao sair do cinema. No primeiro momento o expectador fica paralisado pelo sofrimento expresso pela trama de Truman, ele precisa de um tempo para colocar os próprios sentimentos em ordem, para só depois falar do assunto.
Não há dúvida, o filme é tristíssimo, mas vale a pena chorar por ele.