quarta-feira, 3 de junho de 2020

Oficina do Tobias VIII

Folhetim


Oitavo encontro


Homem, 32, desempregado, joga videogame numa lan house, sem parar nem para comer. Após 3 dias é encontrado morto, debruçado sobre o teclado. 
            
De onde se conclui que não se deve passar muitas horas em frente ao computador, isso pode ser mortal. Daí a relevância do microconto: rápido, rasteiro, no canto em que o goleiro não está, e zapt! a história está contada!
Afinal, o que é um microconto? Alguns o chamam de miniconto, ou até de nanoconto; não há uniformidade de regras, a não ser aquela imposta pelo Twitter, que o limita a 140 toques. Quando surgem concursos de melhores microcontos, os organizadores estabelecem as regras, limitando o número de toques, letras ou palavras.  O que não faz diferença alguma, pois os teóricos (ainda) não o reconhecem como gênero literário. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, nem mesmo registra o vocábulo microconto.
Os aficionados não cansam de enaltecer o que chamam de o mais famoso microconto do mundo, de autoria de Augusto Monterroso:

“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”

Tão surpreendente quanto este “dinossauro”, ou ainda melhor, é o microconto de Manoel de Barros; reconheço que sou o primeiro e único a classificá-lo como tal, pois faz parte de livro de poemas (Poesia completa, Leya, 2010, p. 222), e não de contos:

“Ovo de lobisomem não tem gema.”

            Através destes dois exemplos – ainda em busca de uma definição –, podemos concluir que o microconto, muito mais que contar uma história, ele sugere uma história, e deixa que o leitor a complete.
            Franz Kafka escreveu em seu diário, em 6 de dezembro de 1922, o microconto perfeito:

"Duas crianças, sozinhas no apartamento,
entraram numa grande mala, 
a tampa fechou-se, não a conseguiram abrir
e morreram asfixiadas."

            Mais uma definição de microconto: a arte de cortar palavras. O exercício propicia o desenvolvimento da concisão. Nossos políticos bem que poderiam cultivá-lo, como antídoto para a prolixidade que os caracteriza. Filósofos e psicanalistas lacanianos também.

***
            
O texto acima foi distribuído aos participantes da oficina por Tobias. Pediu que o lessem com calma, em casa, e pensassem sobre o assunto. Em seguida, passou a ouvir a produção do grupo. 
Thiago, fisioterapeuta, surpreende a todos, provoca risos e deixa Tobias intrigado:

“Matriculou-se na oficina literária para se tornar um escritor. Virou crítico literário.”

            Onde aprendeu a escrever microcontos, Thiago, pergunta Lúcia perplexa, 20 anos, estudante de Letras, pois ela mesma sentiu enorme dificuldade para criar algum. Tem gente que nasce sabendo, sapecou Tobias, tenho uma amigo de nome Moisés, médico, que é especialista em doença dos olhos e microcontos. Desde a primeira vez que lhe sugeri escrever microcontos, a produção dele foi espantosa. Cito aqui apenas um exemplo:

“Estamos sós

Justamente agora que as câmeras estão por toda parte, os discos voadores resolveram abandonar a Terra.”

Espocaram aplausos em homenagem ao Moisés! Sucedem-se as apresentações, algumas boas, outras nem tanto, Tobias certo de que eles pegaram o espírito da coisa. E encara o grupo com uma boa frase,  É preciso ter amor às palavras.
Senhores, para amanhã estudem Haicais, tragam seus próprios haicais. Boa tarde a todos.

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