compõem a bela imagem
líquenes e tronco
Nem todos saberão o que significa ser um audiófilo. O Houaiss nem mesmo registra a palavra. O Dicionário Informal (muito bom, por sinal, traz até a palavra “avencário”!) dá a seguinte definição:
“Aquele que gosta de ouvir e separar todos os diversos tipos de sons de alta fidelidade, desde os mais graves aos mais agudos existentes na música. Que gosta de ouvir, definir e reconhecer os diversos sons de alta fidelidade existentes na natureza.”
Muito boa definição: o audiófilo gosta de sons, e em alta fidelidade; o audiófilo quase que despreza a música propriamente dita; ele pouco conhece da obra de grandes compositores, como Bach, Mozart, Beethoven; nem adianta perguntar se ele conhece Ärvo Part; se você tenta puxar assunto ele dirá, Você não é um audiófilo, é apenas um melômano.
O audiófilo gasta fortunas em equipamentos de som cada vez mais sofisticados, cada vez maior a “fidelidade” dos sons. Diante dos aparelhos, ele se parece com uma criança de 5 anos, extasiada diante dos desenhos da cartilha, de um T de TATU, um B de BOLA, um Z de ZABUMBA. Como a criança que ainda não sabe juntar as letras, o audiófilo não junta os maravilhosos sons que é capaz de ouvir – muitos possuem ouvido absoluto.
O lutier (grafia registrada pelo Caldas Aulete, mas ignorada pelo Dicionário Informal, que reconhece apenas luthier, embora registre “avencário”) é um construtor, um artista, um homem raro, com certeza. Imaginem! Fabricar um violino, uma viola, um violoncelo! Construir um cavaquinho para meu amigo Moisés! Escolher a madeira, prepará-la, tornear o instrumento, dar-lhe acabamento, ouvir por fim os sons das cordas a vibrar na caixa de ressonância! Que artista!
Ao que parece, com raras exceções, o lutier não conhece música, raramente toca o instrumento que fabrica.
Onde entra o poeta na crônica? Afirma Pessoa, “o poeta é um fingidor.” Portanto, não se pode confiar cegamente que há mesmo uma “pedra no meio do caminho”; quem garante que a única solução seja “tocar um tango argentino”?; “se eu me chamasse Raimundo”, seria apenas uma rima (poesia não é a solução); quem disse que é “ferida que dói e não se sente”?; Manoel garante que “ovo de lobisomem não tem gema”; intermináveis fingimentos de poeta.
Fingem o audiófilo, o lutier e o poeta. A Vida mesma é outra coisa.
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade
(Só para comparar...)
Adoro listas.
Abaixo, uma lista desde 1901, ano em que a premiação começou, do Nobel de Literatura.
1901. Sully Prudhomme (França).
1902. Theodor Mommsen (Alemanha).
1903. Bjørnstjerne Bjørnson (Noruega).
1904. Frédéric Mistral (França) e José Echegaray (Espanha).
1905. Henryk Sienkiewicz (Polônia).
1906. Giosuè Carducci (Itália).
1907. Rudyard Kipling (Reino Unido).
1908. Rudolf Christoph Eucken (Alemanha).
1909. Selma Lagerlöf (Suécia).
1910. Paul von Heyse (Alemanha).
1911. Maurice Maeterlinck (Bélgica).
1912. Gerhart Hauptmann (Alemanha).
1913. Rabindranath Tagore (Índia).
1914. Não houve premiação.
1915. Romain Rolland (França)
1916. Verner von Heidenstam (Suécia).
1917. Karl Adolph Gjellerup (Dinamarca) e Henrik Pontoppidan (Dinamarca).
1918. Não houve premiação.
1919. Carl Spitteler (Suíça).
1920. Knut Hamsun (Noruega).
1921. Anatole France (França).
1922. Jacinto Benavente (Espanha).
1923. William Butler Yeats (Irlanda).
1924. Władysław Reymont (Polônia).
1925. George Bernard Shaw (Irlanda).
1926. Grazia Deledda (Itália)
1927. Henri Bergson (França).
1928. Sigrid Undset (Noruega).
1929. Thomas Mann (Alemanha).
1930. Sinclair Lewis (Estados Unidos).
1931. Erik Axel Karlfeldt (Suécia).
1932. John Galsworthy (Reino Unido)
1933. Ivan Bunin (nascido na Rússia, residente na França).
1934. Luigi Pirandello (Itália).
1935. Não houve premiação.
1936. Eugene Ou'Neill (Estados Unidos).
1937. Roger Martin du Gard (França).
1938. Pearl Séc. Buck (Estados Unidos)
1939. Frans Eemil Sillanpää (Finlândia).
1940. Não houve premiação.
1941. Não houve premiação.
1942. Não houve premiação.
1943. Não houve premiação.
1944. Johannes Vilhelm Jensen (Dinamarca).
1945. Gabriela Mistral (Chile).
1946. Hermann Hesse (nascido na Alemanha, residente na Suíça).
1947. André Gide (França).
1948. T. S. Eliot (nascido nos Estados Unidos, residente no Reino Unido).
1949. William Faulkner (Estados Unidos).
1950. Bertrand Russell (Reino Unido).
1951. Pär Lagerkvist (Suécia).
1952. François Mauriac (França).
1953. Winston Churchill (Reino Unido).
1954. Ernest Hemingway (Estados Unidos).
1955. Halldór Kiljan Laxness (Islândia).
1956. Juan Ramón Jiménez (Espanha).
1957. Albert Camus (França).
1958. Boris Leonidovich Pasternak (União Soviética).
1959. Salvatore Quasimodo (Itália).
1960. Saint-John Perse (França).
1961. Ivo Andrić (Nascido na Áustria, residente na Iugoslávia).
1962. John Steinbeck (Estados Unidos).
1963. Giorgos Seferis (Grécia).
1964. Jean-Paul Sartre (França).
1965. Mikhail Sholokhov (União Soviética).
1966. Shmuel Yosef Agnon (nascido na Áustria e residente em Israel) e Nelly Sachs (nascida na Alemanha e residente na Suécia).
1967. Miguel Ángel Astúrias (Guatemala).
1968. Yasunari Kawabata (Japão).
1969. Samuel Beckett (Irlanda).
1970. Aleksandr Isayevich Solzhenitsyn (União Soviética).
1971. Pablo Neruda (Chile).
1972. Heinrich Böll (Alemanha).
1973. Patrick White (nascido no Reino Unido, residente na Austrália).
1974. Eyvind Johnson (Suécia) e Harry Martinson (Suécia).
1975. Eugenio Montale (Itália).
1976. Saul Bellow (Nascido no Canadá, residente nos Estados Unidos).
1977. Vicente Aleixandre (Espanha).
1978. Isaac Bashevis Singer (nascido na Rússia, residente nos Estados Unidos).
1979. Odysseas Elytis (Grécia).
1980. Czesław Meułosz (nascido na Polônia, residente nos Estados Unidos).
1981. Elias Canetti (Bulgária).
1982. Gabriel García Márquez (Colômbia).
1983. William Golding (Reino Unido).
1984. Jaroslav Seifert (nascido na Áustria, residente na Checoslováquia).
1985. Claude Simon (França).
1986. Wole Soyinka (Nigéria).
1987. Joseph Brodsky (nascido na União Soviética, residente nos Estados Unidos).
1988. Naguib Mahfouz (Egito).
1989. Camilo José Zela (Espanha).
1990. Octavio Paz (México).
1991. Nadine Gordimer (África do Sul).
1992. Derek Walcott (Santa Luzia).
1993. Toni Morrison (Estados Unidos).
1994. Kenzaburō Ōe (Japão).
1995. Seamus Heaney (Irlanda).
1996. Wisława Szymborska (Polônia).
1997. Dario Fo (Itália).
1998. José Saramago (Portugal).
1999. Günter Grass (Alemanha).
2000. Gao Xingjian (nascido na China, residente na França).
2001. V. Séc. Naipaul (nascido em Trinidad e Tobago, residente no Reino Unido).
2002. Imre Kertész (Hungria).
2003. J. M. Coetzee (África do Sul).
2004. Elfriede Jelinek (Áustria).
2005. Harold Pinter (Reino Unido).
2006. Orhan Pamuk (Turquia).
2007. Doris Lessing (Reino Unido).
2008. Jean-Marie Gustave Lhe Clézio (França).
2009. Herta Müller (Alemanha).
2010. Mario Vargas Llosa (Peru).
2011. Tomadas Tranströmer (Suécia).
2012. Mo Yan (China).
2013. Alice Munro (Canadá).
2014. Patrick Modiano (França).
2015. Svetlana Aleixievich (Bielorrússia).
2016. Bob Dylan (Estados Unidos).
2017. Kazuo Ishiguro (Reino Unido).
2018. Olga Tokarczuk (Polônia).
2019. Peter Handke (Áustria).
2020. Louise Glück (Estados Unidos)
A foto do dia
O então presidente dos EUA Barack Obama cumprimenta
Louise Glück, ao entregar a ela a National Humanities Medal
na Casa Branca em 22 de setembro de 2016
Foto: AP Photo/Carolyn Kaster, File
Louise Glück é a Prêmio Nobel de Literatura em 2020. A reportgem é de Guilherme Sobota, para O Estado de S. Paulo (8 out 2020).
Sua obra é inédita em livro no Brasil. “A escritora foi escolhida "por sua voz poética inconfundível que, com beleza austera, faz universal a existência individual".
“Glück nasceu em 1943 em Nova York, e atualmente vive em Cambridge, Massachusetts. Além de escritora, ela é professora na Yale University, em Connecticut. Ela estreou na poesia em 1968 com o livro Firstborn, e entre outros prêmios importantes também levou o Pulitzer, pelo livro The Wild Iris, em 1993, e o National Book Award, em 2014. Dois anos depois, ela recebeu a National Humanities Medal do então presidente dos EUA, Barack Obama.
Louise Glück publicou doze coleções de poesia e alguns volumes de ensaios sobre o assunto. De acordo com a Academia Sueca, seu trabalho é caracterizado por uma busca pela clareza. Entre seus temas, estão a infância, a vida em família, e os sonhos e ilusões são alguns de seus processos na escrita.”
“O poeta, tradutor, músico e professor Pedro Gonzaga publicou em 2017 e 2018, no blog Estado da Arte, algumas traduções de seus poemas.
O dilema de Telêmaco
Nunca consigo decidir
o que escrever
nas lápides de meus pais. Sei
o que ele quer: ele quer
amado, o que por certo
vai direto ao ponto, particularmente
se contarmos todas
as mulheres. Mas
isso deixa minha mãe
a descoberto. Ela me diz
que isto não lhe importa
para nada; ela prefere
ser representada por
suas próprias conquistas. Parece
pura falta de tato lembrar aos dois
que alguém não
honra aos mortos perpetuando
suas vaidades, suas
projeções sobre si mesmos.
Meu próprio gosto dita
precisão sem
tagarelice; eles são
meus pais, consequentemente
eu os vejo juntos,
às vezes inclinado a
marido e mulher, outras a
forças opostas.
Parábola da fera
O gato anda em círculos na cozinha
com o passarinho morto,
sua nova possessão.
Alguém deveria discutir
ética com o gato enquanto ele
perscruta o débil passarinho:
nesta casa
nós não exercemos
a força deste jeito.
Diga isso ao animal,
seus dentes já
fundos na carne de outro animal.
Memórias da Pele da Terra
Exposição na Casa Thomas Jefferson em 1999.
Nada melhor que as palavras da própria artista para definir a origem de seu trabalho, que eu amo:
“Terra. Colher a terra, transformá-la em pigmento foi um aprendizado. Uma proximidade muito forte com a natureza. No meu imaginário a terra seria a memória e sua paisagem vida sobre o planeta. Foi como conversar com a minha origem.”
Helena Lopes