quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Menino conduzindo cavalo

Meus quadros favoritos 



Pablo Picasso


Na única visita que fiz a Whashington DC, há muitos anos, este quadro estava em exposição na National Gallery of Art, localizada no fantástico National Mall. 

Me lembro bem: parei diante da pintura de grande dimensão, extasiado, impactado pela força do quadro, e lá permaneci por longo tempo, verdadeiramente emocionado. Experiência inesquecível.

Prêmio Camões 2020

 


Vítor Aguiar e Silva, teórico português, é o vencedor

do Prêmio Camões 2020  Foto: Universidade de Coimbra

 

Vítor Aguiar e Silva, professor, teórico e escritor português foi o ganhador do Prêmio Camões 2020, anúncio feito pela ministra da Cultura de Portugal, Graça Fonseca. 

Vítor Aguiar e Silva é pesquisador da literatura portuguesa dos séculos 16 e 17, bem como da obra de Luís de Camões e das metodologias literárias. 

“A atribuição do Prêmio Camões a Vítor Aguiar e Silva reconhece a importância transversal da sua obra ensaística, e o seu papel ativo relativamente às questões da política da língua portuguesa e ao cânone das literaturas de língua portuguesa”, explica a ata do Prêmio.” 

 

https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,portugues-vitor-aguiar-e-silva-e-o-premio-camoes-2020,70003491036

 

 

O Prêmio Camões, criado em 1988, elege a cada ano um escritor de um país onde a língua portuguesa é oficialmente falada.

Adoro listas!

 

Lista de brasileiros ganhadores do Camões: 

 

João Cabral de Melo Neto (1990) 

Rachel de Queiroz (1993)

Jorge Amado (1994)

Antonio Candido (1998) 

Autran Dourado (2000) 

Rubem Fonseca (2003)

Lygia Fagundes Telles (2005)

João Ubaldo Ribeiro (2008)

Ferreira Gullar (2010)

Dalton Trevisan (2012)

Alberto da Costa e Silva (2014)

Raduan Nassar (2016)

Chico Buarque (2019)

 

De Portugal foram premiados: 

 

Miguel Torga (1989)

Vergílio Ferreira (1992)

José Saramago (1995)

Eduardo Lourenço (1996)

Sophia de Mello Breyner Andresen (1999)

Eugénio de Andrade (2001)

Maria Velho da Costa (2002)

Agustina Bessa-Luís (2004)

António Lobo Antunes (2007)

Manuel António Pina (2011)

Hélia Correia (2015)

Manuel Alegre (2017) 

 

Os escritores africanos:

 

José Craveirinha (Moçambique, 1991)

Pepetela (Angola, 1997)

José Luandino Vieira (Angola, 2006, recusou)

Arménio Vieira (Cabo Verde, 2009)

Mia Couto (Moçambique, 2013)

Germano Almeida (Cabo Verde, 2018) 

 

https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,vencedor-do-premio-camoes-sera-anunciado-nesta-terca-27-veja-quem-ja-ganhou,70003489623

 

terça-feira, 27 de outubro de 2020

A enologia é uma fraude?

 

A coluna de Marcos Nogueira para Cozinha Bruta, da Folha de S. Paulo (22 out 2020), intitulada “Restaurante vende garrafa de R$ 11 mil, serve vinho da casa e cliente nem percebe”, há de interessar aos bebedores de vinho, além de ser deliciosa. Relata ele:

 

“Deu na revista inglesa “Decanter”, uma das publicações mais sérias sobre vinhos no mundo: em Nova York, os garçons de um restaurante serviram por engano o vinho da casa, de R$ 100, a um grupo que havia pedido uma garrafa de R$ 11,2 mil. Foi no Balthazar, bistrô do SoHo que atrai tanto turistas durangos quanto gente com dinheiro.

Duas mesas chegaram mais ou menos ao mesmo tempo. Numa delas, um casal jovem que pediu o vinho mais barato de todos; na outra, foi comandada uma garrafa de Château Mouton-Rotschild 1989, o item mais caro do restaurante. Os clientes eram gente de Wall Street. Os garçons puseram os dois vinhos em decanters (garrafas sem identificação) idênticos. Serviram o vinho barato para os caras do mercado financeiro, e o outro para o casalzinho que só queria comer e dar risada. ...Nenhuma das mesas percebeu a troca. Um dos sujeitos que pediram o vinho caro teria chegado a elogiar a “pureza” do vinho de cem contos. Foi a própria equipe do Balthazar quem detectou a mancada – e deixou os vinhos de graça para todo mundo.”

 

https://cozinhabruta.blogfolha.uol.com.br/2020/10/22/restaurante-vende-garrafa-de-r-11-mil-serve-vinho-da-casa-e-cliente-nem-percebe/

 

         O assunto é importante, tanto que mereceu a crônica de hoje de Hélio Schwartsman, também para a Folha (26.out.2020), com o bombástico título – ele é especialista em manchetes! – A enologia é uma fraude? Depois de comentar sumariamente sobre o que escreveu Marcos Nogueira, Schwartsman expõe sua ideia:

 

“O problema, como sempre, são os nossos cérebros. Quando eles não têm informações suficientes para emitir um juízo, catam qualquer pista que esteja à mão, seja ela relevante ou não, e proferem seu parecer como uma conclusão irrefutável.

A dificuldade, no caso da enologia, é que o paladar e o olfato humanos não são bons o bastante para julgar vinhos, pelo menos não no nível que os "sommeliers", com seu vocabulário rebuscado e esnobe, fazem crer que é possível. Aí o cérebro, para não ficar mal, apela para rótulos, preços, críticas etc.”

 

Então Schwartsman recorre à Ciência:

 

“Estudos da psicologia do gosto, iniciados nos anos 60 por Rose Marie Pangborn, só não acabaram de vez com a reputação da indústria enológica porque não são muito divulgados. Pangborn mostrou que bastava adicionar um pouco de corante a vinhos brancos para deixar os especialistas completamente perdidos.
Na sequência, outros trabalhos revelaram que, em copos escuros, estudantes de enologia não conseguem mais distinguir vinhos brancos de tintos e que basta trocar os rótulos das garrafas para que especialistas rasguem elogios a vinhos "objetivamente" medíocres.

No caso de Nova York, a pista mais conspícua era o preço.” 

 

         Longe, muito longe de me considerar um enólogo, adquiri certo hábito que talvez possa interessar. A primeira prova, depois que o vinho é colocado em um decanter, pode ser enganosa. Degusto, faço minha avaliação, mantenho o silêncio, e prossigo bebendo. Lá pelo meio da garrafa, posso confirmar a primeira impressão ou descartá-la completamente. (Às vezes nem chego ao final da garrafa.)

         Não sei como explicar tal experiência. Talvez o cérebro precise de algum tempo para chegar à conclusão definitiva e sempre pessoal sobre a qualidade do vinho.

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2020/10/a-enologia-e-uma-fraude.shtml

 

 

Canetas, não armas

A foto do dia 



Parentes e amigos protestam após assassinato de alunos 

por homens armados em escola de Kumba, Camarões.

Foto: Reuters/Josiane Kouagheu

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Natureza morta



Helena Lopes



 

Apr'es Helena Lopes

 

 

Parte da obra de Helena Lopes encontra-se no ateliê dela, incluindo a primeira imagem aqui exposta. A segunda não pretende imitá-la – o que seria impossível – mas dá bem uma amostra de como a arte nos influencia. Passeando pela meu jardim, encontro essa folha morta, e pretendo dar-lhe vida, inspirado em Helena. 

 

 

O ateliê: 


http://loucoporcachorros.blogspot.com/2020/01/atelie-de-helena-lopes.html



Em tempo: 


Helena respondeu à minha provocação:


"Essa é ideia da Arte, provocar o olhar do outro, fazer com que o expectador enxergue outras coisas, em vez de passar batido sobre uma folha velha caída no chão. Ficou linda a composição, o verde do fundo, a folha com outro tipo de beleza. Gostaria que todas as pessoas interagissem como você está fazendo. Um abraço."


Obrigado, Helena. 


domingo, 25 de outubro de 2020

Releitura de Monet

 


Show me the Monet, de Banksy

 

“LONDRES — Uma pintura de Banksy que parodia uma obra de Claude Monet foi vendida em Londres, na última quarta-feira (21/10), por cerca de U$ 9,8 milhões, o equivalente a R$ 54,5 milhões, tornando-se a segunda tela mais cara do misterioso artista britânico, conforme anunciado pela casa de leilões Sotheby's.

Feita com tinta a óleo, a obra é intitulada "Show me the Monet" ("Mostre-me o Monet", em tradução livre), e é uma imitação ímpar de "O lago das ninfeias", uma das pinturas mais famosas do artista francês Claude Monet.”

 

O ditado que se aplica: 

 

– Quem tem fama, deita na cama. 


Mas sou fã de Banksy!



 https://oglobo.globo.com/cultura/banksy-faz-releitura-de-monet-leiloada-em-quase-10-milhoes-24710602

Microcontos da Solidão


 

1.

Mulher:

– Por que não joga fora a usada, ao pegar uma nova escova de dente?

Homem:

– Medo da solidão.

 

 

2.

Mulher:

– Por que não joga fora a usada, ao pegar uma nova escova de dente?

Homem:

– Não é preciso descartar o velho.

 

 

3.

Mulher:

– Por que não joga fora a usada, ao pegar uma nova escova de dente?

Homem:

– Para que elas possam conversar à noite.

 

 

4.

Mulher:

– Por que não joga fora a usada, ao pegar uma nova escova de dente?

Homem:

– Sozinha, ela vai se implicar com quem?

 

 

5.

Mulher:

– Por que não joga fora a usada, ao pegar uma nova escova de dente?

Homem:

– Na vida, o que conta é a relação.

 

 

6.

Mulher:

– Por que não joga fora a usada, ao pegar uma nova escova de dente?

Homem:

– Para evitar o pânico diante da imobilidade.

 

 

7.

Mulher:

– Por que não joga fora a usada, ao pegar uma nova escova de dente?

Homem:

– Pura mania.

 

 

8.

Mulher:

– Por que não joga fora a usada, ao pegar uma nova escova de dente?

Homem:

– Coisa de acumulador.

 

 

9.

Mulher:

– Por que não joga fora a usada, ao pegar uma nova escova de dente?

Homem:

– Para que eu me lembre de trocar a nova quando ela ficar velha.

 

 

10.

Mulher:

– Por que não joga fora a usada, ao pegar uma nova escova de dente?

Homem:

– Não sei.

 

sábado, 24 de outubro de 2020

Perseu e Medusa, Medusa e Perseu


 


Medusa com a cabeça de Perseu,

obra do artista argentino Luciano Garbati

Jeenah Moon/The New York Times

 

“Estátua de Medusa pelada e sexy é abraçada e atacada pelo MeToo em Nova York”, informa a reportagem de Julia Jacobs para The New York Times (14.out.2020).

Luciano Garbati fez a escultura de Medusa segurando a cabeça de Perseu sem preocupar-se com ideias feministas; realizou apenas genial inversão do antigo mito. A obra é de 2008, bem antes do MeToo, e as discussões sobre gênero que despertou não interessam para esta crônica.

Garbati inspirou-se em escultura em bronze do século 16, “Perseu com a Cabeça de Medusa”, de Benvenuto Cellini. 

 



Perseu com a cabeça de Medusa

Benvenuto Cellini

esculpida entre 1545 e 1554

 

Num golpe de mestre, ele inverteu o papel dos agentes, contando “a história da perspectiva de Medusa – escultura com mais de 2 m de altura – e revelando a mulher por trás do monstro”, exposta na calçada oposta ao tribunal criminal da rua Centre, ao sul de Manhattan.

Acrescenta Julia Jacobs: “Em sua inscrição no programa "Art in the Parks", que revisa propostas para obras de arte em instalações públicas como a da estátua, Garbati apontou para o fato de que Medusa foi estuprada por Poseidon no templo de Atena, de acordo com o mito. Como punição, Atena volta seu rancor contra Medusa e transforma seus cabelos em serpentes. A inscrição afirmava que a história “comunicou às mulheres por milênios que, caso fossem estupradas, a culpa seria delas”.

         “Desestabilizar a narrativa usualmente feita sob uma lente patriarcal é o verdadeiro poder da obra”, afirmou Garbati. “Isso faz com que as pessoas parem para pensar.”

          E parar para pensar é uma das inúmeras funções da Arte.

 

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/10/estatua-de-medusa-pelada-e-sexy-e-abracada-e-atacada-pelo-metoo-em-nova-york.shtml?utm_source=twitter&utm_medium=social&utm_campaign=twfolha

 

O especialista

 Cenas inglesas


 Denmark Hill Station



Perto do hospital onde eu trabalhava, o King`s College Hospital, ou simplesmente King`s, localizado em Brixton, sul de Londres, há uma bonita estação de trem – não havia metrô naquela região – chamada Denmark Hill, e na estação, um lindo pub com o mesmo nome. Com a frequência que as condições financeiras permitiam, almoçávamos lá, o pequeno grupo de pesquisadores da Liver Unit, renomado centro de estudos e tratamento das doenças do fígado, todos estrangeiros. 

No frio Serviço chefiado pelo gelado Dr. R.W., homem severo com olhos cor de água, trabalhavam cinquenta pesquisadores, estrangeiros em sua grande maioria, e tratados como tal, subalternos serviçais de segunda classe a fazer aquilo que os autóctones desprezavam. Depois de dois anos de trabalho na Unidade, percebi que poderia agrupar alguns desses desvalidos, e chegamos mesmo a incomodar os ingleses com a elevação da autoestima do grupo. Os almoços no Denmark Hill faziam parte dessa estratégia.

         Dentre os membros do “seleto” grupo havia um italiano que merece destaque e ainda hoje me lembro dele com carinho, por duas particularidades especiais, pelo menos para mim: era louco por futebol e conhecia tudo sobre a vida dos papas. Luiggi era torcedor fanático do Catanzaro, time da pequena cidade do mesmo nome, na região da Calábria, ao sul da Itália, e conhecia a fundo o futebol do Brasil, capaz de citar de cabeça a escalação da seleção brasileira campeã da Copa de 58, na Suécia. Assunto melhor não poderia haver, entre dois melancólicos saudosos expatriados.

         O que me fascinava mesmo em Luiggi era seu conhecimento enciclopédico sobre a vida dos papas, de todos os papas! Ele discorria com o entusiasmo próprio dos italianos sobre as qualidades dos pontífices, para ele homens extraordinários, de grande estudo inteligentíssimos cultíssimos, políticos de primeira grandeza, porque só assim poderiam chegar à posição de Papa, numa instituição em que o vencedor precisava lutar incontáveis ferrenhas batalhas em uma guerra feroz, até que a chaminé do Vaticano soltasse a fumacinha branca.

         Parece que Luiggi conhecia os intestinos do Vaticano! Sabia de escabrosos escândalos da cúria romana. Mas nada era capaz de diminuir a admiração dele pelos papas. Daí que desenvolveu interessantíssima teoria, sobre a qual discorria longamente, fazia uma pausa para causar suspense – mesmo tendo contado a história várias vezes – e em seguida vaticinava:

         – Todo papa é ateu!

         O espanto era inevitável para quem escutasse a teoria pela primeira vez. Era a oportunidade que Luiggi precisava para discorrer com o arrebatamento de sempre:

         – Homens de tanto estudo, inteligentes, cultos, grandes políticos, teólogos por excelência, conhecedores das raízes da religião, da história da Igreja, dos subterrâneos da fé, esses homens notáveis só poderiam ser ateus! Eles conheciam a verdade.

         Ríamos todos, saboreando um delicioso scotch egg, regado a uma caneca de Guiness, em Denmark Hill.

         

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

80 anos de Pelé



 

Em um certo dia de minha adolescência estive frente a frente com Pelé, toquei-lhe o ombro esquerdo e disse, Oi, Pelé.

            Aconteceu em Guaratinguetá, numa comemoração da qual não tenho a menor lembrança. Uma partida de futebol beneficente? Algum evento municipal? Jogo de campeonato paulista não era. 

            De repente, lá estava eu no gramado, ao lado de muita gente desconhecida. (Não me lembro de meu pai estar comigo ou mesmo estar em companhia de um amigo.)

            Porém, me lembro como se fosse hoje, passados mais de 60 anos, eu frente a frente com Pelé, a tocar-lhe o ombro esquerdo, como se fosse um sonho. Cumprimentei-o, sorri, extasiado diante de um deus.