terça-feira, 14 de julho de 2020

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Paula e as tartarugas




“Esta tartaruga verde descansava num coral mole
enquanto um budião juvenil prestava o serviço de limpeza.
Que benção é mergulhar!”

                                               Paula Vianna

Pseudopaludicola coracoralinae


Pseudopaludicola coracoralinae é batizado em
homenagem à poetisa goiana Cora Coralina
Foto: Reprodução


A reportagem, muito boa, é de Lailton Costa, para O Estado de S. Paulo (6 de jul 2020): Nova espécie de anfíbio é batizada em homenagem a Cora Coralina.
         Ela começa inspirada em poema de Cora Coralina:  “Quando o tempo muda, a saúva revoa e um trovão surdo, tropeiro, ecoa na vazante lameira do brejo e dá para ouvir o sapo-fole, o sapo-ferreiro e o sapo-cachorro, como um canto de acauã de madrugada, para marcar o tempo e chamar a chuva. Esse é um dos cenários que envolvem uma roça sertaneja no Poema do Milho, de Cora Coralina.”
O canto é de uma espécie minúscula de anfíbio de tamanho entre 1,25 cm e 1,53 cm, só agora revelado por um grupo de pesquisadores das Universidades Estaduais de Campinas (Unicamp), Paulista (Unesp), no campus Rio Claro, e da Universidade Federal de Uberlândia, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). 
Descreve Lailton: “E foi numa poça d’água temporária em meio ao milharal, formada após uma chuva no ano passado, que os pesquisadores Felipe Silva de Andrade, primeiro autor do trabalho, e Isabelle Aquemi Haga, captaram a vocalização da nova espécie em Palmeiras de Goiás, distante cerca de 71 km de Goiânia.” 
“O achado no meio do milharal levou o pesquisador Felipe Andrade a batizá-la de Pseudopaludicola coracoralinae, em homenagem à poetisa goiana Cora Coralina.” 
“A partir da análise genética e do sequenciamento do DNA, os pesquisadores puderam descobrir que uma população anfíbia anteriormente descrita como Pseudopaludicola facureae, do centro do Brasil e no próprio município de Palmeiras de Goiás, corresponde a essa nova espécie, a coracoralinae.”
Os autores explicam que decidiram homenagear a escritora por sua importância para a poesia brasileira. 
Transcrevo aqui trecho do Poema do milho.

Tempo mudado. Revôo de saúva.
Trovão surdo, tropeiro.
Na vazante do brejo, no lameiro,
o sapo-fole, o sapo-ferreiro, o sapo-cachorro.
Acauã de rnadrugada
marcando o tempo, chamando chuva.
Roça nova encoivarada,
começo de brotação.
Roça velha destocada.
Palhada batida, riscada de arado.
Barrufo de chuva.
Cheiro de terra; cheiro de mato,
Terra molhada, Terra saroia.
Noite chuvada, relampeada.
Dia sombrio. Tempo mudado, dando sinais.
Observatório: lua virada. Lua pendida . . .
Circo amarelo, distanciado,
marcando chuva.
Calendário, Astronomia do lavrador.

                  Cora Coralina







sexta-feira, 3 de julho de 2020

Um certo sorriso


Galeria de Família


Há poucos dias fiz um vídeo contando o caso da Cecília, péssima para comer, quando bebê, é claro. Ficou faltando a imagem.
            Ela só comia iogurte. Danone, para ser preciso. Isso ela gostava.
Certa feita, sentada no cadeirão na cozinha da 206 aqui de Brasília, onde ela nasceu, dei-lhe um potinho de Danone sabor morango, que ela traçou avidamente, em 3 ou 4 colheradas. 
(Quando menos espero, olha eu contando a história novamente!)
Tive a impressão que ela pedia mais. Empolgado, abri outro potinho, mesmo sabor, e ela o devorou gulosa, eu surpreso e maravilhado com a façanha.
Questão de segundos, e ela vomitou os dois potinhos no chão da cozinha: me olhou calmamente e sorriu.
Nunca me esquecerei daquele sorriso.



O cadeirão


quinta-feira, 2 de julho de 2020

Destruição por inépcia


A crônica de hoje de Sérgio Rodrigues para a Folha de S. Paulo (2 jul 2020) é antológica, a começar pelo título: “Ave Maria’, cheia de desgraça.”
Primeiro foi a “restauração” desastrosa do Ecce Homo, todos haverão de se lembrar:


A versão original deteriorada e a desastrosa
restauração do "Ecce Homo" –
Centro de Estudios Borjanos, Divulgação/Reuters


Depois a vítima foi a Virgem Maria, do pintor espanhol Bartolomé Esteban Murillo (1617-1682):


Murillo vandalizado / Europa Press


Então Sérgio Rodrigues se pergunta: “E se for esta, a destruição por inépcia, a marca mais característica de nossa época? ... A ideia me ocorreu dois dias depois de ler sobre o fim inglório da Maria de Murillo, quando me expus ao já histórico vídeo da "Ave Maria" da Embratur, destinado a ser uma das imagens-síntese do governo Bolsonaro. Coincidência ou espírito do tempo?”
Rodrigues refere-se naturalmente à live presidencial de 25 de junho, em que o presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, “entre um fole tocado com bolsonara incompetência e uns vagidos roucos de bezerro agônico, executa no fundo da cena (o verbo não é gratuito) a "Ave Maria" de Gounod. Em primeiro plano, Paulo Guedes sua gordas gotas de cartum”.
Rodrigues conclui: “O bolsonarismo é o triunfo mais acabado — e com menos superego — de uma tendência contemporânea que atravessa fronteiras: a exaltação do amadorismo inepto, da tosqueira de raiz, do trogloditismo "sincero" em contraponto à razão, à ciência, à arte, à justiça.”
O retrato perfeito dos dias que vivemos.

Máximas de Brás Cubas





Memórias Póstumas de Brás Cubas é um livro delicioso. Relê-lo quantas vezes o fizermos, o prazer será o mesmo.              Às tantas, surge o CXIX Capítulo, nomeado Parêntesis, contendo seis máximas do defunto autor.
Aqui vão reproduzidas as máximas de Brás Cubas, a que ele chamou de “bocejos de enfado”:

Suporta-se com paciência a cólica do próximo.


Matamos o tempo; o tempo nos enterra.


Um cocheiro filósofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.


Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.


Não se compreende que um botocudo fure o beiço para enfeitá-lo com um pedaço de pau. Esta reflexão é de um joalheiro.


Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.


            Reli o Memórias Póstumas em belíssima edição da editora Antofágica, 2019, com ilustrações de Candido Portinari.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Tolerância

Frase do dia


“Desde que pergunta minha opinião acerca da mútua tolerância entre os cristãos, respondo-lhe, com brevidade, que a considero como o sinal principal e distintivo de uma verdadeira igreja.” 

John Locke (1632-1704) 
Carta acerca da tolerância 

5 microcontos do Moisés


Imersão

Criou cães por toda sua vida para cercar-se de amor e morte. 



Humanização?

Depois que tive cachorros, comecei a gostar das pessoas.



Algo falta

O velho nunca se negou a dar esmolas. “Não há fraudes em pedintes”, dizia. 



Dialeto

Não queira ser capaz de entender o que falo. És feliz demais, sinto muito.



O começo

– Amigo, a minha vida acabou. Câncer de próstata, filho maluco e o casamento indo pro brejo.
– Aguente firme. Agora é que vai ficar bom.


                                         Moisés Lobo Furtado


Observação do blogueiro: O homem é um gênio!

segunda-feira, 29 de junho de 2020