segunda-feira, 1 de julho de 2019

Tradição e Ética



Foto: Paula Vianna


“Japão retoma caça comercial de baleias após mais de 30 anos”, é a manchete da reportagem assinada por Harumi Ozawa para a Folha de S.Paulo de hoje (1º.jul.2019).
“Nesta segunda, navios japoneses caçaram com arpão duas baleias em águas japonesas, inaugurando a retomada da caça comercial desse animal que estava interrompida há mais de três décadas.”
"É uma pequena indústria, mas estou orgulhoso da caça às baleias. A prática existe há mais de 400 anos na minha cidade", disse Yoshifumi Kai, presidente de uma associação de baleeiros, animado em voltar ao mar. "Acreditamos que as baleias são recursos marinhos como os peixes e que podem ser usadas de acordo com critérios científicos", explicou à AFP um funcionário do Ministério da Agricultura, Silvicultura e Pesca. "Determinamos cotas para não prejudicar as espécies", disse.
Alguns desejam preservar uma tradição, especialmente os idosos, que lembram que a baleia era sua única fonte importante de proteína no período pós-guerra. Para algumas cidades, “a caça à baleia representa uma razão de ser, se não econômica, pelo menos cultural e moral”.
Progressivamente o Japão está abandonando a caça às baleias em alto mar, não é uma interrupção completa, mas é um grande passo para o fim", afirmou  Patrick Ramage, diretor do programa de conservação marinha do Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (IFAW). A indústria baleeira, que conta com de 250 pescadores, "afundará rapidamente", prevê.
"Recebíamos [carne de baleia] na cantina quando eu era pequena, mas acho que não vou comê-la de novo. Acho que o Japão deveria tomar suas decisões levando em conta o resto do mundo, que diz que isso não está certo", declarou em Tóquio uma japonesa de 30 anos que pediu anonimato. 

Em uma notícia despretensiosa como esta, encontramos um grande embate de ideias: tradição centenária versus ética.
Interessante esta última informação: o Japão contra o mundo em defesa de uma tradição. (Parece que o mesmo se dá com relação às touradas em Espanha.) O argumento da tradição precisa ser levado em conta; são os costumes de um povo que estão em jogo, sua cultura, independentemente do dilema certo/errado.
No entanto, o que era ético há 400 anos, hoje pode não ser mais, e os povos têm o dever de rever costumes e tradições. É o que diz a japonesa anônima: hoje ela não come mais carne de baleia, levando em conta o que pensa o resto do mundo.
Quando o homem pode pensar, ele é capaz de mudar um costume de séculos. Se não pode pensar, costumes bárbaros, e outros não tão bárbaros como os rituais religiosos, precisam ser mantidos. 
De fato, não é fácil pensar.



Um comentário:

  1. Parece que há dados acima do bem e do mal, mas que nunca se desista da busca de uma ética no mundo.

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