Terceira charge do dia
quinta-feira, 7 de abril de 2022
A última viagem
Imagem & Microconto
Montei num camelo e penetrei no vasto deserto. Foi assim que morri.
Foto: Karim Amr, fotógrafo egípcio.
Homens sem mulheres
Há dois dias comentei nesse blog o filme Drive my car, dirigido por Ryusuke Hamaguchi, verdadeira obra prima, em meu ponto de vista.
http://loucoporcachorros.blogspot.com/2022/04/doraibu-mai-ka-ou-drive-my-car.html . Não estava claro para mim se o roteiro havia sido baseado em livro ou apenas em um conto de Haruki Murakami, renomado escritor japonês. Imediatamente após ver o filme, minha mulher encomendou Homens sem mulheres, de Murakami (1ª edição Objetiva, 2015; 6ª reimpressão, Alfaguara, 2022).
O livro – que chegou em dois dias – contém sete contos, dos quais destaco o primeiro, Drive my car, e o último, Homens sem mulheres. A escrita é agradável, fluente, correta, e prende a atenção do leitor. Logo no início da primeira história surge a contratação de uma motorista pela personagem principal. No filme, este tema é central, porém surge depois de acontecimentos decisivos para o desenrolar da trama. Posso dizer que diretor e roteirista encaixaram a história da motorista de maneira brilhante, a dar a impressão que esta surgiu em seguida ao drama principal. É a arte de escrever roteiros, aqui levada à perfeição!
Eis pequena amostra de diálogo entre a motorista e o protagonista do conto – e do filme:
“– Que cruel.
– É, é uma ideia cruel.
– Como ele havia dormido com sua esposa, o senhor queria se vingar dele?
– Não é bem vingança – disse Kafuku. Mas eu não conseguia me esquecer desse fato. De jeito nenhum. Eu me esforcei muito para esquecer. Mas foi em vão. A imagem de minha mulher nos braços de outro homem não me saía da cabeça. Essa cena sempre voltava. Como se uma alma que não tinha para onde ir estivesse grudada no canto do teto, sempre me vigiando. Depois da morte da minha mulher, eu achava que esse sentimento desapareceria com o tempo. Mas não. Parece até que ficou mais forte. Precisava dar um jeito no que sentia. Para isso, eu precisava eliminar algo que era como uma ira que tinha dentro de mim.” (p.42)
Este é o tema inicial do filme, seguido do aparecimento da motorista. O filme acrescenta sua dramática existência, com uma infância pobre de afeto, sem qualquer perspectiva de uma vida melhor.
Tenho por hábito antigo ‘checar’ o conteúdo de livros e seus respectivos filmes. Ambos podem ser ótimos, como em O nome da rosa, obra de Humberto Eco. O livro pode ser bom e o filme ruim, o que ocorre na maioria das vezes. Ambos podem ser péssimos, como Perfume, história de um assassino. Às vezes o filme supera em muito o próprio livro; cito apenas dois exemplos: O carteiro e o poeta e Drive my car.
Literatura e Cinema formam em belo par na Arte contemporânea.
Lalo de Almeida vence o Word Press
Jasson Oliveira do Nascimento, morador da Reserva Extrativista Arapixi, no Amazonas, corta a vegetação para abrir caminho para a canoa em igarapé que leva ao Projeto de Assentamento Extrativista Antimary, onde se coletam castanhas; foto está entre as premiadas pelo Word Press Photo - Lalo de Almeida - 18.mar.20/Folhapress
Fotógrafo Lalo de Almeida, da Folha, vence prêmio mundial do World Press: reportagem de Fábio Pescarini (7.abr.2022).
“Na avaliação de Lalo, o prêmio ajudará a levar os problemas da Amazônia ao conhecimento de um público global. Ele considera que a Amazônia vive, na gestão de Jair Bolsonaro (PL), o ápice do seu processo de destruição. Porém, afirma que não dá para responsabilizar apenas o atual governo. Lalo lembra que o projeto de construção da usina de Belo Monte, que deu origem ao trabalho premiado, foi planejado no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e executado no de sua sucessora, Dilma Rousseff (PT). "O governo atual pisou no acelerador [da degradação]."
No link abaixo, uma série de fotos de Lalo de Almeida:
terça-feira, 5 de abril de 2022
Insônia
Imagem & Microconto
O cão latindo ao longe não foi capaz de quebrar o profundo silêncio daquela noite escura.
Foto de autor desconhecido.
Budapeste
Cidades
Doraibu mai kā ou Drive my car
Doraibu mai kā, ou Drive My Car é um épico japonês com 3 horas de duração. Minha tentativa será a de resumi-lo aqui, após tê-lo visto numa noite, e revisto no dia seguinte, tantas as emoções que em mim despertou. (Até o momento, na plataforma MUBI.)
Mais uma vez ficção e realidade se entrelaçam a ponto de se tornarem indistintas, com um olhar extremamente humano e com o “tempo” dos orientais, muito lento, repleto de detalhes tão pequeninos que talvez seja necessário mesmo ver o filme várias vezes.
A direção é de Ryûsuke Hamaguchi, roteiro de Ryûsuke Hamaguchie e Takamasa Oe. Elenco: Hidetoshi Nishijima, Park Yu-rim, Reika Kirishima, Tôko Miura. São nomes que me soam pouco familiares, nem sei como pronunciá-los, porém, ao final, são pessoas que eu gostaria de conhecer, conversar com elas. A informação de que disponho é a de que Hamaguchi e Oe se basearam em diferentes contos do escritor japonês Haruki Murakami para escrever o roteiro.
Hamaguchi acredita que histórias salvam vidas, e enumera cuidadosamente personagens que aos poucos vão revelando suas histórias pessoais. No princípio, Oto, a esposa do diretor e ator de teatro Yûsuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima) cria histórias (e assim sobrevive) após ter relações sexuais com diferentes parceiros e com o próprio marido, responsável por anotá-las.
Com a morte de sua mulher, Kafuku se muda de Tóquio para Hiroshima e se entrega de corpo e alma a uma nova montagem da peça Tio Vanya, de Anton Tchekov. As experiências de vida recentes de Kafuku se misturam com as relações que ele desenvolve durante o ensaio da peça, principalmente com o galã Takatsuki (Masaki Okada), ex-amante de Oto.
O mesmo ocorre com a atriz surda Lee Yoo-na (Park Yu-rim), a única sul-coreana no elenco, que ensaia originalíssima comunicação através da linguagem de sinais com o diretor, os colegas de teatro e com o público. Considero este um dos pontos altos do filme.
Porém, a relação mais impactante ocorre com a motorista Misaki (Tôko Miura), exigência feita pelos administradores para que Kafuku pudesse trabalhar; ele é obrigado, muito a contragosto, a ceder o carro antigo de estimação à motorista. Ao final do filme, conhecemos os dramas vividos por Misaki, motorista desde adolescente.
Cada uma dessas personagens se esmera em contar suas próprias histórias, e de como chegaram até aquele presente momento de suas vidas, agora entrelaçadas a outras personagens. A totalidade delas, as histórias, é contada dentro do carro, quando Kafuku se desloca de um lugar a outro. (Uma das exigências de Kafuku aos administradores foi a de que sua moradia ficasse a uma hora do teatro, local dos ensaios diários, para que durante o trajeto ele pudesse repassar os textos.)
Durante os ensaios, os dramas pessoais de cada um se mesclam com a história de Tio Vanya. Ficções que dão forças para essas pessoas seguirem adiante, encarando não só o trauma da realidade já vivida, como também a incerteza do que está por vir.
Ao final, o expectador será capaz de apontar a personagem com quem ele mais se identifica. Detalhe de menor importância é o fato de Drive my car ter ganho o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2022. É o Filme que valoriza o Prêmio, não o contrário.
Um filme inesquecível, para ser revisto de tempos em tempos.