segunda-feira, 13 de abril de 2020

manhã de sol quente





manhã de sol quente
a vegetação espera
as chuvas da tarde
            no sopro calmo do vento
   uma libélula voa


Autores da renga: André (primeira estrofe) e Mercêdes (segunda)
Foto: AVianna, abr 2020.

luminoso abril




zunido de abelhas
hibiscos se abrem ao sol
luminoso abril
            pelas sombras do jardim
            cães perseguem os calangos



Autores da renga: Mercêdes (primeira estrofe) e André (segunda)
Foto: AVianna, abr 2020.

Escrita e isolamento social


Autores dão dicas de como usar dias de isolamento para começar a escrever: este título do artigo de Fernanda Boldrin, para O Estado de S. Paulo (13 abr 2020), resume o assunto. 
Escrever pode ajudar a vencer o isolamento. A frase do estudante de engenharia Victor de Oliveira Dias, que desejava começar a escrever em meio à quarentena, é interessantíssima: “Senti cansaço de ser passivo com as artes, de apenas absorver”. 
“Se escrever é algo que você quer fazer, mas, por alguma razão, sempre tem uma desculpa para adiar, esta é uma oportunidade”, diz a poeta e escritora Angélica Freitas. Embora confinada, ela mantém seu ritmo de escrita: “Como eu não posso sair à rua ver pessoas, tenho observado o movimento da minha janela. Tento imaginar para onde vai quem passa por aqui.” 
A escritora e crítica literária Noemi Jaffe afirma que, “para escrever, é preciso escrever”. “Não espere uma inspiração, porque ela só vem quando a gente senta para escrever. Não espere nada.” “Noemi vê na escrita um gesto de transformação, uma maneira de, com o mal-estar e a imprevisibilidade da situação, fazer palavras.” Este blogueiro dá a isso o nome de Escrita Terapêutica.
“Na caixinha de ferramentas de Noemi e de Angélica, estão também os desafios verbais. Pode-se tentar, por exemplo, escrever um texto sobre amor sem usar a palavra “amor”, ou um texto sem usar nenhuma vez a letra “e”. Explorar uma história já conhecida pela perspectiva de outra personagem ou, ainda, escrever um poema para os cinco objetos mais próximos de si.” Pessoalmente, não gosto desse exercício, em que o tutor sugere o tema e o discípulo obedece. Isso significa abandonar a criatividade de quem começa a escrever, penso que funciona como fator inibidor dessa criatividade. Mas reconheço que pode funcionar para muita gente.
O artigo de Fernanda Boldrin traz ainda dicas para escrever:
1 Concentração: procure um ambiente onde você possa ter um tempo sozinho. 
2 Rotina: comprometa-se a escrever no mesmo horário, ainda que por um curto intervalo de tempo.  
3 Caderno: tenha sempre um caderno por perto. Além de ajudar a não perder ideias pelo caminho, começar e terminar o caderno funcionam como incentivos à escrita. 
4 Observação: olhe com atenção as coisas acontecendo ao seu redor, dentro ou fora de casa.  
        Minha dica é começar pelo microconto, que pode conter, por exemplo, até 140 toques, como manda o Twitter; trata-se de ótimo exercício para estimular a criatividade, aprender a ter intimidade com as palavras, desenvolver o poder de síntese, abusar do bom humor.
Há cursos online para aperfeiçoar a escrita, o que pode ser interessante para quem acredita no modelo.
O artigo só não fala de algo fundamental para quem deseja escrever: ler! Ler ler ler, ler muito, até que um dia, cansado de “apenas absorver”, o sujeito sente o desejo de produzir algo original, seu, registrar o que lhe passa pela cabeça, emitir opinião sobre qualquer coisa, uma ideia, nova ou velha, não importa, e quando bate esta vontade, então o “caderno por perto” há de ajudar.
Este blogueiro está sempre voltando ao tema. Gostaria muito que minhas filhas escrevessem. Água mole em pedra dura...



domingo, 12 de abril de 2020

Pobres velhos



Minha avó Cici


 “Ao ouvir que “só os mais velhos” estão sujeitos ao novo coronavírus e que a força jovem e criativa da parte dos vivos que interessa à humanidade deve voltar aos trabalhos agora para que o país não derreta, penso logo em como se sentem esses tais “mais velhos” aos quais o suspiro de alívio da frase se refere. Dizer que a doença “só mata velhos” é como dizer “tudo bem, só morre quem está com o pé na cova” ou “quem vai se abalar com a morte de alguém que já viveu tanto?” Escreveu Júlio Maria, crítico e repórter de O Estado de São Paulo, com o sugestivo título Velhos, o peso do mundo (25 mar 2020).
            Desde o início da pandemia ouço a mesma cantilena, só os velhos morrem, aqueles com mais de 60 anos, eles precisam ficar isolados. Quem tem mais de 70 então nem se fala. Se você tem mais de 80 já morreu e ainda não sabe disso! 
            A sensação que em mim despertam tais afirmações é bastante desconfortável, para dizer o mínimo. E como leio e vejo a mesma notícia todos os dias desse isolamento social, vou aos poucos me abatendo, me sentindo pária no mundo, condenado ao degredo, verdadeiro leproso isolado em uma caverna escura, longe do restante das gentes, dos mais jovens sadios imunes ao vírus.
            Como bem escreveu Julio Maria, “Os velhos se tornaram o peso do mundo”. Perfeitamente dispensáveis, já que são inúteis mesmo, acrescento eu.
            Mas como ficarão nossos netos e netas, sem cada um de seus avós? 
            Minha avó Cici, mãe de meu pai, talvez tenha sido a pessoa mais importante em toda minha infância. Discreta, silenciosa, amorosa ao extremo, tratava o menino como se ele fosse gente grande, respeitosamente. Que teria sido de minha infância sem minha querida avó Cici?
            Pensando melhor, ninguém é dispensável nesse mundo de deus. Diria Manoel de Barros:

          Até um velho jogado fora
          serve para a poesia.

            Julio Maria termina sua crônica pedindo respeito aos velhos: “Há um momento da vida em que morrer por um vírus não é o problema. O que dói é ser assassinado antes de tudo acabar.”



Moisés e o Toc


Toc

– Que menina organizada! Tudo limpo e perfumado. Continue assim filhinha – ouvia, orgulhosa.



Toc toc

Quando todos iam dormir, ela tornava a lavar a louça do jantar e assistia o ciclo completo da máquina de lavar roupas, triunfante.



Toc toc toc

O casal se mudou para um flat de quarenta metros quadrados para diminuir as tarefas. Os elevadores do edifício ficaram um brinco.



Toc toc toc toc

Madrugada. Ele se levanta silenciosamente da cama. Urina sentado no escuro. Ao sair do banheiro, ela entra de luvas, rodo e balde. Exausta. 


                   Moisés Tito Lobo Furtado,
                   para alegria do blog, pois o homem
                   é o gênio do microconto!

aos pés dos donos





aos pés de seus donos
felicidade total
de barriga cheia
          o amor incondicional
          que nos dedicam os cães



Foto: autor desconhecido

camélias





jardim em silêncio
quando as camélias florescem
das flores, rainha
            verdadeiro encantamento
    pureza e intenso perfume






Fotos: AVianna, mai 2020

Tanka e Renga




pleno fim de outono
o imperador do jardim
jequitibá-rosa
            as folhas ainda verdes
            enfeitam o céu azul

***

            Tanka é um tipo de poesia japonesa formada por 31 sílabas, distribuídas no formato 5-7-5/77, em 2 estrofes. Importante notar que os dois últimos versos não podem ser uma continuação natural, explícita, dos três primeiros, embora devam ter significado correlato.
            Depois de algum tempo, por volta do século XV, o tanka passou a ser composto por duas pessoas, um responsável pela primeira estrofe, outro pela segunda. Recebeu então o nome de Renga.  
            Exemplo de renga e seus autores, Mercêdes e André respectivamente:




no escuro da noite
o roseiral sorve as gotas                                
derradeira chuva
          na manhã de fim de outono
          delicioso perfume

***


           Mais tarde a primeira estrofe do tanka ganhou autonomia, vida própria, vindo a chamar-se Haikai, forma de grande prestígio até hoje no mundo da poesia.



Fotos: AVianna e Mercêdes, abr 2020.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Mania de microconto


Tome cuidado, todo aquele que gosta de escrever!
            Cuidado para não ser tomado pela mania do microconto, pois ela gruda que nem chiclete. Tudo pode virar um microconto: uma paisagem, cachorro bebendo água, gato vadio, orquídea em flor, as quatro estações do ano, um domingo de sol. Os sentimentos, então, nem se fala.
            Estou lendo Diário de um velho louco, de Jun`Ichiro Tanizaki, e de repente me deparo com um microconto prontíssimo, a saltar aos olhos, lindo, e o autor não sabia que estava compondo um microconto, estava apenas escrevendo seu diário, sossegado, mas eis que o leitor atento descobre no texto um belo microconto.

“– Apesar das dores, eu me distraio escrevendo. Prometo parar quando ficarem insuportáveis. No momento, estou melhor assim. Deixe-me sozinho, por favor.”

            O microconto é síntese, e por isso mesmo dá o que pensar. Para quem escreve e para quem lê.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Imprevisto diante da fome


Quando tentou receber seus R$600,00, viu que tinha problema com o CPF. O sobrenome da mãe tinha um N só.