quarta-feira, 4 de julho de 2018

Suzete na Copa da Rússia


Querido André,

faz tempo que não lhe escrevo, eu sei, é que ando trabalhando muito, porém feliz como sempre com meu trabalho – que todos conhecem e reconhecem, aqui no salão, na cidade, aqueles que leem seu blog –, cortar cabelo de homem. 
O número de clientes aumentou muito! Você não faz ideia, a dona do salão está marcando hora para o corte, senão dá briga na fila. E sabe por que? Por causa da Copa da Rússia e dos cabelos dos jogadores de todo o mundo! 
Não é só o nosso Neymar; são ingleses, dinamarqueses, japoneses, suecos, russos, senegaleses, todos os africanos, os europeus, os sul-americanos, sem contar os próprios brasileiros, todos disputando quem tem o corte mais original. Ou mais horroroso.
E tem também os filhos dos jogadores, e, por imitação, todas as crianças da cidade pedindo cortes iguais aos dos jogadores. Chegam a me trazer fotografias, Moça, corta igual ao Paulinho!
Virou epidemia! 
E eu corto. O cliente pede, eu corto. Os pais pedem, eu corto. Quando é a criança que pede, exijo autorização por escrito do pai ou da mãe, que não sou doida. Quanto mais feio é o resultado, mais eles gostam. Outro dia saiu um marmanjo daqui parecendo que carregava um gambá na cabeça. Com rabo e tudo. 
André, encontrei na Internet essa fotografia do vilão do filme O último dos Moicanos (bem antigo, não!), certamente um personagem inspirador. As crianças adoram!



Há os que pedem máquina zero, Moça, raspa tudo, Mas seu cabelo é tão lindo, Moça, raspa tudo, que nem o Fernandinho. Fazer o que, eu raspo.
Virou moda!
E moda é coisa séria! Você não vive dizendo que futebol é coisa séria? Pois moda também é. Moda é moda, não é preciso explicar. E por isso vou cortando cortando cortando, eu não critico, aliás, estou ganhando um bom dinheiro com isso. Quem sabe vou conhecer Nova Iorque com esses extras!
Como tudo que é moda, há de passar. Então voltaremos aos cortes tradicionais  sérios comportados (adoro copiar suas manias, como esta de dispensar as vírgulas), cortes de bons-moços, talvez a valorizar muito mais o que vai dentro da cachola do que aquilo que a enfeita. 
Você costuma dizer e repetir que “tudo é uma questão de Educação”, não é mesmo? Você não acha que falta conteúdo craniano aos jogadores brasileiros? A maioria deles nem sabe falar, André. Tudo faremos para alcançar a vitória, Daremos tudo de nós, Darei tudo de si, Vamos virar o placar no segundo tempo, Faremos o que o professor mandar, as entrevistas antes, no intervalo e depois do jogo são sempre as mesmas, todos olhando para o vazio como se robôs fossem, automáticos vazios enfeitados com brincos de diamantes e cabelos estrambóticos. 
Vou lhe confessar uma coisa que nunca tive coragem de confessar: uma vez namorei um jogador de futebol! Por 3 dias. No primeiro dia, a novidade, a curiosidade; no segundo dia, o espanto; no terceiro, dei-lhe um pontapé na bunda. Com todo respeito aos jogadores, gente como a gente. Mas bem que eles podiam estudar um pouco, ler quando não estiverem treinando ou jogando, educar-se um pouco mais. (Acho que isso vale para jogadores de futebol e presidentes da república.)
Bem, isso não é da minha conta. Meu ofício é cortar cabelo de homem, jogador de futebol ou não.
São estas as novidades. Você, querido amigo, como vai? Não demore para enviar notícias suas.
Fico por aqui, receba um grande beijo.
Da sempre sua,

                                    Suzete.


Homenagem a Monteiro Lobato



Setenta anos, hoje, da morte de Monteiro Lobato. Vale a pena lembrá-lo, singela homenagem deste blogueiro, que leu-releu-treleu sua obra infantil, de cabo a rabo várias vezes.  
A reportagem é de Rodolfo Stipp Martino, e informa que o escritor José Bento Monteiro Lobato, um dos mais populares do Brasil, morreu aos 66 anos, na madrugada de 4 de julho de 1948, em São Paulo, vítima de um derrame cerebral.
Afirma Martino: “Cerca de um ano antes de isso ocorrer, ele havia declarado, em entrevista exclusiva para a Folha da Noite(um dos jornais que deram origem à Folha), que já não tinha mais pretensões e que estava curioso em saber o que acontece depois do fim da vida.”
Interessante a declaração bem-humorada de Lobato:

“O meu cavalo está cansado, querendo cova — e o cavaleiro tem muita curiosidade em verificar pessoalmente se a morte é vírgula, ponto e vírgula ou ponto-final”.

            Pena que ele não voltou para nos dar a resposta. Mesmo assim, Viva Monteiro Lobato!





Raízes


a serpentear na superfície
as raízes da velha acácia
constroem montanhas 
vales
picos nevados
labirintos sulcados

cansadas de habitar
as profundezas do chão obscuro
a sugar a seiva fecunda do húmus
entediadas do silêncio da terra
das umidades anônimas 
do quieto solo

assomam sáurias cá fora
constroem cidade remota de grandes muralhas
contraponto da árvore imensa
terrosa simetria desfolhada
que o vento não faz oscilar
que prescinde de luz
garra amarra na terra
coração que não pulsa 
apenas flui

sérias nobres raízes da velha acácia


                                    Paulo Sergio Viana

Foto: Paulo S. Viana
Originalmente publicado no Blog do Paulo: