domingo, 11 de novembro de 2018

4 haicais para um dia de chuva



com as chuvas
reaparecem as pererecas
música no jardim

                        ***

aguaceiro lá fora
as bachianas enchem a sala
e lavam a alma

                        ***

                 

tilintar das gotas
no galho, pia a avezinha
chuva no cerrado

                        Mercêdes Fabiana


                                       ***


                  


bananeiras
em frangalhos
vendaval




Fotos: AVianna, nov 2018, jardim

azul




faltava o azul
na paisagem
olhos de gato


Foto: Paulo Sergio Viana, n0v 2018, Lorena

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Haicai de Verão


Era o primeiro dia do verão do ano de 1700, portanto o primeiro verão de um novo século, e para glorificá-lo, Kobaiashi Takarai, nascido na província de Iga, filho de uma família de samurais, decidiu compor o mais belo haicai do mundo. 
         Naquela época o haicai ainda não se chamava haicai, forma abrasileirada muitos séculos depois, de um tipo de poema composto de três versos que Kobaiashi denominava hokku ou haiku – originário do waka, surgido no século VII –, e quando pronunciava ou apenas pensava na palavra waka, o fazia com o maior respeito, curvando-se diante do nada. 
A tradição dos haicaistas japoneses da época exigia que a Natureza fosse a única inspiração para a construção do haicai. E como era o início do verão de um século mágico, o de 1700, Kobaiashi decidiu-se pelo Verão como tema para o mais belo haicai do mundo. 
         Não tinha pressa, poderia levar todo o verão, estação de temperaturas amenas em Iga, de onde o poeta nunca saíra, concentrado em seus estudos sobre poesia e pintura, sob a orientação do mestre Kitamura Kigin (1624-1705). Aqueles que o conheciam sabiam que Kobaiashi Takarai era um homem contemplativo, desligado das coisas mundanas, ocupado apenas com a grande arte do hokku.
         Aquele verão transcorria plácido, sereno, imóvel, não havia guerra, até mesmo os samurais andavam tomados por certa indolência, na falta de guerrear. A notícia de que estava sendo composto o mais belo haicai do mundo pelo poeta Kobaiashi Takarai correu a província de ponta a ponta, de forma igualmente lenta, pois a pressa era considerada por todos a inimiga número um do japonês. (Nessa época, dizem, é que surgiu o anexim A Pressa É Inimiga Da Perfeição.) Para ser preciso nesse relato antigo, a notícia espalhou-se mesmo por todo o Império, chegando a Edo (hoje Tóquio), a grande capital, e em consequência, aos ouvidos do Imperador.
         Em Edo moravam os chamados Dez Mestres do Haicai, que por respeito a esta Arte Secular, são aqui enumerados: 
Enomoto Kikaku 
Hattori Ransetu 
Mukay Kiorai
Kagami Shikô 
Naitô Jôsô
Sugyiama Sampú 
Shida Yaha
Ochi Etsujin
Tachibana Hokushi 
e MoriKawa Kyorotu. 
Por sugestão do mestre Shida Yada, casado com uma prima em segundo grau de Kobaiashi, este foi convidado a vir morar em Edo, com a finalidade de aprimorar sua poesia e assim tornar mais bonito ainda, o mais belo haicai do mundo, ora em gestação.
         Kobaiashi deixou a distante província de Iga (no início do século XVIII tudo era muito distante no Japão) com o coração partido, pois lá deixou sua amada (inominável!), e com ela toda a sua inspiração.
         Findo o verão, no primeiro dia do Outono, Kobaiashi Takarai escreveu:
         
o Verão terminou
faltou-me inspiração 
caem as folhas do Outono

         Este foi o último haicai de Kobaiashi Takarai.
         


terça-feira, 6 de novembro de 2018

Haicais tropicais





Acaba de ser publicado com o selo da Boa Companhia (Ed. Schwarkz SA) o volume Haicais tropicais, organizado por Rodolfo Witzig Guttilla. O lançamento comemora os 110 anos da imigração japonesa para o Brasil.
            Estão representados no livro 20 poetas que de alguma forma foram relevantes para a difusão do haicai no Brasil, desde a introdução desta forma de poema entre nós por Monteiro Lobato, em 1906.
            Cito alguns: Alice Ruiz S, Aluisio Azevedo, Manoel de Barros, Mario Quintana, Paulo Mendes Campos, Sérgio Milliet, entre outros.
            Alguns exemplos:


HAI-KAI DE OUTONO

Uma folha, ai
melancolicamente
                                   cai!

                                               Mario Quintana

***

Tudo o que me ocorre
é que a morte nasce,
ama, sofre e morre.

                                               Paulo Mendes Campos

***

Silêncio das pedras
é o início
das palavras?

                                               Manoel de Barros

***

            Este blogueiro, que tanto aprecia a arte de confeccionar capas, não pode afirmar que o livrinho tenha uma capa bonita. Ao contrário, ela é horrorosa, ao procurar associar a leveza do haicai à delicadeza de uma libélula, pintada de preto.

sabiá no galho





                                          balança o galho
                                          olho atento
                                          sabiá pousado


Foto: AVianna, set 2018, jardim

Dois amigos


– Como vai esta bizarria?
– Em bom estado de conservação, apenas com as marcas do tempo.

Embornal do Hermínio




EMBORNAL

Matulão
Caixa de rapé.

Botões de madrepérola
Bolas de gude
Cacos de vidro, porém esmerilhados.

Rouge
Batom
Pinça de tirar pelos do nariz.

Narizinho vermelho
Carlitos
(como era mesmo o nome do palhaço que era amigo do Mário?
                                                                                        [Piolin!)

Guizos
Risos
Quantos rios, oh quanta alegria!

Fotos
Diplomas 
Santinhos.

Colagens
Bar Simpatia
Frapê de tamarindo.

Cigarros Yolanda
Pomada Parisiense
Samba em Berlim.

Oh que saudades não tenho
do ocaso da minha vida!


                                   Hermínio Bello de Carvalho
                                   Embornal  Antologia poética
         Ed. Martins Fontes, 2005

O semeador

Meus quadros favoritos


Vincent van Gogh

"O impacto de um livro"




Jorge Mendez Blake