quinta-feira, 30 de abril de 2015

Alfredinho

Ao meu querido amigo Leopoldo,
um homem alto.

Desde muito cedo Alfredinho tinha a certeza de que, quando se tornasse adulto, seria um homem baixo. Pior que isso, seria baixinho, pois é assim que são nomeados aqueles ou aquelas de baixa estatura. O inevitável diminutivo, verdadeiro pleonasmo, reforça a condição.
Até os 17 anos de idade Alfredinho sofreu com isso. Desde a escola primária, era o primeiro da fila. Isso pouco o incomodava, perto dos apelidos que ganhava: Tampa, Tampinha, Toquinho, Dunga, Zangado (quando ele se zangava), Pequeno Polegar, Projeto, Mindinho, Miúdo, a lista não tinha fim. Mas o apelido que pegou mesmo foi o de Tambô, uma redução de Tamborete, e este era o que Alfredinho mais detestava. Por isso mesmo pegou, que nem grude.
Quando começou a se entender por gente, o menino percebeu que o pai era baixinho, que a mãe era baixinha, que os dois irmãos mais velhos eram baixinhos, e que portanto não havia escapatória, ele seria baixinho. Sofreu com isso, é verdade, principalmente pelas gozações na escola. Já um pouco mais crescido, se é que podemos colocar assim, Alfredinho sofreu por causa das meninas, quase todas mais altas do que ele. Vai ser difícil arranjar uma namorada, pensava.
O que faltava ao menino em tamanho, sobrava em inteligência e determinação. Além do que não era feio, ao contrário, era bonito de rosto, as feições bem proporcionadas, moreno claro, cabelo preto e liso, dono de um sorriso franco e cativante. E bem falante, esta a sua principal virtude! Bom aluno, estudioso, gostava de português; leitor persistente, esmerava-se no modo de falar, desde cedo por influência dos pais, ambos professores. Gostava também de cinema, e às vezes era pego falando sozinho; maluco que nada, estava apenas imitando a fala dos galãs.
Por volta dos 17 anos o problema das namoradas tornou-se o dilema fundamental na vida de Alfredinho, questão de vida ou morte. Precisava arranjar uma namorada, e não podia ser feia. Foi quando ele resolveu estudar a fundo a “psicologia feminina” – expressão que não cansava de repetir para si mesmo. Preciso descobrir do que elas gostam, matutava ele.
Nessa época frequentava os bailes da escola, mas quase sempre ficava no grupo dos meninos, de olho nas meninas, tímido na hora de escolher seu par. Foi exatamente isso que lhe proporcionou a ideia salvadora, que iria mudar para sempre o rumo de sua vida. Resolveu tornar-se um grande dançarino.
Desde logo compreendeu que não seria nos tais bailes da escola que ganharia prática. Em segredo, resolveu experimentar a zona, dessas em que as moças ganham primeiro com a dança, depois com o principal. Ao entrar ia logo dizendo, Olha querida, eu pago o serviço completo, mas só quero dançar, você topa? Elas topavam, e dançavam a noite inteira.
Em pouco tempo Alfredinho tornou-se exímio bailarino. Com seu jeito de menino bem educado, atencioso, conhecedor da “psicologia feminina”, tornou-se o queridinho das putas. Ninguém o tratava por Tambô; era Dinho pra cá, Dinho pra lá, o maior chamego, par disputadíssimo – sem qualquer intenção trocadilhesca – nos salões do alto e baixo meretrício.
Quando se viu dançando quase como um profissional – ele levava jeito para a coisa –, Alfredinho voltou aos bailes da escola. O sucesso foi estrondoso! A primeira menina que tirou para dançar era baixinha e feia, e ele nem se importou com isso, queria apenas se exibir. O baile parou para presenciar o acontecimento. Terminada aquela primeira dança, as meninas, de todos os portes e estaturas, fizeram fila para dançar com ele, para assombrada inveja dos colegas.
No dia seguinte, por toda a escola, só se falava no milagre: Alfredinho pé-de-valsa. Daí para arrumar uma namorada foi questão de dias, linda e, naturalmente, mais alta do que ele, o que multiplicou a inveja dos meninos.

Perguntado sobre o mecanismo daquela transformação, Alfredinho apenas respondia, É a psicologia feminina...