sexta-feira, 8 de maio de 2020

Lóc o que?

Diálogos inconclusos

...
– vão decretar o Lockdown!
– lóc o que?
– lockdown.
– é nome de outro vírus?
– não, é Fecha Tudo, em inglês.
– e por que não falam Fecha Tudo em vez desse lóc?
– boa pergunta.
– tudo mesmo?
– supermercados e farmácias ficam abertos.
– e lotéricas?
– também.
– ah! tudo fechado pra sempre?
– não, um dia abre...
– quando?
– só deus sabe.
...

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Cuidado com as fake news

Charge do dia



Daniel Paz

Heroína de Banksy




Desenho de Banksy 
em exibição no hospital de Southampton,
Inglaterra.  Foto: @Banksy Instragram/ Reuters


Batman e Homem-Aranha no lixo. O menino agora escolhe uma enfermeira como super-heroína!
            É a nova obra de Banksy, e demonstra a gratidão dos britânicos pelo Serviço Nacional de Saúde (NHS) durante a crise do coronavírus. 
“A pintura do artista de rua apareceu no Hospital da Universidade de Southampton, no sul da Inglaterra, nesta quarta-feira (6 mai 2020). Uma imagem da obra também foi publicada na página de Instagram de Banksy com a legenda “Quem Vira o Jogo”.  
A nova pintura ficará exposta no hospital até depois do fim do isolamento e será leiloada para ajudar instituições do NHS, de acordo com a rede BBC.”


quarta-feira, 6 de maio de 2020

Formiga bunda-de-ouro


O termo Formiga-feiticeira é a designação comum a diversas espécies de vespas da família Mutillidae, especialmente as fêmeas ápteras, que têm aparência de formiga e são geralmente pretas, aveludadas e com vistosas manchas vermelhas, amarelas ou brancas

Além de formiga-feiticeira, nome recebido porque o animal era utilizado para prática de feitiçaria, a espécie também é conhecida pelos seguintes nomes: bunda-de-ouro (este é meu preferido), cachorrinho-de-mulher, cachorrinho-de-nossa-senhora, chiadeira, feiticeira, filho-de-onça, formiga-cascavel, formiga-cega, formiga-chiadeira, formiga-conga, formiga-de-bentinho, formiga-de-onça, formiga-ferro, formiga-maravilha, formiga-oncinha, formiga-suprema, formiga-picadeira, formiga-rainha, formiga-rica, rei-formiga, formiga-sete-socos, formiga-sozinha, formiga-veludo, formiga-rei, formiga-vespa, gatinha, oncinha, piolho-de-onça, tajipucu.

São parasitóides em sua fase larval; apresentam dimorfismo sexual acentuado; as fêmeas são ápteras (não têm asas) e os machos, normalmente macrópteros, ápteros ou raramente braquípteros;  possuem grande variação de tamanho (relacionada com a alimentação na fase larval), sendo observados indivíduos de 5 a 50mm.



Peguei-as sugando o melzinho dos botões das orquídeas em meu jardim. (Clique para ampliar)

       











Fotos: AVianna, mai 2010, iPhone 11 pro Max 2x

Paula brilha novamente


O concurso



Aquatic life finalist
A Friendly Ride
Paula Vianna, Brasília, Brasil




Grand Prize
Bola de lebre
Andy Parkinson, Inglaterra




terça-feira, 5 de maio de 2020

Morre Aldir Blanc




O escritor, compositor e músico Aldir Blanc, 
em uma livraria da Tijuca, Rio, em 2006. 
Alaor Filho / AE



Charge de Kleber Sales
Correio Braziliense de hoje

domingo, 3 de maio de 2020

Estorvo


“É noite e faz um calor abafado. A mala até que está leve, mas carregá-la é incômodo, chama a atenção. Paro no meio-fio e faço de conta que espero um taxi. Um taxi freia e eu saio andando com a mala, fingindo conferir a numeração dos edifícios. Dobro a esquina e tomo uma rua sem movimento; talvez um assaltante me livre da mala. Com o sono em dia e de banho tomado, poderia andar por aí até amanhã, sem compromisso. Mas um homem sem compromisso, com uma mala na mão, está comprometido com o destino da mala. Ela me obriga a andar torto e depressa. Quando dou por mim, estou ao pé das ladeiras que levam à casa da minha irmã. Parece que era esse o caminho arrevesado que eu faria se fosse cego. E estas são as ladeiras íngremes que subo como água ladeira abaixo.”

            O trecho acima foi extraído do livro Estorvo, de Chico Buarque de Hollanda, Companhia da Letras, 1991. Li o livro há 30 anos e nunca me esqueci deste relato, um homem perdido na noite quente, carregando um estorvo de mala.
            Bem que podia fazer parte de antologia escolar, exemplo de ótima literatura, em meu modo de ver. Posso pensar em várias analogias com respeito à nossa vida cotidiana.

            É noite e eu sonho.
            Carrego comigo coisas incômodas, bobas até, mas que me dão trabalho para carregar.
            Preciso fingir que está tudo bem, mas alguém pode descobrir meu incômodo.
            Quem sabe alguém me livra desse peso?
            Com disposição física posso carregá-lo por muito tempo, tudo bem!
            Mas fiz um pacto com este incômodo e ele me obriga a fazer coisas que não desejo, como andar torto e depressa.
            De repente, me vem a imagem de minha mãe, e o caminho torto que tenho percorrido, inconscientemente, me leva à minha infância.
            O sofrimento das pequenas coisas que carregamos por ladeiras íngremes durante toda a vida, como uma mala vazia.

            Não foi à toa que o texto permaneceu vivo em minha memória depois de 30 anos. Só agora posso enfrentá-lo.





sábado, 2 de maio de 2020

O jornalista Ramos


Diante do rumoroso sucesso da crônica E daí?, do jornalista Ramos, publicada no Diário de Notícias da cidade de F., penso que Francisco de Oliveira Ramos, ou apenas Ramos, merece ser apresentado aos leitores deste blog.
            E merece apresentação por duplo motivo. Primeiro porque se trata de pessoa interessante, solteirão bem conservado em seus 50, homem culto, amante da literatura e das artes em geral, casmurro na maior parte dos dias, revelando às vezes certa instabilidade emocional, sujeito a pequenos surtos, como todos nós, o que explica a explosiva paródia da citada crônica. O que não empalha o brilho de suas contribuições para o jornal.
            Ramos vive modestamente, com minguado salário do Diário; às vezes publica em uma ou outra revista de variedades, o que lhe rende dinheirinho extra, reservado para viagens de trabalho – ele gosta do jornalismo investigativo, fã incondicional de Truman Capote, daí o toque literário de seus textos. Mora numa casa modesta, em pequena chácara na periferia de F., em companhia de seus cães, onde cultiva hortaliças, colhe algumas frutas, desfruta do silêncio necessário para ouvir boa música, ler seus autores prediletos.
            O segundo motivo para apresentá-lo aqui é mesmo surpreendente! São “as voltas que o mundo dão”, bem o disse Guimarães Rosa. Coisas da vida, de um vida sobre a qual não exercemos qualquer controle, a nossa nem a dos outros, todos personagens de um romance sem pé nem cabeça, escrito no livro non sense da vida cotidiana, a ponto de gente sabida como Jorge Luis Borges afirmar que realidade e ficção são a mesma coisa.
            Ramos foi cortar o cabelo e conheceu Suzete!
            Suzete mudou-se para F. há dois anos e meio, onde abriu salão de beleza com secção de cabeleireiro para homens e mulheres, maquiagem, manicure e pedicure – só para mulheres, que os homens de F. não fazem as unhas –, massagem, drenagem linfática, coisa fina, empreendimento de alta rentabilidade a serviço da fina flor da sociedade de F..
            Quando Ramos entrou no amplo salão e pediu para cortar o cabelo, foi Suzete quem se apresentou, ela que adora cortar cabelo de homem. Instalado em confortável cadeira, nem bem iniciou o corte, Ramos notou junto a pentes, escovas, pinceis e outros petrechos da cabeleireira, volumoso livro cujo título não conseguia ler. Desculpe perguntar, que livro é este sobre a mesa, é você quem está lendo, Quem mais poderia ser, por acaso uma cabeleireira não pode gostar de ler, Claro que pode, me desculpe o jeito de perguntar, Está desculpado, reconheço que não é mesmo comum, E o tijolo afinal, o que é, As irmãs Makioka, de Jun’Ichiro Tanizaki, e Ramos, perplexo, disparou De onde você desenterrou isso, ouvindo em seguida sonora gargalhada de Suzete, que aproveitou para esnobar o jornalista, É autor japonês de renome, já li três livros dele, o senhor não conhece, tudo indicações que encontro no blog Louco por Cachorros, não vá me dizer que o senhor também não conhece o blog, ah! e também gosto de escrever, está vendo aquele caderno ali, tem crônicas, contos, até um poeminha eu arrisco de vez em quando.
Ramos, atônito, não sabia o que pensar diante da fala articulada, culta, de senso crítico apurado da cabeleireira (passou-lhe uma sombra pela cabeça, pois pensou mesmo foi... de uma simples cabeleireira). Ele não conhecia o livro nem o autor, muito menos o blog de nome esquisito, Louco por cachorros? Que diabo era aquilo? Haveria de pesquisar, poderia até dar um bom artigo para o jornal. Cabeleireira que gosta de ler e escrever? Se bobear, vai parar no Fantástico!
Findo o serviço, Suzete espanou alguns fios de cabelo que porventura houvessem caído na camisa do cliente, recebeu o pagamento e os agradecimentos devidos, Meu nome é Ramos, sou jornalista, muito prazer, Eu me chamo Suzete, volte sempre.
          Ao deixar o salão Ramos murmurou consigo mesmo, Como sou preconceituoso! Quinze dias depois lá estava ele de volta ao salão, apenas para aparar o cabelo sobre as orelhas...

quinta-feira, 30 de abril de 2020

E daí


Ramos precisa entregar a crônica semanal ao Diário de Notícias de sua cidade, passam os dias e ele se sentindo completamente estéril, incapaz de juntar A com B, atordoado com os últimos acontecimentos da política nacional, parece o boxeador que leva potente direito em pleno frontal e bambeia, vacila, troca as pernas e cai, é lona é lona é lona, o juiz inicia a contagem regressiva, Ramos tira forças sabe lá de onde e se mantém de pé, porém uma única expressão martela sua mente, persistente, teimosa, impedindo qualquer outra ideia porque só lhe vêm duas palavrinhas aparentemente inocentes, bobas, pueris mesmo, mas que martelam sem cessar – e daí e daí e daí e daí edaí edaí edaíedaíedaíedaíedaíaíaíaíííííííí...  Estarei enlouquecendo? pensou o jornalista.
            Ramos matuta sobre o significado da expressão e daí e a primeira dúvida que surge é se se trata de interrogação ou de interjeição. Lembra-se então de certa canção interpretada pela grande Maysa, autoria de Miguel Gustavo, justamente com o título E Daí? que diz:

Proibiram que eu te amasse
Proibiram que eu te visse
Proibiram que eu saísse
E perguntasse a alguém por ti

Proíbam muito mais
Preguem avisos, fechem portas
Ponham guizos
Nosso amor perguntará:
E dai? E daí?

            Na melancolia dessa letra Ramos encontra algum alívio para sua obsessão e ele mesmo passa a se perguntar, e daí? Não entrego a merda dessa crônica para o jornal e está acabado. E daí?
            A consciência pesa, ele nunca havia descumprido o compromisso nos 27 anos que trabalha para o Diário, respeitadíssimo pelo Editor Chefe e pelos colegas, apreciado pelos assíduos leitores de suas crônicas, ele não pode faltar com o compromisso, é homem de palavra, nunca assinou um cheque sem fundos, como jornalista podia não dizer toda a verdade mas mentir nunca mentia... e daí? Preciso escrever a porra dessa crônica.
            Ramos decide-se então pela paródia, inspirado em Miguel Gustavo:

Proíbam tudo
fechem ruas e pontes
soem alarmes
tranquem as portas
não saiam de casa
o vírus está solto
cuidado com o maligno 
ele mata de todas as formas
pneumonia infarto trombose
mata crianças jovens adultos velhos
principalmente velhos
quem tiver mais de 80 já está morto
não cheguem perto dos velhos
protejam seus avós
tranquem os netinhos
nada de abraços e beijinhos
daqui pra frente é tudo virtual
mesmo assim morre gente
morre gente
morre gente
morre gente
os cemitérios lotados
caixões empilhados
empilhados
empilhados
empilhados
morte solidão
morte indigna 
sobre-humano sofrimento
horror horror horror
e diante da tragédia
alguém pergunta
alguém exclama
– e daí?!

            O jornal publica o texto no alto da primeira página e Ramos é carregado nos ombros da multidão que se aglomera em frente à Redação. E daí.



Em tempo, Ramos recomenda fortemente que os leitores do Louco ouçam a interpretação de Maysa:

https://www.youtube.com/watch?v=OZujyvU0abc




Por quê?


O esmero com a verdade e o gosto pela boa comunicação devem ter sido o princípio. Sentia prazer em transmitir mensagens claras e fieis à realidade, ser um mediador confiável com mínimo ruído e boa síntese. Armei a vela para pegar esse vento.
Para mim, o conteúdo era o principal e a mensagem teria que acrescentar conhecimento, ser útil. Grande engano. A essência é a forma, a beleza, a fluidez. Tive que navegar em águas desconhecidas.
As tintas e as perspectivas importam mais do que a paisagem. Sei agora que a minha interferência e o meu ruído são o mais interessante da história. Os rastros são nossa assinatura, os sinais que estivemos ali, a única forma de ser autoral.
Escrever me ensinou a ler. Experimentar a dificuldade me fez admirar Pessoas, Clarices e Quintanas. Fez despertar minha inveja em prosa e verso. Eles sequestraram milhares de frases, metáforas e sons que deveriam ser meus. 
Não há como escrever somente por vaidade. O orgulho é massacrado pela manhã, ao relermos aquele nosso texto que foi dormir príncipe e acordou sapo que beijo nenhum é capaz de encantar novamente. Ressaca que só sara com humildade e trabalho. 
Deixar legado do que vi no meu tempo, na esperança de renascer sempre que for lido, é uma ambição surreal. A garrafa com o meu pergaminho nunca será encontrada. São infinitas as cápsulas do tempo acumuladas na nuvem.
Por que escrever então, se a vaidade não sacia, a inveja maltrata e o registro se perde? Pergunta boa. 
O esforço para alterar a percepção do cotidiano, registrar ideias e ir lapidando o papel até encontrar a mais bela forma de contar a estória, provoca uma imersão no desconhecido. O texto é vivo, caminha pelas próprias pernas e nos ensina parte do que somos.  
Escrevo para mim. Essa é a minha resposta. Gosto de dirigir nessa estrada de mão dupla. O que sai revela o que está por dentro e justifica passar horas buscando palavras, versos e personagens. Eles falam de mim, mostram segredos, tratam angústias...podem até curar. 

                                  Moisés Lobo Furtado    (28/04/2020)