segunda-feira, 15 de maio de 2017

De crônicas e cronistas

            
            Quando surge um novo cronista nos jornais de grande circulação  pergunto logo Será que emplaca? Quero dizer, será que o cara é bom?, vai dar conta do recado?, escrever semanalmente não é fácil, escrever bem, semanalmente, é mais difícil ainda, ou vai durar umas poucas semanas, substituído por alguém mais competente?
            Leio esses novatos com interesse e genuína curiosidade, além de exercer o pobre espírito crítico de que disponho. Admito desde já meu sentimento de inveja, pois gostaria de estar no lugar deles e enfrentar o desafio eu mesmo.
            Desta vez me refiro a Marcius Melhem, ator e humorista, agora colunista do caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, aos domingos. Que responsabilidade, meu deus!
            Pois a crônica de hoje (14 mai 17), Dia das Mães, intitulada Vó Eduarda, pareceu-me ótima! Melhem escreve com correção, o que é fundamental, mas tem boas histórias para contar, o que o torna, até agora, um bom cronista.
            Não é fácil escrever sobre questões familiares (memorialista era o Pedro Nava, que já morreu), além do que tais histórias são limitadas. Mas a da Vó Eduarda vale a pena conferir.
            Vó Eduarda, com cinco filhos, o mais novo com dois meses, moradora de Nilópolis, Rio de Janeiro, nos idos de 1930, separou-se do marido para viver um grande amor: foi morar com Olga, com quem viveu grande paixão durante 40 anos.
            Que história! O leitor não precisa de mais nada para ensolarar sua manhã de domingo.
Parabéns, Marcius Melhem.






sábado, 13 de maio de 2017

Empatia projetada

Há pouco mais de um mês este blog tratou de tema de grande interesse, sob o título Empatia em xeque. (http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2017/03/empatia-em-xeque.html)
O psicólogo canadense Paul Bloom (Professor de Psicologia na Universidade Yale) fez afirmação bombástica, a de que a “Empatia piora o mundo”.  
            Agora surge o texto de Ferran Ramon-Cortés (diplomado em Administração de empresas e especialista em Comunicação) no El País (6 - mai - 2017), Os riscos da empatia projetada, a falsa sintonia que pode machucar. Ele inicia com o pertinente relato de caso:

“Tenho um amigo que foi operado do coração um ano atrás. Era uma cirurgia simples e de pouco risco, realizada com o uso de um cateter, sem necessidade de nenhuma intervenção maior. Algumas semanas antes do procedimento, ele contou o fato a uma amiga em quem confia muito. Ela, fortemente consternada, lhe disse que imaginava que ele estivesse preocupado (“coração é coração, nunca se sabe”, disse ela), mas ele, com um sorriso, respondeu que não, que, embora uma cirurgia no coração sempre cause forte impacto, aquela era muito simples e quase sem riscos.
Um dia antes da internação, a amiga lhe telefonou.
-- Amanhã será a cirurgia. Como você está?
-- Tudo bem. Preparado – respondeu o meu amigo.
-- Estou perguntando porque, quando você me contou, senti que estava muito preocupado... – acrescentou ela.”

Ramon-Cortés chama o episódio de “erro empático”. A tal amiga, sempre preocupada com tudo e com todos, com a melhor das intenções, expressou o que ela estava sentindo, diante do risco de uma operação cardíaca. A isso o autor chamou de “empatia projetada”, o que não ajuda em nada no relacionamento com o outro, que sentirá que não o entendemos.
Afirmo que, diante do outro, (a) é desejável que possamos perceber suas expressões emocionais; e (b) que o nosso próprio julgamento não contamine aquilo que estamos captando.
A capacidade de percepção pode ser aprendida e aprimorada, o que haverá de influenciar nosso relacionamento com as pessoas. (No exercício da Medicina, o desenvolvimento desta qualidade é considerada fundamental para a boa Relação Médico-Paciente.)
Os julgamentos perturbam nossa capacidade de percepção da realidade alheia e vemos apenas aquilo que queremos ver. De igual modo, é preciso aprender e desenvolver a capacidade de ouvir sem julgar, o que não é fácil.
A análise pessoal pode ser de grande auxílio nesse mister, pois nos apresenta a nós mesmos antes que olhemos para o outro: somos todos humanos, imperfeitos, seres ainda em desenvolvimento, arraigados em muitos aspectos na infância da humanidade. O fundamentalismo religioso talvez constitua-se no maior obstáculo para ouvir sem julgar: a existência de dogmas, o moralismo, o preconceito, impedem nossa isenta percepção da realidade.
Continuemos, pois, pensando a Empatia.




sexta-feira, 12 de maio de 2017

Cândido aforismo


Antonio Candido afirma que “a literatura é, ou ao menos deveria ser, um direito básico do ser humano, pois a ficção/fabulação atua no caráter e na formação dos sujeitos”.


Formação da literatura brasileira



Antonio Candido afirma:

“Para compreender em que sentido é tomada a palavra formação, e porque se qualificam de decisivos os momentos estudados, convém principiar distinguindo manifestações literárias, de literatura, propriamente dita, considerada aqui um sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas dominantes duma fase. Estes denominadores são, além das características internas (língua, temas, imagens), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor, (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns a outros. O conjunto dos três elementos dá lugar a um tipo de comunicação inter-humana, a literatura, que aparece sob este ângulo como sistema simbólico, por meio do qual as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elementos de contato entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade. Quando a atividade dos escritores de um dado período se integra em tal sistema, ocorre outro elemento decisivo: a formação da continuidade literária, – espécie de transmissão da tocha entre corredores, que assegura no tempo o movimento conjunto, definindo os lineamentos de um todo. É uma tradição, no sentido completo do termo, isto é, transmissão de algo entre os homens, é o conjunto de elementos transmitidos, formando padrões que se impõem ao pensamento ou ao comportamento, e aos quais somos obrigados a nos referir, para aceitar ou rejeitar. Sem esta tradição não há Literatura, como fenômeno de tradição. (Antonio Candido, Formação da literatura brasileira)


Homenagem a Antonio Cândido




Morreu nesta manhã de sexta-feira Antonio Cândido de Mello e Sousa, aos 98 anos de idade.

A minha homenagem ao homem que amava a Literatura.

Foto: Flávio Moraes / G1