terça-feira, 2 de outubro de 2018

Suzete joga conversa fora


Meu querido André,

preciso desabafar. Não aguento mais notícias de eleições, nos jornais, na tv, no rádio, no celular, a Internet invadindo nossa vida com fatos e fakes, atormentando nossos miolos, tirando o sono, causando pesadelos.
            (Antes de prosseguir com minhas queixas, preciso dizer que fiquei assustada com o modo instantâneo e definitivo com que a palavra fake entrou na língua portuguesa, passando para trás mentira e falso; melhor ficaria notícia falsa, mas não, fake tomou conta do pedaço e não há o que se possa fazer contra isso, ninguém controla a língua, não é mesmo?)
            O que mais me irrita é o Brasil parado, completamente imobilizado pela expectativa de alguma mudança que acho improvável. Ah!, podemos mudar para pior, isso sim.
            Ainda bem que trabalho não me falta, tirante os carecas, todos os homens cortam cabelo. Preciso estar atualizada, sempre na moda, pois cada dia me aparece alguém pedindo um corte mais extravagante que o outro. O mais em voga é o cabelo puxado para trás, com um coque no alto da cabeça, as laterais raspadas, coisa de jogador de futebol. Eles pedem, eu faço.
            Li duas crônicas no seu blog sobre cinema e quero falar sobre isso. Vi Paraiso perdido e adorei! Chorei até! Acho que é o melhor filme brasileiro que já assisti até hoje! Nunca vi tanta delicadeza, mesmo tratando de assuntos difíceis, num ambiente de risco, em meio a relações humanas intensas e conturbadas. E as músicas, meu Deus, que lindezas! Os atores não são cantores, mas interpretam as canções tão bem, que acabam cantando melhor que os próprios cantores. As cores são lindas, o guarda-roupa sensacional, fotografia de primeira. Filmaço!
            Agora, você me desculpe André, mas não concordo com o que escreveu sobre o Benzinho. Não achei nada óbvio. Que bobagem sua. Fiquei com muita pena daquela família, tantos filhos, o homem da casa um paspalhão, a mulher tendo que se virar dia e noite, todos entrando pela janela, ninguém para consertar o raio da porta, mas nunca perderam a ternura, e isso não é óbvio, André querido. Ainda bem que você reconhece o valor da atriz principal, a tal de Karina Teles, muito boa mesmo. Você sabia que os gêmeos do filme são filhos dela de verdade? O pior, continuam naquela mesma vidinha até hoje. Não é um alerta para a vida da gente? Pode ser. Tem gente que passa a vida toda entrando pela janela... (Gostei demais do comentário do Paulo, no blog, sobre o filme. Bem, Inês é morta, e você não pode acertar sempre. Não fique triste nem com ciúme do irmão poeta. Talvez você estivesse num mau dia quando viu o filme, acontece, liga não.) Filmaço!
            Você acredita que a palavra filmaço não consta do VOLP? Mas encontrei ela no Dicionário Informal, que muito aprecio porque dá bem a ideia de língua viva e mutante. Sabe André, cada vez gosto mais das palavras! Qualquer palavra, às vezes uma palavra besta como filmaço, fico pensando nela horas a fio, divagando, não há outra que seja tão expressiva. Foda-se que não conste do VOLP. (Outro dia vi na livraria um livro com o título Foda-se estampado em letras enormes na capa, e achei de mau gosto, porém o autor foi corajoso. Não comprei o livro.)
            Depois de desancar com sua crítica sobre Benzinho, preciso dizer que a coisa ainda pode piorar para o seu lado, André: nunca tive coragem para confessar, mas torço para o Corinthians. Mas devo admitir que o Palmeiras está melhor no momento.
            Nada pode nos separar, não é mesmo?
            Eram essas coisinhas sem importância, ninharias, que desejava escrever para você, pelo simples prazer de lidar com as palavras. Me responda logo, por favor.
Da sempre sua
                                    Suzete.

2 comentários:

  1. Agora a Suzete tem aqui um fã ainda mais incondicional. Acho que vou marcar uma hora no salão dela, pedir um corte bem complicado, daqueles que demoram muito, só para ficar conversando bastante. Chegando a casa, raspo tudo com máquina zero.
    Além de tudo, corinthiana! O mundo não está perdido!

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