segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

sobre dois versos de ana cristina cesar


ana sabiamente diz que
“é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço”
no poema intitulado
“recuperação da adolescência”

com a chegada da velhice
é possível sentir o poema
de um outro modo

o desfazimento do corpo
o lóbulo da orelha esquerda
ameaça desprender-se da face
o coração titubeia
com os entupimentos
a memória se esvai
água de torneira escancarada
os músculos cansados
uma certa falta de ar
os olhos baços

corpo evanescente
com isso surge a leveza
as coisas já não têm importância
tempo de doar os livros
doar as roupas
nada de pedidos ou exigências

o tempo não importa mais
ler somente livros pequenos
conversar mais com os cães
escrever quando dá vontade
sem perguntar por quê
nem para quem

algo a ver com imortalidade?
talvez talvez talvez
agora é tempo de dúvida
nada é certo
nada é eterno
nada é confiável

nem mesmo o amor?
muito menos o amor
que nunca foi eterno
muito menos confiável

com o desfazimento lento
inexorável do corpo
o que resta?
o Nada
seu grito silencioso
e por isso tão leve
que torna bem mais fácil
ancorar o navio no espaço

4 comentários:

  1. nem mesmo o amor?
    muito menos o amor
    que nunca foi eterno
    muito menos confiável

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    Respostas
    1. Parece que você gostou destes versos, Tatyana... Mas se você é jovem, não acredite neles.

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  2. Resta ainda o Poema. E o seu é lindo de fazer chorarem os ossos, André!
    Feliz Natal!

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  3. Sempre há de restar a poesia, não é mesmo, Nazaré!

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