domingo, 16 de junho de 2019

a bondade de maria

Galeria de Família




embora maria tenha lavado minhas fraldas quando nasci, pois não as havia descartáveis na época, no mês de janeiro mais chuvoso de que se tem notícia até hoje na capital, a primeira lembrança que dela tenho data de nossa mudança para a casa vizinha à casa de meus avós no interior, e eu já era bem crescidinho, e maria era empregada de breno e cici desde sempre, salvo antes de maria chegar à casa de meus avós, e aí residia o mistério.
            maria era cozinheira e a cozinha o seu reino. lá ela mandava e desmandava, escolhia os ingredientes no mercado municipal, carnes, verduras, legumes, frutas, os mais variados temperos, incluindo a pimenta malagueta, a indispensável banha de porco que emprestava sabor característico às comidas, estipulava ela mesma o cardápio da semana, às quartas pastel de queijo, carne, palmito ou frango, a especialidade dela, embora não fossem menos apreciados o torresmo, o feijão mulatinho, o bife acebolado às segundas, o frango ao molho pardo às quintas, o arroz soltinho todo santo dia. manjar de coco com ameixas, a sobremesa preferida da avó. no verão, sorvete de abacaxi. 
            não havia quem desconhecesse a infinita bondade de maria. analfabeta, meio índia, quase sempre coberta de andrajos, porém boníssima. chaninho, o seu gato predileto, com tinturas de angorá; havia outros, inúmeros, apareciam e desapareciam com o passar dos dias, apenas chaninho permanecia, alimentado com carde de primeira, para desespero de cici. quando alguma gata da rua dava cria, maria pegava os filhotinhos, enfiava-os num saco com uma pedra, jogava da ponte na correnteza do ribeirão dos alves.
            – coitadinhos, não terão o que comer, alegava pesarosa.
            havia, porém, um mistério: não se falava uma palavra sobre o passado de maria. anos mais tarde ouvi o comentário de que ela era filha bastarda de um irmão de meu avô, que então tomou para si a guarda da menina.
     hoje sei, também sou filho de maria, que me ajudou nos meus primeiros dias de vida. sem dúvida, faz parte da família.

Bauman

Charge do dia



sábado, 15 de junho de 2019

Pimenta do reino



fotominimalismo



Começa a crescer o cacho de pimenta do reino. Lindeza!

Foto: AVianna, jun 2019, jardim.
iPhone 8S


Dora & Berta

Galeria de Família


 Dora, a mastim, e Berta, a rottweiler, moram eternamente em nossos corações. Saudade!

Palmeiras Campeão Mundial Sub-17





As categorias de base do Palmeiras seguem fortes. Neste sábado, o time alviverde derrotou o Leganés, da Espanha, por 2 a 1 e conquistou de forma invicta o Mundial Sub-17 pelo segundo ano consecutivo. Em 2018, o título veio depois de uma goleada por 4 a 2 em cima do Real Madrid na final.





quinta-feira, 13 de junho de 2019

Cãononizar-se, ou não?




bem faz o meu cachorro
que não é muçulmano nem cristão
atende pelo nome
e nem se importa em saber
porque resolvi chamá-lo de Hachid

o meu cão não tem ideologias
rosna, se não gosta
abana o rabo, se quer bem

bem faz o meu cachorro
que não é corintiano nem evangélico
eu, sim
que tenho essas manias
de sonhar com um mundo melhor
e ter impulsos igualitários

sou preocupado com as comodidades
da boa ração

meu cão nem existencialista é

eu que sou idiota
inventando esperanças e revoluções
crio céus e infernos
culpas e outras ignorâncias

se eu fosse mais racional
buscaria a cãononização




Oswhaldo Rosa
Poemas que latem ao coração
Ed. Nova Alexandria, 2009.

Fotoabstração N.59









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Greenlandic Winter



Trata-se do 2019 National Geographic Travel Photo Contest
            Eis a fotografia premiada na categoria Cidades. Pequena vila de pescadores em Greenland.
            Autor: Weimin Chu.




            Experiência emocionante vivida pelo fotógrafo!

Clique para ampliar!

Protesto

Moisés Lobo Furtado

Brasília, 22 de maio de 2018.

Exmo. Sr. Ministro da Educação e Cultura da República Federativa do Brasil,
Vimos, por meio desta, expressar a nossa total indignação contra o contínuo e velado ataque aos cidadãos de bem deste país. Estamos cansados de ser diariamente humilhados em reuniões familiares, igrejas, bares e, mais recentemente, nas redes sociais. Isso precisa acabar.
Sempre apoiamos a intensiva campanha que este governo tem feito nos últimos anos contra o “bullying” nas escolas. Reivindicamos agora um pouco de atenção para a nossa causa. Temos sido surpreendidos e desmoralizados a todo o momento com novas regras e modas nas formas de se conversar e de se escrever.
 Estudos recentes comprovam que a constante e rápida mudança no uso coloquial e ortográfico das palavras tem se tornado a maior causa de ansiedade e depressão em adultos. Pesquisadores chineses afirmam que esse pode ser o principal fator responsável pelo aumento do número de suicídios a partir da quinta década de vida em todo planeta.
Não nos referimos aqui aos inevitáveis dialetos profissionais dos médicos, advogados e mecânicos. Nossa queixa está no cotidiano. Um simples pedido de uma “média” na padaria da esquina se tornou uma atividade embaraçosa. Ninguém nos compreende. É “pão na chapa com pingado”ou nada feito.
Nossos pais, já se queixavam do desaparecimento dos saudosos  ensinos primário, ginasial e científico. Contudo, em muito menos tempo foram extintos os nossos “primeiro, segundo e terceiro graus”. Sem qualquer período de transição, nos impuseram os termos fundamental, médio e superior. Como se comunicar nas reuniões de pais e mestres, quando mal sabemos em que nível de escolaridade estão nossos próprios filhos?
Mesmo no esporte preferido mudaram todas as posições. Entraram volantes, alas e líberos. Graças a Deus ainda não mexeram nos zagueiros, mas como jogar sem pontas? Assistir futebol nos bares tornou-se um constrangimento. Quando gritamos que foi “corner”, somos praticamente fuzilados por olhares de reprovação de todos os jovens presentes.  “Escanteio, tio. Foi escanteio”. Melhor ficar em casa.
No JN, antigo Jornal Nacional, “risco de vida” agora é “risco de morte”, favelas são comunidades carentes, negros são afro-descendentes e a simples palavra homossexual não define mais coisa nenhuma. Nada contra o politicamente correto, porém o exagero é evidente. Esta cada vez mais difícil esconder que nascemos nos anos 1960. 
Isso sem falar nas esquizofrênicas mudanças de ortografia. Temos verdadeiras crises de pânico quando precisamos do hífen. O mandachuvadeve usar guarda-chuva, mas tem que tomar cuidado com o para-choque. Acentuar hiatos tornou-se um risco de vida e morte. A saúvacontinua a mesma, mas quem nasceu em Bocaiuvaestá achando nossa língua uma feiura. Todas as plateiassorriem de nossas ideias
Perdemos completamente o trema e a tranquilidade. Quase todos acentos diferenciais foram abolidos. Isso mesmo: quase todos. Ora, ou se acaba com tudo ou não. O “pára com isso” perdeu o acento e a força. Como pode se escrever “como pôde” e ser compreendido? Vossa excelência precisa pôrordem nisso urgentemente.
Somos estrangeiros em nosso próprio país. Caso nada seja feito, seremos a primeira geração de seres humanos que passará a segunda metade da vida tentando esquecer o que conseguiu aprender na primeira. Morreremos surdos, mudos e analfabetos.
Certos de poder contar com vosso apoio, desde já, agradecemos pela atenção dispensada.
 Atenciosamente,

        Associação dos Portadores de Mais de Cinquenta Anos – APMCA.


Observação: Moisés é médico oftalmologista, estudioso das coisas humanas, aprecia a literatura e gosta de escrever. 
          Tem frequentado oficinas de escrita em Brasília. Este Louco tem a honra de apresentá-lo, na expectativa que esteja sempre presente neste blog. 
          Seja bem-vindo, querido amigo Moisés!