Fotoabstração
terça-feira, 29 de dezembro de 2020
segunda-feira, 28 de dezembro de 2020
Insólita cena
Estou atento aos mínimos sinais. Até quando, até quando?
Uma de minhas funções cotidianas é botar a mesa para o almoço, o que faço sem dificuldade, seguindo as regras da boa etiqueta. Ontem, uma surpresa: me deparo com a intrigante imagem de um prato e duas facas dispostos em meu lugar à mesa. Como assim? Assim não posso comer...
Alinhavo de pronto algumas hipóteses para justificar a cena.
– Uma piada?
– Simples distração?
– Pura falta de atenção?
A última hipótese me atrai, provavelmente devido a repetição do fato em refeições anteriores, não muitas.
Gosto da palavra lunático, que segundo o Houaiss significa “aquele que vive fora da realidade”. Aquele que vive mais na Lua que na Terra. Se estou na Lua, como posso dispor corretamente os talheres na mesa de minha terráquea casa?
Talvez esta distração possa ser uma das primeiras manifestações do processo de demenciação, a falta de atenção.
Alienação também é uma boa palavra para exprimir tais ideias. Voltemos ao dicionário: afastamento,alheamento, distração, são significados registrados e pertinentes. A mente divaga e o corpo vai junto, naturalmente.
Já não sou eu quem bota a mesa? Que outro será este? Permaneço atento aos mínimos detalhes, na tentativa de manter o Eu no lugar onde sempre esteve.
Ou se trata apenas de uma piada?
sábado, 26 de dezembro de 2020
sexta-feira, 25 de dezembro de 2020
Flores e insetos
Meus quadros favoritos
Função da Literatura
A reportagem de Bruna Martinelli (14 dez 2020) para Revide chama nossa atenção desde o título: Empresa de São Carlos motiva funcionários a ler e escrever em meio à pandemia.
Adriana Ferreira, 48, formada em jornalismo, é uma grande leitora, mas “seguiu o ramo de negócios para manter a empresa familiar, uma concessionária de veículos de São Carlos”. Sempre com um livro na mão, Adriana despertou a curiosidade dos funcionários; o desejo de compartilhar o hábito da leitura contaminou seu ambiente de trabalho. Criou-se assim uma roda de conversa literária com a participação de mecânicos, estagiários e pessoas de diferentes profissões, com livros financiados pela empresa.
“Tem gente que nunca tinha lido um livro, só resumo para vestibular e faculdade. Eles estão lendo e tendo boas discussões sobre livros que eu leio e que os outros vão indicando. Desse grupo já surgiu um outro, pois os funcionários tinham interesse em incluir parentes, amigos, então acabei montando um outro grupo aberto para não ter muitas pessoas e dar espaço para todos falarem. Hoje temos dois grupos: um de pessoas da empresa e outro de pessoas de fora”, conta Adriana.
Adriana notou mudanças positivas tanto no ambiente de trabalho quanto no lado pessoal dos funcionários, que afirmam: “eu não sabia que ler é tão bom”.
Em seguida foi inaugurada uma oficina de escrita criativa, promovida pela funcionária Andressa Leonardo, formada em linguística, e que reúne dez pessoas para aprimorar a escrita através de textos e poesias.
São palavras da própria Adriana: “Meu sonho era sempre levar para mais alguém tudo que a literatura fez de bom para mim. A gente percebe pelos relatos que isso amplia a vida delas. É um novo espaço dentro da gente, um espaço de sonho e compreensão que você não volta mais para trás. Em vez de fazer uma rodada de cerveja para os funcionários em um fim de tarde, compra um livro e faz uma roda de leitura que você terá muito mais resultado. O investimento é muito baixo, é só comprar um livro e abrir um espaço para as pessoas se reunirem em roda. Não interessa que no começo serão 5, amanhã serão 7, e assim vai”.
Sem dúvida um belo exemplo, a ser seguido em todo lugar que haja um determinado grupo de pessoas, juntas por qualquer razão.
Relembro aqui a afirmação de Antonio Candido:
“A literatura é, ou ao menos deveria ser, um direito básico do ser humano, pois a ficção/fabulação atua no caráter e na formação dos sujeitos”.
É isso que Adriana Ferreira vem promovendo.
http://www.revide.com.br/blog/ana-candida-tofeti/empresa-de-sao-carlos-motiva-funcionarios-ler-e-es/
quinta-feira, 24 de dezembro de 2020
Água funda, prosa poética
“A gente passa nessa vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada.”
Ruth Guimarães
Água Funda, Editora 34, 2020.
Conto de Natal 2020
Bem antes da diáspora, o pai reuniu a família, fez a proposta, Natal está chegando, vamos fazer um concurso para ver quem escreve o Conto de Natal mais bonito, o vencedor ganhará um prêmio!
A recepção ao belo e inocente desafio foi a mais gelada possível, como se o Natal estivesse sendo comemorado na Sibéria. Nem um a palavra, nem sim nem não, o pai insistiu mais um pouco, estabeleceu a data limite para que os textos fossem entregues, o assunto morreu ali. Ninguém escreveu nada.
Desde então, em alguns natais, seja por sentimento de culpa, seja apenas pela simples vontade de escrever, ensaio um Conto de Natal: às vezes vinga, outras não. Assim sendo, aqui estou eu, neste final do fatídico ano de 2020, em completo isolamento social, pensando em algo para comemorar.
Tenho a comemorar tão somente – e isso é tudo! – o fato de estar vivo, prestes a completar 74 anos. Os que creem, agradecem ao seu deus. Os que não creem, devem agradecer a quem?
Penso que os que não creem devem agradecer pela experiência fantástica de viver, na maioria das vezes dolorosa, triste, desafiadora, repleta de armadilhas, de imprevistos, alguns funestos em demasia, porém fantástica pelo contraponto, pelos momentos de alegria inebriante, o nascimento de um filho, o amor pela companheira, a amizade dos cães, poder molhar os pés na água do mar.
A depender da resiliência de cada um, a experiência de viver só se compara a um grande romance, que tem início há muitas gerações que nunca chegamos a conhecer, e que se desenrola por a nos a fio, com nascimentos e mortes, prolongando-se no tempo até onde nunca saberemos. É o “romance familiar”, que nos envolve a todos, nos afeta profundamente, nos molda para a vida, modifica nosso modo de ser – o que nem sempre percebemos.
Se temos a comemorar a experiência de viver, quê mais precisamos comemorar? Nesse 2020, fiquemos em casa. De minha parte, só posso mesmo escrever uma pobre crônica e desejar a todos um feliz Natal.






