segunda-feira, 17 de abril de 2017

Camus e o samba



A Folha traz hoje curiosa reportagem publicada por Fernando Tadeu Moraes, com o título “Filósofo Albert Camus escreveu sobre o samba após visita ao Brasil em 1949”.
Ao visitar o Brasil naquele ano, como embaixador cultural da França, Albert Camus conheceu o samba, fazendo registros interessantes em seu diário de viagem:
"Depois do jantar, Kaïmi [Dorival Caymmi], um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta, vem cantar com o seu violão. São as canções mais tristes e mais comoventes. O mar e o amor, a saudade da Bahia. Pouco a pouco, todos cantam e vê-se um negro, um deputado, um professor da Faculdade e um tabelião cantarem esses sambas em coro, com uma graça muito natural. Totalmente seduzido".
Visitou ainda uma gafieira carioca, levado pelo escritor Abdias do Nascimento:
"Noitada decepcionante", "penso no clima". "Danço um samba mole, bato os flancos para despertar em mim apetites, e me dou conta, de repente, de que me entedio. Táxi. E volto para casa."
            E o filósofo conclui:
"País em que as estações se confundem umas com as outras; onde a vegetação inextrincável torna-se disforme; onde os sangues misturam-se a tal ponto que a alma perdeu seus limites. (...) é o país da indiferença e da exaltação. Não adianta o arranha-céu, ele ainda não conseguiu vencer o espírito da floresta, a imensidão, a melancolia. São os sambas, os verdadeiros, que exprimem melhor o que quero dizer".
Alguns aspectos destas últimas afirmações talvez permaneçam verdadeiras até hoje.




domingo, 16 de abril de 2017

sábado, 15 de abril de 2017

Questão de interpretação


Em seu espaço no Estadão, Falando de Música, Leandro Oliveira publica cônica com o sugestivo título  – “Patricia Kopatchinskaja ataca novamente; ou, as vicissitudes da crítica” (13/4/2017).
Antes de mais nada, ele pede que os leitores “Ouçam e vejam atentamente esta performance.” E pergunta: “É boa ou não?”
E Leandro completa: “Essa performance foi recebida por alguns como a de um clown; para outros, a de um gênio.”
Só posso utilizar-me de meus parcos conhecimentos sobre música erudita para arriscar qualquer comentário neste blog. O dilema reside entre escolher interpretações fieis à partitura ou aquelas em que o intérprete acrescenta algo de seu; se ele exagera, a ponto de distorcer a composição original, então é passível de crítica.
Em meu ponto de vista, estamos diante de um gênio!
Patricia Kopatchinskaja nasceu num pequeno país chamado República da Moldávia (que já foi parte da União Soviética e faz fronteira com a Ucrânia e com a Romênia) em 1977, e sua atuação musical lembra muitas vezes as suas origens. A música folclórica de sua terra natal lembra as músicas romena e húngara.
Leandro, grande conhecedor da música erudita, compositor, regente, professor, afirma:

“O ouvido da crítica se organiza entre duas verdades: a do “texto” e a da “performance”. São estas, fundamentalmente, as variáveis em jogo na avaliação de uma apresentação ao vivo de música clássica. O texto responde, com muitas contradições internas e referências abertas, ao que podemos supor ser a intenção do autor; a performance, por sua vez, responde à parte não desprezível mas absolutamente única que é a personalidade do músico executante (que, na música clássica, é também um intérprete). As duas verdades que dividem os ouvidos críticos são, portanto: a fidelidade ao texto – portador da Mensagem, com “M” maiúsculo – e a espontaneidade do intérprete; é entre a sinceridade e a autenticidade que pendem nossos corações românticos, e as mentes da crítica se esforçam para balancear essa equação.”

Leandro propõe ainda ao  leitor que ouça outra performance de Patricia Kopatchinskaja, além de Anne Sophie Mutter e Maxim Vengerov.
Como gosto de afirmar, reafirmar, repetir ad nausean, tudo na vida é questão de educação. É isso que propõe Leandro Oliveira em suas crônicas Falando de Música.



Foto: Telegraph

Recepção


N. C. Wyeth

Limerique brasileiro



                            cambada de vagabundos
                     maior corrupção do mundo
                     dizem – Não fiz nada
                     (um milhão pra cada)
                     na cadeia todos juntos


Limerique, você sabe o que é? Clique: http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2017/03/voce-sabe-o-que-um-limerique.html


terça-feira, 11 de abril de 2017

Profissionais do pênalti


Jogadores da Ponte abraçam o goleiro!


Houve um tempo em que se dizia, Disputa por pênaltis é loteria! Esse tempo já passou, futebol é coisa séria.
Dizia-se que pênalti é coisa tão séria que devia ser batido pelo presidente do clube. Mesmo assim, antigamente jogador de futebol não treinava batida de pênaltis. Parecia que fazer o gol diante de um pobre desvalido goleiro era coisa óbvia, certa, sólida, taxativa, determinada, inequívoca, imperativa, peremptória, natural, assente, fatal. Era chutar e pronto: bola na rede.
Às vezes o batedor falhava, bola na trave, bola fora, defesa do goleiro, este imediatamente posto em pedestal de herói da pátria, abraçado e beijado pelos companheiros, ovacionado pela torcida. Mas isso era uma exceção, a regra era bola na rede, obrigação do batedor.
Os tempos agora são outros porque existe uma nova personagem em ação, o treinador de goleiros! Este sujeito anda sempre com um laptop na mão, tem registrado o modo como cada jogador de todos os times bate o pênalti, em que canto, com que força, com a perna direita, com a esquerda, as variações que costuma empregar, se está com dor de garganta, se brigou com a mulher na véspera do jogo, se teve uma imprevista caganeira ou sonhos maus, tudo registrado no laptop do treinador de goleiros, as ocorrências de todos os batedores de pênaltis do mundo inteiro! Num laptop cabe tudo.
Do mesmo modo, o batedor fica sabendo das manhas de cada goleiro, para que lado ele costuma pular, se fica parado no meio do gol, de dá dois passos adiante antes da batida, se está com dor de garganta, etc (não vou repetir a sequência para não ofender os mais delicados).
Em resumo, bater pênalti virou CIÊNCIA.
Pois ontem o Santos ganhou da Ponte Preta no Pacaembu, Campeonato Paulista, por 1 a 0, e com isso os times foram para a disputa de pênaltis, já que no primeiro jogo a Ponte havia ganho pelo mesmo placar. Tratava-se da classificação para as semifinais, jogo importantíssimo.
Logo no segundo pênalti, o goleiro Aranha, da Ponte, defendeu, bola muito mal chutada por um beque casca-grossa, um defensor, homem acostumado à força e não ao jeito, chutou fraco, o goleiro pulou no canto certo, orientado pelo treinador de goleiros.
Já a Ponte Preta bateu os 5 pênaltis no canto, no alto, com força, onde nenhum goleiro do mundo poderia alcançar. O responsável pela façanha? O treinador de batidas de pênalti, outra personagem do futebol atual! (O beque do Santos foi mal orientado: zagueiro quando bate pênalti, enche o pé no meio do gol.) 
Importante alertar que este indefensável pênalti, batido no canto, no alto e com força, é ao mesmo tempo a batida com maior risco de erro, quando a bola passa por cima da trave. É preciso saber bater, ou a bola vai parar na arquibancada!
Classificou-se a Ponte Preta, cientificamente.


Foto: Gazeta Press