quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Por quê tanto sofrimento?



Friedrich Nietzsche (1844-1900)

 


Por quê tanto sofrimento no mundo? Quem pergunta é toda a humanidade, independentemente de raça, cor, religião, posição política, ou qualquer outra diferença entre pessoas, países, continentes.

            Voltemos a Viviane Mosé, em seu livro Nietzsche hoje, já apresentado nesse blog:

 http://loucoporcachorros.blogspot.com/2020/10/nietzsche-hoje.html.

            Vamos ao capítulo Sobre o Sofrimento (p. 100-101):

 

“A dor advém, antes de tudo, do choque que caracteriza a vida como eterna expansão, eterna superação de si mesma. Em outras palavras, a dor é própria da vida, não tem como eliminá-la completamente, especialmente a dor psíquica, a dor de existir, de ter que fazer escolhas, lidar com as perdas, com o erro, com a morte...”

 

            E Viviane complementa:

 

“A dor é uma positividade, possui uma função no organismo; ela é um sinal, um alarme, portanto é preciso aprender a interpretá-la considerando o fluxo da vida, considerando as forças que estão em questão. A dor é sinal de recolhimento, retração, requer cuidados.”

 

            Nos anos 70, era professor em tempo integral e dedicação exclusiva no Hospital de Sobradinho, cidade satélite de Brasília, o então hospital de ensino da Universidade de Brasília, que vinha desenvolvendo interessante projeto de Medicina Integrada. (Um pobre coitado residente no sul do Piauí, com apendicite aguda, tinha acesso ao nosso hospital com mais facilidade do que encontrava atendimento em outra cidade, incluindo a capital de seu estado.) Tínhamos contato com as patologias as mais variadas, e com os respectivos sofrimentos que as acompanhavam.

            

Menina mirrada, perto de 5 anos de idade, chega ao hospital com enorme inchaço em um dos tornozelos, sem outros comemorativos – no jargão médico –, sem febre, sem dor no local da lesão. Ao exame físico, a manipulação do local afetado não ocasiona qualquer sinal de dor. A radiografia revela fratura grave da tíbia e de alguns ossos do tornozelo. Ela nega dor.

Renomado Professor de Pediatria, natural do Chile, atraído a Sobradinho pelo tal projeto de ensino, como tantos outros o fizeram e convidado ver a menina mirrada. Ele a ouve, examina, olha a radiografia, chama a enfermeira e solicita uma agulha hipodérmica, dessas de injeção. Pede gentilmente que a menina desvie o rosto para o outro lado, toma-lhe o fino bracinho, e em frente de todos nós, o transfixa com a agulha. A menina não se mexeu. Com certo tom teatral, anuncia o diagnóstico: 

– Agenesia Congênita da Dor, doença incompatível com a vida.

Complemento eu: uma simples apendicite aguda, uma pneumonia, levam à morte, pois na ausência de dor não se suspeita de que algo esteja errado, não se faz  diagnóstico precoce. (A menina continuava andando, o que agravava ainda mais as lesões, por não sentir dor.)

Inspirada em Nietzsche, Viviane aponta: [a dor] “possui uma função no organismo; ela é um sinal...”

 

Outro conceito que desejo enaltecer nos dois pequenos trechos apresentados por Viviane, sempre inspirada no filósofo alemão, é que “a dor é sinal de recolhimento”. Em se tratando da dor psíquica, penso que o recolhimento significa prudência e ao mesmo tempo terapia. (Talvez por isso tantos procurem o silêncio e a penumbra de uma igreja.)

Diante do sofrimento psíquico alguns gritam, esbravejam, amaldiçoam, praguejam, o que só faz aumentar o desequilíbrio mental. O recolhimento propicia o olhar para dentro, permite sentir a dor – aprendi com a psicanálise que esta dor pode doer muito, mas não mata.

Gosto muito da palavra recolhimento. Penso que escrever é uma forma de recolhimento. 

Segundo Nietzsche, a dor é própria da vida.

 

            

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Imprevisibilidade



Matheus Davó comemora o gol da vitória corinthiana 

sobre o Internacional Amanda Perobelli/Reuters


 

Muita gente não gosta de futebol, as mulheres não costumam gostar, é claro, não jogaram bola quando criança, alguns homens não gostam, pudera, sempre iam para o gol quando criança, mas os que viveram a infância num campinho de pelada e lá aprenderam que futebol é jogo para homem, lá aprenderam a falar palavrão, a  experimentar caneladas joelhos ralados cotoveladas na cara tornozelos torcidos braços quebrados e outros desaforos, para esses, impossível deixar de gostar de futebol. É o eterno retorno da infância.

            Agora adultos, para nós o esporte ganha outra dimensão, outros interesses, dentre os quais se destaca a imprevisibilidade.

            Vivemos um Campeonato Brasileiro atípico, como quase tudo no mundo de hoje, por causa da peste. Aos trancos e barrancos, os times vão sobrevivendo, lutando contra o vírus, a falta de preparo físico, a ausência de entrosamento em campo. Apenas dois times conseguem manter um bom nível de jogo: o Flamengo, que vinha muito bem antes da pandemia, treinado por Jesus, e o Internacional, mostrando futebol de respeito, competitivo.

            Neste fim de semana ambos contavam com mais três pontos na tabela, a preservar a disputada liderança. No Maracanã, o Flamengo pegaria o São Paulo, time de desempenho irregular, embora bem colocado na tabela. Em Itaquera, o Corinthians, que não vai lá das pernas, mais para a lanterna que para o topo do campeonato, pegaria o Internacional. Os comentaristas de futebol, raça em franca expansão em tempos de peste, eram quase unânimes: O Mengo vai sobrar, O Inter vai enfiar 5.

            O bonito do esporte é a tal imprevisibilidade, contra tudo e contra todos, contra a estatística, o mando de campo, os desfalques, a ausência do craque do time, a torcida contrária ou até a ausência de torcida. Daí o ditado infalível: Clássico é clássico! (Explico, para quem não é do ramo: tudo pode acontecer em um clássico!)

            Não deu outra. Jogando bem o Corinthians ganhou de 1 a 0 do poderoso Internacional e o São Paulo goleou o grande Flamengo por 4 a 1.

            Agora é esperar pela próxima rodada.

 

 

5 microcontos do Moisés


Óculos novos

 

Assustou-se ao ver as mãos de seu pai brotando em seus punhos.

 

 

 

Pré-malignidade

 

 “A partir de agora, alegria só na sombra”, prescreveu a dermatologista.

 

 

 

Melhor idade

 

A velhice caiu-lhe bem. Nunca soube lidar com excesso de opções.

 

 

 

Limites

 

O céu me causa claustrofobia.

 

 

 

Não à precarização

 

O candidato à presidência do sindicato dos taquígrafos prometeu lutar pela reposição dos feriados perdidos na pandemia.



                            Moisés Lobo Furtado

 

domingo, 1 de novembro de 2020

Procura da Poesia

“Desde 2011, o IMS organiza o Dia D - Dia Drummond, com o objetivo de fazer com que a data do nascimento do grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (31 de outubro de 1902), passasse a integrar o calendário cultural do país.

A fim de promover e difundir a obra do escritor pelo “mundo, mundo, vasto mundo”, o IMS convida parceiros e amigos para celebrar a data. A cada ano, tanto a programação do IMS como das instituições parceiras ficam disponíveis nesta página.”

 

https://ims.com.br/eventos/dia-d-dia-drummond/

 

Foi ontem o Dia D. Vai aqui a homenagem do Louco.

 


Procura da Poesia

 

Não faças versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.

Diante dela, a vida é um sol estático,

não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes 

[pessoais não contam.

Não faças poesia com o corpo,

esse excelente, completo e confortável corpo, 

[tão infenso à efusão lírica.

 

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor 

[no escuro

são indiferentes.

Nem me reveles teus sentimentos,

que se prevalecem do equívoco e tentam 

[a longa viagem.

O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

 

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.

O canto não é o movimento das máquinas 

[nem o segredo das casas.

Não é música ouvida de passagem, rumor do mar 

[nas ruas junto à linha de espuma.

 

O canto não é a natureza

nem os homens em sociedade.

Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança 

[nada significam.

A poesia (não tires poesia das coisas)

elide sujeito e objeto.

 

Não dramatizes, não invoques,

não indagues. Não percas tempo em mentir.

Não te aborreças.

Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,

vossas mazurcas e abusões, vossos 

[esqueletos de família

desaparecem na curva do tempo, é algo 

[imprestável.

 

Não recomponhas

tua sepultada e merencória infância.

Não osciles entre o espelho e a

memória em dissipação.

Que se dissipou, não era poesia.

Que se partiu, cristal não era.

 

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência se obscuros. Calma, 

[se te provocam.

Espera que cada um se realize e consume

com seu poder de palavra

e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva 

[e concentrada

no espaço.

 

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?

 

Repara:

ermas de melodia e conceito

elas se refugiaram na noite, as palavras.

Ainda úmidas e impregnadas de sono,

rolam num rio difícil e se transformam 

[em desprezo.

 

                                               Carlos Drummond de Andrade

 

Caricaca passeia junto à calçada

 



Em nosso passeio dominical de 10 minutos, de carro, para agradar e espairecer a Lila, ainda convalescente, encontramos passeando junto à calçada linda curicaca.


A curicaca é uma ave da ordem dos Pelecaniformes, da família Threskiornithidae.


Seu nome popular é onomatopaico, semelhante ao som do seu canto, composto de gritos fortes. Conhecida também como despertador (Pantanal), carucaca, curicaca-comum, curicaca-branca, curicaca-de-pescoço-branco e caricaca (algumas cidades de Minas Gerais).

 

Seu nome científico vem do grego, theristikos, theistron = ferramenta para colher, ceifar, foice; e do latim, caudatus = referente à cauda. ⇒ Ave com bico em forma de foice e com cauda curta. 



sábado, 31 de outubro de 2020

4 estudos com grafite e carvão

 









Artista: Sarah Pripas, com 18 anos de idade, atualmente cursando Faculdade de Artes da Universidade de Lisboa, Portugal. A menina promete!








Folhagem

Fotominimalismo 





Foto: AVianna, out 2020
iPhone 11 Pro Max

Discordância leal

 

Otávio Santana do Rêgo Barros publicou artigo no Correio Braziliense (27 out 2929) a merecer nossos aplausos pela coragem, erudição, pela forma exemplar, além da elegância proporcionada pela fina ironia: ele não cita nomes.

            Já o título é instigante: Memento mori. Reproduzo aqui o primeiro parágrafo do texto:

 

“Legiões acampadas. Entusiasmo nas centúrias extasiadas pela vitória. Estandartes tomados aos inimigos são alçados ao vento, troféus das épicas conquistas. O general romano atravessa o lendário rio Rubicão. Aproxima-se calmamente das portas da Cidade Eterna. Vai ao encontro dos aplausos da plebe rude e ignara, e do reconhecimento dos nobres no Senado. Faz-se acompanhar apenas de uma pequena guarda e de escravos cuja missão é sussurrar incessantemente aos seus ouvidos vitoriosos: “Memento Mori!” — lembra-te que és mortal!”

 

Em seguida discorre sobre falsas promessas das campanhas eleitorais; das dificuldades políticas por mesquinhos interesses; daqueles que são desrespeitados e abandonados ao longo do caminho; da confortável mudez dos que sobrevivem, movidos por interesses pessoais. 

Até que surge a interessante expressão discordância leal, definida pelo autor como “um conceito vigente em forças armadas profissionais, como a ação verbal bem pensada e bem-intencionada, às vezes contrária aos pensamentos em voga, para ajudar um líder a cumprir sua missão com sucesso.”

O restante do texto por ser lido no endereço abaixo:

https://blogs.correiobraziliense.com.br/denise/com-artigo-memento-mori-general-rego-barros-se-transforma-em-porta-voz-dos-militares/

            

Me interessa a expressão discordância leal, que penso não se aplicar apenas às questões militares; ao contrário, diz respeito à vida cotidiana. Amigo de verdade é aquele que bem tolera a discordância leal; se a amizade termina diante a uma desagradável  discordância – o que não raro acontece – então não havia amizade. Nem sempre é fácil praticar a discordância leal nas relações conjugais: é mais fácil calar, e se perde a oportunidade de conversa franca, criativa, a propiciar crescimento do casal. A discordância leal encontra obstáculos até mesmo nas relações entre pais e filhos, onde seguramente predomina o amor; porém, a discrepância de gerações muita vez impede que uma observação verdadeira leve a bom resultado.

Para que seja eficaz, a discordância leal exige certo rebaixamento do narcisismo presente em todos nós; será preciso considerar o outro, reconhecê-lo como pessoa, aprender a ouvi-lo, para que então a discordância leal possa ser praticada com resultados.

Os fatores de negação vêm de todos os lados. Rêgo Barros aponta: “Infelizmente, o poder inebria, corrompe e destrói!”, ao que acrescento: com o poder o ego se insufla, Narciso domina, o outro desaparece. (Mesmo que seja um poder de merda.) Poder, soberba, vaidade, desmedido orgulho de si mesmo, rechaçam de pronto a discordância leal. Pior: tudo isso faz com que a discordância se volte contra aquele que discorda, a gerar punição, cancelamento mesmo, para usar expressão da moda.

Vale a pena ler o artigo do General.