quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Hábito da leitura



”Pense. Preste atenção na sua vida. Olhe bem para seus problemas. Observe a situação do país. Você acredita mesmo que a grande ameaça para o Brasil – e para você – são os pedófilos? Ou os museus? Quantos pedófilos você conhece? Quantos museus você visitou nos últimos anos para saber o que há lá dentro? Não reaja por reflexo. Reflexo até uma ameba, um indivíduo unicelular, tem. Exija um pouco mais de você. Pense, nem que seja escondido no banheiro.”

            Assim tem início o artigo da excelente jornalista e escritora  Eliane Brum para El País (31/10/17), com o título Como fabricar monstros para garantir o poder em 2018.
Abaixo do título, Brum resume o assunto: Enquanto o país é tomado por assaltantes do dinheiro público, parte dos brasileiros está ocupada caçando pedófilos em museus.”
            O que parece muito simples, a ponto de Eliane Brum quase que ingenuamente transformar em conselho, na realidade é bastante complexo. Pensar dá trabalho.
            O aparelho psíquico começa a funcionar a partir do nascimento (provavelmente até antes dele), e desenvolve-se ao longo da vida. É preciso aprender a pensar. São vários os elementos que fazem parte desse processo a que chamamos pensar, mas desejo destacar aqui apenas um deles (inspirado em conversa recente com meu irmão Paulo), o hábito da leitura.
            O hábito da leitura tem início na infância. Ou não: quando determinadas leituras tornam-se obrigatórias precocemente, quando o menino de dez anos é obrigado a ler Memórias póstumas de Braz Cubas, ou Cartas de Inglaterra, do Eça, e são incontáveis os exemplos de literatura capaz de afastar o pequeno leitor do gosto pelos livros, então o hábito da leitura é bruscamente interrompido ou nem mesmo tem início.
            Se a alfabetização não se processa – calamidade nacional –, incluindo aqui o analfabetismo funcional (talvez 50 % da população brasileira), o hábito não pode se desenvolver. Desnecessário enfatizar a importância da Educação, que esperamos, algum dia, torne-se prioridade nacional.
            Resta um bom número de pessoas, alfabetizadas, inteligentes, bem articuladas, de bom nível sócio-econômico, muitas com educação de nível superior, que lêem muito pouco ou não o fazem de todo. Quando muito, lêem 1 livro por ano; interrogadas sobre o nome do livro e do autor, engasgam-se, não se lembram, o que nos oferece boa ideia de quanto valorizam o ato de ler.
            O que se pretende ao se defender o hábito da leitura, de preferência iniciado na infância? Aquilo que Bion chamou de expansão psíquica. Para Bion, as experiências emocionais são responsáveis, basicamente, pela formação do aparelho mental capaz de pensar. A construção de um mundo interno coerente deve-se à capacidade de pensar.
            A leitura contribui enormemente para este processo, em particular a literatura de ficção, que facilita o sonhar e o pensar. Sonhar é a forma mais primitiva de pensar. Na infância, o brincar, que nada mais é que o exercício da fantasia, é essencial para o desenvolvimento psíquico. (Seria muito bom que as mães não interrompessem uma brincadeira com brusquidão, respeitando assim algo de muito sério, para a criança que brinca.)
            Eliane Brum, quando escreve “Pense. Preste atenção na sua vida. Olhe bem para seus problemas.”, poderia acrescentar: Leia, Leia muito.


O artigo de Eliane Brum segue em direção diversa a desta postagem e vale a pena ser lido:

           



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