quinta-feira, 17 de março de 2022

Medalhas medalhas medalhas

 Segunda charge do dia


Nando Motta

Eu mereço...

Charge do dia 



A medalha

 


 

Assim tem início É isto um homem?, de Primo Levi (Ed. Rocco, 1988). Penso que ninguém descreveu com tanta perfeição o que se passou a denominar Processo de Desumanização, executado pelos nazistas em seus campos de concentração. Os alemães perceberam que era mais fácil matar um animal, ou mesmo uma coisa, do que matar um ser humano. O trauma (porque havia um trauma) era bem menor entre os próprios soldados alemães.

            A luta por um pedaço de pão levava aquele que desejava sobreviver a subtrair o pão de seu semelhante, mesmo que isso lhe causasse dor em si mesmo. Sobreviver a todo custo, esta era a ordem. E isso também fazia parte do Processo de Desumanização.

 

            Esta foi a associação de ideias que me ocorreu com a notícia de ontem. Bolsonaro e alguns de seus asseclas, incluindo o ministro da justiça que outorgou a honraria a si mesmo, foram condecorados com a medalha do mérito indigenista.

            Durante mais de dois anos ouvimos o presidente desmoralizar os povos indígenas, tentar apagar a cultura deles, apoiar a evangelização dos povos ainda isolados, desaparelhar a Funai, incentivar desmatamento e mineração em terras indígenas, acabar com a fiscalização de atos ilegais na Amazônia, a lista de ações nocivas destruidoras perversas contra a população indígena é interminável.

            A maioria do povo brasileiro não concorda com tais atitudes. Agora, quando o presidente recebe uma medalha de mérito indigenista, sinto como se ele gritasse na minha cara:

 

“Veja como você é um merda mesmo, como você não vale nada, como sua opinião não vale nada. Eu piso nos índios e ganho uma medalha!

Eu não reconheço qualquer sentimento em você. Não me interessa o que você pensa sobre minha medalha, se gostou ou não gostou. Eu gostei, vou ganhar votos com isso.

Se não reconheço sentimentos em você, acho que você não pertence a mesma raça que eu. Acho que você não é humano.

Se você, povo brasileiro, é não humano, posso mentir à vontade, posso desdizer amanhã o que disse ontem, posso criar historinhas para desviar sua atenção daquilo que realmente importa. 

Você, povo desumanizado, adora historinhas: é a força avassaladora do Mito sobre a manada.

Para você, basta um Mito. Quem não é homem não pensa, não tem capacidade de crítica, acredita em minha medalha. Aquele desumanizado, eu faço dele o que eu quero, e ele não reclama, até acha bom!

Povo de merda... Coisa de merda...”

 

            Por associação livre, estes foram os pensamentos e emoções despertados em mim, pela condecoração do presidente da república com a medalha do mérito indigenista. Ao terminar esse texto, posso pensar, estou certo de que não sou uma coisa. Eu sou um homem.

 


Fome

Imagem & Microconto



Desvalido, sem teto, sem comer há três dias, quando viu aquele banquete pediu desculpas a Iemanjá e raspou o prato!



Foto: autor desconhecido.