sábado, 8 de fevereiro de 2020

Mártir



Médico Li Wenliang foi infectado pelo coronavírus e morreu
Foto: Reprodução/Redes Sociais



 Li Wenliang, médico oftalmologista de 34 anos, no final de dezembro tentou alertar as autoridades sobre um vírus misterioso. Parece que a polícia chinesa não concordou em divulgar a notícia, retardando o diagnóstico, tratamento e prognóstico da epidemia que se desenvolveu. Há três dias Li Wenliang morreu, e até sua morte encontrou dificuldade para ser divulgada.
            E há quem peça a volta da ditadura.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Com o passar do tempo...


Homem pássaro

Uma vida a fotografar pássaros: gestos delicados em silêncio, passos lentos, fiapo de voz. Até que aprendeu a voar.


Mulher peixe

Não fazia outra coisa senão mergulhar. Com o passar do tempo, desaprendeu a falar. Apenas borbulhava. 


Gosto de sangue

Depois de longa vida como cirurgião, aposentou-se. Inconformado, comprou um açougue.

Fotos de Enio Machado

A foto do dia




Saíra-sete-cores, Enio Machado


Enio Machado é fã de pássaros e Fotografou 200 espécies da Mata Atlântica desde 2014, nas serras do Mar e da Mantiqueira (Folha de S. Paulo, 5.fev.2020). 
“Enio Machado, 53, prefere procurar pássaros sozinho, sem contar com guias. O jornalista precisou treinar o ouvido para reconhecer cantos e a paciência para conseguir uma boa foto. “Pássaros não param um segundo, se aproximar deles é muito difícil. Você fica em concentração absoluta”, conta.”



Morte de George Steiner




Escritor, crítico e filósofo francês George Steiner
Bertrand Guay - AFP


Três perguntas de George Steiner:

1.    Como é possível a um ser humano civilizado ler Goethe ou Rilke à noite e trabalhar em Auschwitz na manhã seguinte?

2.    Então a cultura não é uma força humanizadora, como acreditamos desde Platão? Finda a hegemonia da cultura livresca, com sua bagagem clássica, vem o quê?

3.    Toda linguagem é um pacto. O pacto antigo morreu, e poucos lamentaram isso porque era um pacto elitista, mas como negar a perda de substância humanística envolvida na operação de trocar a fruição de uma cultura clássica plena de sentido pelo faça-você-mesmo banal do culto ao homem comum?


Essas questões aparecem no artigo de Sérgio Rodrigues, Fiadores da civilização - Morte de George Steiner é um marco sutil mas revelador do nosso tempo, para a Folha de S. Paulo (6.fev.2020), no qual ele lamenta a morte do crítico literário e ensaísta George Steiner, aos 90 anos. Afirma Rodrigues:  “é um daqueles fatos que podem ser lidos como marcadores do “fim de uma era”.
            Escreveu Steiner: “Tecnocracias populistas e de massa caracterizam-se pelo semianalfabetismo”. “Prosperam em meio a uma crise de linguagem, após o fim de um modelo de compreensão do mundo em que “a fala instruída e a escrita eram os fiadores da civilização”.

            Tudo isso me parece muito atual.



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Datas e o Tempo


Gostava de História, mas já não se importava com as datas. Na velhice, para ele o Tempo perdera sua importância.

Moisés 4 por 4

O Louco por cachorros vai apresentando os microcontos do Moisés em conta-gotas, com muita honra. Mais 4:



Esperto ao contrário

Era tão sagaz, que não conseguia perceber o que realmente importava.



Visita boa

– Venha de UBER. Vai que anoitece.



Amém

– Senhor, que na próxima vez que eu olhe nesse espelho eu já não esteja pensando nisso. 



Deixa pra próxima

Procurou tanto o sentido da vida, que não viveu. 




                                                     Moisés Tito Lobo Furtado

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Claro-escuro de Leonardo


Clique para ampliar



São João Batista
(1508-1519)

simplicidade





a simplicidade linda 
do branco mais branco
na flor do jasmim



Foto: AVianna, jan 2020
iPhone 11 Pro Max

Meu pai fugiu com minha mãe


Meu pai fugiu com minha mãe
depois de a espreitar por dez anos.
– dez anos de inquietação dela
– dez anos de paciência e audácia dele.

Recados escritos com sangue
e sinais pela janela.
Ele no quartel
ela na casa do pai
contida.

Amava-se assim naquele tempo.
Fugia-se
e pensava-se que o amor seria eterno.


                  Affonso Romano de San’Anna
                  A vida é um escândalo, Ed. Rocco, 2017.

Filósofo Gilles Lipovetsky



O pensador e escritor francês Gilles Lipovetsky,
na sede do Instituto Cervantes em Paris. LÉA CRESPI


O filósofo Gilles Lipovetsky dá entrevista a El País (3 fev 2020): “Nem tudo pode ser discutível. O professor tem de recuperar a autoridade”. (Reportagem de Borja Hermoso.) Seleciono apenas dois ou três temas, que considero mais importantes, mas vale a pena ler toda a entrevista.

“R. Antes, as pessoas não queriam comprar o mais recente modelo de tablet ou smartphone o tempo todo, nem queriam sair de férias para todos os lugares possíveis, ou tomar um avião todo fim de semana, ou morar em um apartamento maravilhoso, ou ir a um restaurante dia sim e dia não... Simplesmente não se vivia assim. Fui a um restaurante pela primeira vez quando tinha 25 anos. Agora, crianças com oito anos vão com frequência ao McDonald's. Então, por um lado, temos uma sociedade na qual as desigualdades crescem sem parar, mas, por outro, temos um volume de aspirações que também não param. É, mais do que o bem-estar, o sonho do bem-estar. As marcas de luxo! Antes nem se pensava nisso. Hoje, qualquer pessoa em um bairro popular pode usar uma Nike de 125 euros. E todos os jovens sabem o que é Louis Vuitton, Hermès, Gucci... Só vivem para as marcas! Não querem sapatos, querem uma marca de sapatos.”

“R. É necessária uma economia liberal, porque é a única via possível para a iniciativa e a eficiência. Mas, ao mesmo tempo, é preciso ajudar as pessoas porque, do contrário, caminhamos para uma situação explosiva. A melhor solução é o que já fazem em certos países escandinavos, o que chamam de "flexisegurança". Uma economia flexível, em que as pessoas possam ser demitidas se for necessário, mas na qual existam ao mesmo tempo programas de treinamento e reciclagem de habilidades, e não um simples sistema de assistência social. Quando alguém é demitido, recebe os meios para se reciclar. Assim, pelo menos, não terá a sensação de que a sociedade o abandonou. E, em segundo lugar, é preciso investir em educação, em inteligência e em criação.”

“R. A escola pública não é uma despesa, é um investimento para o futuro. É preciso pagar bem aos professores e ensinar o aluno a respeitá-los. Não sou eu quem diz isso, hein. Platão já dizia. Se acreditamos que computadores e tablets resolverão todos os problemas, estamos em um erro grave. O professor é imprescindível. E é preciso formar os jovens de modo que sejam mais adaptáveis, com menos medo de mudar. Assim, haverá menos frustração. E muito importante: é preciso dar muito mais importância à arte e à cultura. Caso contrário, só nos restará o shopping!”

"R. Uma sociedade cujos eixos exclusivos são as telas, o trabalho e a proteção social é uma sociedade deprimente. É preciso investir em educação. E as possibilidades de investimento em assuntos educacionais são infinitas. Um dos maiores fracassos nas sociedades ocidentais do pós-guerra foi a "democratização da cultura". Pensou-se que, ao abrir muitos museus por muitas horas e com grandes obras, graças ao dinheiro do Estado, muita gente nova se juntaria às visitas, mas não foi assim. Quando se presta atenção, ao longo do tempo as pessoas que vão aos museus são as mesmas de sempre: gente de um certo nível educacional. Os camponeses e os operários da construção em geral vão pouco. É uma questão de educação.”

“P. O senhor escreveu contra o fato de que os pais eduquem seus filhos com luvas de pelica. O que queria dizer exatamente?” [Pergunta]
"R. É um erro imenso. É indispensável que o professor recupere a autoridade. Há alunos que insultam o professor, e isso é inadmissível. Educar não é seduzir. Há obrigações. Em um dado momento, é preciso obrigar a fazer coisas. Nem tudo pode ser flexível, agradável, discutível. É preciso trabalhar duro, e forçar a trabalhar. O homem é Homo faber, é preciso ensinar a fazer. E é preciso recuperar a retórica, ensinar as crianças a se expressarem e a raciocinar, porque o computador não vai fazer isso por eles. O homem é Homo loquens, o ser que fala.”