sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Um dia chegarei a Sagres: outra crítica


 

Miguel Sanches Neto escreve a resenha do Um dia chegarei a Sagres, de Nélida Piñon, para a Edição 249 (jan 2021) de O Rascunho. Destaco pequeno trecho, que comento em seguida.

 

“Narrado em primeira pessoa masculina, o romance se constrói a partir de retomadas constantes de fatos da infância do narrador e da História, que se misturam. O recurso de uma espécie de estribilho narrativo marca toda a obra, que se afasta dos meios da prosa para se aproximar dos meios da poesia. É em uma língua portuguesa excessivamente literária, que se quer maior do que os fatos, em uma épica contemporânea, sem deixar de cair no caricaturesco, que Nélida explora a identidade portuguesa enquanto idioma. A preferência pelos pronomes em posição de ênclise, o uso desbragado de metáforas e o tom heroico das frases buscam dar ao livro uma monumentalidade para evocar o valor textual da tradição camoniana. Assim, os capítulos se sucedem com um pequeno avanço do conflito, preso a passagens já narradas, que retornam constantemente. Com isso, percebemos que a viagem de ida é uma viagem de volta pela memória, e o que se afasta é também aproximação.”

 

            Confesso que ainda estou com o livro de Nélida na cabeça, um mês depois de terminada a leitura. Há coisas boas e coisas não tão boas no livro, penso; ao mesmo tem não me julgo capaz de uma crítica bem fundamentada. Por isso busco opiniões diversas, como esta que aqui apresento.

            Destaco no trecho de Sanches Neto a frase: “É em uma língua portuguesa excessivamente literária, que se quer maior do que os fatos”. Se compreendi bem, concordo plenamente; a escrita é tão importante que parece não necessitar da história, da narrativa do protagonista feita na primeira pessoa.

              Outra observação interessante de Sanches Neto: a escrita “se afasta dos meios da prosa para se aproximar dos meios da poesia”. Em outras palavras: nem prosa, nem poesia. Não há dúvida de que em alguns momentos surge o que se denomina prosa poética, e em grande estilo; em outros momentos, excesso de palavras.

            Mateus sai do norte de Portugal e para em Lisboa, onde nada acontece; apenas a língua “excessivamente literária” permanece. Em Sagres, pouca coisa acontece. No retorno a Lisboa é preciso terminar o livro, já com 500 páginas, e então a narrativa se adensa, ganha corpo, apresenta algo de concreto, mesmo que se trate de sentimentos.   Concordo que a autora abusa dos “pronomes em posição de ênclise”.

Mais não reencontrei na boa resenha de Sanches Neto que valha a pena comentar.

 

 

 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Pergunta-se: Bolsonaro é louco?

 

Em crônica de 23/jan/2021 para a Folha de S.Paulo, Hélio Schwartsman interroga: Bolsonaro é louco?

            Penso que todos nós algum dia já fizemos esta pergunta, diante de tantos desvarios, disparates, manifestos em atos e palavras, oriundos do presidente. 

            Segundo grupo de psiquiatras, afirma Schwartsman, ele “apresenta comportamentos compatíveis com critérios de transtornos de personalidade descritos tanto no CID-11 como no DSM-5. O que se destaca são traços de personalidade narcísica e paranoide, evidenciados por falta de empatia, agressividade, desconfianças (com o sistema eleitoral, por exemplo) e alguma desconexão com a realidade.”

            Circula hoje nas redes sociais vídeo de ontem com fala do presidente, com as seguintes palavras: "Vai pra puta que o pariu, porra. Imprensa de merda essa daí. É para enfiar no rabo de vocês aí, vocês não, vocês da imprensa essa lata de leite condensado.”

            Minhas desculpas aos mais sensíveis ao uso do palavrão, mas preciso reproduzir as palavras do presidente, para responder à pergunta que empresta título à crônica de Schwartsman: “Bolsonaro é louco?

            

            Em Hamlet, a fundamental peça de William Shakespeare, Polônio, pai de Ofélia,  desconfiado da sanidade mental de Hamlet, estabelece longo diálogo com o príncipe, que aqui resumo:

 

Hamlet: “Palavras, palavras, palavras.”

Polônio: “Qual a questão, meu senhor?”

Hamlet: “Em quem?”

Polônio: “Quero dizer, a questão sobre que estais lendo, meu senhor.”

Hamlet: “Calúnias, senhor; pois este malandro de satírico diz aqui que os velhos têm barbas grisalhas, faces enrugadas, olhos que excretam âmbar espesso e goma de ameixeira; diz ainda que têm ampla falta de discernimento, a par de fraquíssimos jarretes: embora eu creia nisso tudo vigorosa e intensamente, não me parece bem que esteja assim posto por escrito, pois vós mesmo, senhor, havíeis de chegar à minha idade... se pudésseis retroceder como um caranguejo.”

Polônio (à parte): “É loucura, mas há método nela.”

 

            (Hamlet, Abril Cultural, 1976, tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos.)

            Agora posso responder à questão formulada por Schwartsman: “É loucura, mas há método nela.”

            Todos sabem, Hamlet havia traçado plano para vingar o assassinato do pai, e se fazia de doido para enganar a corte. Hoje, nós somos a corte.

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2021/01/bolsonaro-e-louco.shtml

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2021/01/e-para-enfiar-no-rabo-de-voces-da-imprensa-essa-lata-de-leite-condensado-diz-bolsonaro.shtml

 

 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

The White Horse

Meus quadros favoritos



 Paul Gauguin, 1898

Cumprir ordens


 
No Tribunal de Nuremberg os acusados de crimes de guerra também alegavam que apenas cumpriam ordens. Foram todos condenados.

Tropas soviéticas libertam Auschwitz

Tropas soviéticas libertaram Auschwitz em 27 de janeiro de 1945



“Em 27 de janeiro de 1945, tropas soviéticas entraram cautelosamente em Auschwitz.”

“Primo Levi, um dos mais famosos sobreviventes, estava deitado em uma tenda médica com escarlatina quando os libertadores chegaram ao campo de extermínio nazista, na Polônia.

Soldados lançavam "olhares estranhamente desconcertados aos corpos espalhados, às cabanas surradas e aos poucos de nós ainda vivos", escreveria mais tarde Levi, judeu italiano que relatou o período em que passou ali em É Isto Um Homem? (1947).

"Eles não nos cumprimentaram ou mesmo sorriram. Pareciam oprimidos não apenas pela compaixão, mas pelo... sentimento de culpa de que tal crime pudesse existir."

"Nós vimos pessoas magras, torturadas, exaustas", descreveu o soldado soviético Ivan Martynushkin sobre a libertação do campo de extermínio. "Podíamos ver por seus olhares que estavam felizes de serem salvos daquele inferno." 

Em menos de quatro anos, a Alemanha nazista matou ao menos 1,1 milhão de pessoas em Auschwitz. Quase 1 milhão eram judeus.”

 

 

https://www.bbc.com/portuguese/geral-51220464?at_custom4=3DFCD1DA-6099-11EB-8B1A-FE284D484DA4&at_medium=custom7&at_custom3=BBC+Brasil&at_custom2=twitter&at_custom1=%5Bpost+type%5D&at_campaign=64

 

 

Epítetos presidenciais

 

A assunto tem sido recorrente neste blog, tanto mais que o blogueiro adora listas. Refiro-me ao costume que se difundiu amplamente, o de xingar o presidente; além de enriquecer o vocabulário do leitor, serve para extravasar nossa indignação diante dos desmandos, da insanidade, de tanta incompetência. Quando o casal presidencial inaugurou a exposição pública dos trajes usados na posse, este blog apresentou a lista de epítetos cabíveis.

https://loucoporcachorros.blogspot.com/2020/12/qual-melhor-legenda.html

            Hoje quem traz sua lista é o grande Ruy Castro, para a Folha de S.Paulo: Novos xingamentos contra Bolsonaro - A pecha de corruptor, covarde e traidor se junta às outras para definir o pior presidente do país (26 jan 2021). Ruy escreve:

 

“Desde sua posse, Jair Bolsonaro já foi chamado de cretino, grosseiro, despreparado, irresponsável, omisso, analfabeto, homófobo, mentiroso, escatológico, cínico, arrogante, desequilibrado, demente, incendiário, torturador, golpista, racista, fascista, nazista, xenófobo, miliciano, criminoso, psicopata e genocida. Os autores dessas desqualificações são cidadãos comuns que escrevem mensagens para os jornais, produzem memes e entopem as redes sociais. Está tudo registrado e seria divertido ver o governo processar tal multidão.”

 

            Ruy acrescente: “Mas é inútil, porque nada ofende Bolsonaro. Ele se identifica com cada desaforo. Afinal, foi quem rebaixou o Brasil ao nível de estrebaria de quartel... Nos últimos dias, Bolsonaro ganhou dois novos epítetos populares. Um, o de covarde, ao jogar a culpa por seus crimes nos ministros que ele mesmo escolheu e doutrinou. Outro, e que só agora começa a ser percebido por seu próprio público, o de traidor, ao se pôr de quatro diante dos países, pessoas e instituições que ele ordenou odiar.”

            E a lista cresce sem parar!

            

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2021/01/novos-xingamentos-contra-bolsonaro.shtml

 

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Machado para adolescentes


Antonio Candido

Felipe Neto provocou rebuliço nas redes sociais neste sábado (23 jan 2021), ao utilizar a corrente “Crie uma treta literária e saia”, no Twitter, para afirmar que “indicar livros clássicos como os de Álvares de Azevedo e Machado de Assis nas escolas contribuiu para que muitos adolescentes tenham aversão à leitura.”
          Ele acrescenta: “Forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis não são para adolescentes! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco.”

A postagem teve mais de 32 mil curtidas e 11 mil comentários, com participação de “especialistas em linguística concordando com o youtuber e muitos leitores revoltados com os argumentos usados por ele na discussão.” 

De antemão, me declaro incompetente para discutir o assunto. Só posso falar de minha experiência pessoal. Criamos, eu e meus irmãos, o hábito da leitura com Monteiro Lobato – leitura fácil, interessantíssima, a prender nossa atenção como se aquilo fosse realidade e não ficção, marca que perdurou pela vida inteira. No ginásio, tivemos o melhor professor de português possível, de nome Afonso, rígido, a cobrar a memorização de um poema por semana e a leitura de um livro (aprovado por ele) por mês. Líamos então Machado de Assis e Álvares de Azevedo.

Era chato? Às vezes era chato. Mas matemática, história, latim, música, e tantas outras disciplinas também poderiam ser enfadonhas em determinados momentos. Não deixamos de estudá-las por isso.

Entrar em contato com Machado já era importante, mesmo que não pudéssemos alcançar um cisco de sua genialidade.

Porém, minha experiência pessoal só vale para mim, não serve de argumento contrário ou a favor do tema em discussão. Me amparo em  autoridade no assunto: no ensaio “O Direito à Literatura”, Antonio Candido já explicava a importância do ensino curricular e democrático da literatura nas escolas:

 

“Por isso é que em nossas sociedades a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. [...] Ela não corrompe nem edifica, portanto; mas trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver”.

 

        Nada a acrescentar. Mas um bom professor pode ajudar muito!

 

https://jovempan.com.br/entretenimento/famosos/felipe-neto-critica-indicacao-de-livros-classicos-para-adolescentes-e-gera-polemica.html

 

domingo, 24 de janeiro de 2021

Questão de competência


Durante a semana, ele cozinha o trivial. Aos fins-de-semana, a chef assume e ele lava os pratos.

Há médicos e médicos!

 

Há médicos e médicos, porque antes de tudo vem a pessoa.

            Mineiro, natural de Uberaba, Clóvis era um desses seres especiais, que escolheu a Medicina por pura vocação. Pessoa simples, pouco afeito às artes em geral e em particular às sutilezas da literatura, fez questão de preservar suas origens no trato com as pessoas e no modo de falar.

            Eu, que o conheci bem  trabalhamos juntos –, guardo dele bela lembrança: nunca conheci profissional que conseguisse estabelecer melhor relação médico-paciente. A comprovação desse fato está na extraordinária história que passo a contar.

            Outro dia atendi em meu consultório a senhora H., acompanhada do marido; ela, perto dos 50 anos, nervosíssima, agitada, assustadiça, qualquer movimento meu era visto como uma ameaça à sua integridade física, queixava-se de surdez na orelha esquerda; o marido, paciente, calmo, sorridente, por certo acostumado com o desempenho teatral da esposa.

            Depois de examiná-la, indiquei uma simples lavagem de ouvido, para remoção de cerume. A mulher foi às nuvens; chorou desbragadamente, gritou, esperneou, imprecou aos céus que se me abatesse uma desgraça qualquer, e por fim, sobrou para o marido, Eu não disse que não queria vir nesse médico? 

            – Não permito de maneira nenhuma, assim ela encerrou o assunto.

            – Já teve filhos, senhora H.? perguntei calmamente.

            – Tive dois, um casal.

            – E como foi isso? Parto normal?

            – Sim, partos normais.

            – A senhora, como se comportou?

            – Doutor, sou uma predestinada porque tive a fortuna de ser atendida pelo Dr. Clóvis, mineiro de Uberaba, o senhor por acaso ouviu falar?

            – Sim, ouvi falar. Bom médico?

            – Aquilo é que era médico, o resto é conversa. Desculpe doutor, sem desfazer do senhor. Vou lhe contar uma história que é a prova de que estou falando a verdade.

            E a senhora H. iniciou longo relato sobre o primeiro parto, o segundo parto, as inúmeras vezes em que foi socorrida pela incomparável competência do Dr. Clóvis, e como era a última consulta da tarde, ouvi com paciência e interesse o caso do meu falecido amigo, de saudosa memória.

            – O que eu mais apreciava no Dr. Clóvis era o carinho com que me tratava! Um belo dia, chamei ele em casa por causa de forte gripe. Ele chegou logo depois da hora do almoço, ouviu minhas queixas, me examinou com o cuidado de sempre, mediu pressão, tomou pulso, escutou coração, pulmões, palpou a barriga (ai que vergonha!), meticuloso, calmo, seguro de si. Passou a receita, me tranquilizou, nada de grave; prescreveu repouso. 

            A consulta estava por terminar quando resolvi lhe oferecer delicioso licor de jabuticaba que tenho guardado com carinho, a especialidade da casa. Dr. Clóvis aceitou de pronto! E tomou o primeiro cálice, pediu mais, o segundo, o terceiro... Conversa vai conversa vem, bebeu toda a garrafa do meu precioso licor, o senhor acredita?

            Estávamos em meu quaro, onde me examinou e onde tenho confortável sofá. Pois não é que Dr. Clóvis pediu licença para repousar um pouco, deitou-se, e quando acordou já era noite fechada. Assim era o meu médico, gente como a gente. Que Deus o tenha, Louvado Senhor Jesus Cristo. Nunca vi outro igual, sem desfazer do senhor, é claro.

            Já mais calma, consegui fazer a lavagem da orelha da senhora H., sem maiores percalços. Fui bastante delicado nas manobras, mas nada que se comparasse ao meu falecido amigo Clóvis. Aquele sim, era um bom médico!

            

sábado, 23 de janeiro de 2021

Blog do Moisés!



 

“Escrever me ensinou a ler. Experimentar a solidão da tela em branco me fez admirar Pessoas, Hildas e Quintanas, mas também despertou a minha inveja em prosa e verso. Milhares de frases, metáforas e ideias que deviam ser minhas já estavam publicadas.”

 

Moisés Tito Lobo Furtado 

 

            O texto acima faz parte da belíssima crônica intitulada Por quê, que inaugura o Blog do Moisés! Uma grande notícia! 

            Para quem não o conhece, Moisés é uma pessoa extraordinária, pela doçura, pela capacidade de sentir e pensar, pela empatia congênita com que se relaciona com as pessoas. Ele lê muito sobre filosofia, de modo que está sempre a nos inquirir, provocar, desafiar mesmo, o que em muito nos enriquece.

            Moisés gosta de ler e escrever, como assinala no parágrafo acima, frequenta oficina de escrita, se esmera na escritura, luta com as palavras, edita e reedita o texto infinitas vezes, exigente consigo mesmo. Há muito espero que os textos dele saiam da gaveta e sejam publicados, para a felicidade geral da nação!

            Moisés é um homem de rara sensibilidade. Conhecê-lo foi um privilégio para mim. Ser seu amigo é uma honraria!

            

 

Agora temos o blog dele:

 

https://moisestitolf.blogspot.com/2021/01/por-que.html