segunda-feira, 26 de junho de 2017

Pensar e Fazer


“Se houver um único paciente para o qual a droga possa trazer benefícios, já é moralmente errado proibi-la.”
A frase é de Hélio Schwartsman, na crônica Cada macaco no seu galho, para a Folha de S.Paulo (24 jun 2017). O tema central era a controvérsia sobre a liberação de medicamentos emagrecedores, anteriormente banidos pela ANVISA.
Schwrtsman admite que os resultados do uso de tais drogas não são animadores, que há “elevado risco de efeitos adversos”, e que “é sempre perigoso utilizá-los”. Mesmo assim, afirma que “Se houver um único paciente para o qual a droga possa trazer benefícios, já é moralmente errado proibi-la”, repito.
Aqui, não estou interessado nos tais medicamentos, em sua proibição ou liberação. O que me interessa é como o grande pensador Hélio Schwartsman formula suas ideias, em que bases ele as erige, filósofo que é, apoiado no bom funcionamento de seu aparelho de pensar, a ponto de afirmar, categórico, que é moralmente errado proibir se houver um único paciente para o qual a droga possa trazer benefícios.
Como médico que fui, no exercício da Medicina, teria dificuldade em prescrever uma droga amparado no fato de que, moralmente, se beneficiasse um único paciente, e prejudicasse centenas ou milhares deles, esta droga deveria ser utilizada. Há casos de morte registrados com o uso de tais drogas. Seria então lícito dizer, segundo a lógica de Schwartsman, que bastasse a morte de uma pessoa para que tais medicamentos fossem proscritos?
Tenho profunda admiração por Hélio Schwartsman, sou leitor assíduo das crônicas dele, reconheço nele uma capacidade de pensar extraordinária, quase sempre de modo consequencialista. Será então que, em certas situações, surge uma dicotomia entre a filosofia e a prática, entre o modo de pensar e o modo de fazer? Gostaria muito de saber o Schwartsman acha disso.
            Por ora, vamos pensar sobre isso.






2 comentários:

  1. Acho que o Hélio, se bem o entendo, vai dizer que, em vez de proibir, deve-se informar exaustivamente sobre os riscos e deixar que o possível usuário escolha se deseja ou não correr o risco. É o culto da liberdade. No entanto, existe a questão de um leigo não conseguir avaliar corretamente os riscos, mesmo bem informado. E existe também a questão ética de o médico não concordar em prescrever o medicamento perigoso. Situação complicada...

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    1. Não é novidade a proibição de drogas, por variadas razões, em todo o mundo.

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