quarta-feira, 13 de julho de 2016

O grande dia




Hoje, o grande dia! Dia de festa. Dia de casamento.
Viemos de longe, viagem cansativa, quase uma aventura, em nome da celebração de uma vida.
            Acordo animado. Após o banho revigorante, dirijo-me para o belo salão do café-da-manhã, localizado numa casa de fazenda muito bem preservada, decorada com esmero e estilo.
            Ao entrar no salão, à direita, uma imagem belíssima. Grande janela, contendo no parapeito alguns vasos de flores. A begônia vermelha chama minha atenção, vista na contraluz.
            Antes mesmo de sentar-me à mesa para o generoso café, tomo da máquina fotográfica e dirijo-me à janela. Começo a fotografar, busco o melhor ângulo, experimento o flash para quebrar a contraluz, quero incorporar na foto o fundo com árvores frondosas, teremos uma bela foto, penso, e, de repente, piso em falso, perco o chão...
Despenco numa escada escura que me passou despercebida, rolo por vários metros, até perder a consciência. Acordo num leito de hospital, três dias depois da queda, completamente imobilizado, com inúmeras fraturas, completamente desorientado. Custo a relembrar o ocorrido, encontro na memória apenas um vaso de flores vermelhas, mais nada. Pergunto sobre o casamento e sou informado de que, de fato, aconteceu; fico imaginando em que clima de desolação. Permaneço internado, semanas após o acidente.
Antes mesmo de sentar-me à mesa para o generoso café, tomo da máquina fotográfica e dirijo-me à janela. Começo a fotografar, busco o melhor ângulo, experimento o flash para quebrar a contraluz, quero incorporar na foto o fundo com árvores frondosas, teremos uma bela foto, penso, e, de repente, piso em falso, perco o chão...
            Despenco numa escada escura que me passou despercebida, rolo por vários metros, mas não chego a perder a consciência. Não consigo me mover, a dor é insuportável. De imediato, percebo o braço esquerdo fraturado, e ao tentar mover a perna direita, vejo o pé desviado para fora: fratura de fêmur. Em pouco tempo que me parece a eternidade chega a ambulância. Sou imobilizado pelos profissionais e levado ao hospital. Para mim, nada de casamento. Nunca mais soube da minha máquina fotográfica.
Antes mesmo de sentar-me à mesa para o generoso café, tomo da máquina fotográfica e dirijo-me à janela. Começo a fotografar, busco o melhor ângulo, experimento o flash para quebrar a contraluz, quero incorporar na foto o fundo com árvores frondosas, teremos uma bela foto, penso, e, de repente, piso em falso, perco o chão...
Despenco numa escada escura que me passou despercebida, rolo por vários metros, mas não chego a perder a consciência. O corpo todo dói, mas parece não haver nada de grave comigo. Levanto-me com ajuda de um garçom, subo a escada com certa dificuldade, sento-me para o café da manhã. A máquina fotográfica seriamente danificada.
Antes mesmo de sentar-me à mesa para o generoso café, tomo da máquina fotográfica e dirijo-me à janela. Começo a fotografar, busco o melhor ângulo, experimento o flash para quebrar a contraluz, quero incorporar na foto o fundo com árvores frondosas, teremos uma bela foto, penso, e, de repente, piso em falso, perco o chão...
Desço a escada escura de costas, desajeitadamente, os olhos esbugalhados, na mão direita a preciosa máquina fotográfica, último modelo, a mão esquerda no ar buscando inutilmente algo em que me agarrar, desço quatro degraus, de costas, de uma escada escura que me passou despercebida, mas não chego a cair. Foi só um susto. Tomo o meu café e me preparo para o grande dia.
Fico pensando no que poderia ter sido e não foi. A Roda da Fortuna  - diria Shakespeare - girou a meu favor no Grande Dia.


3 comentários:

  1. Após aventar-se todas essas possibilidades tão piores que a que ocorreu de fato, fico até feliz com o evento. Acho que entendi o ditado "tudo é relativo".

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  2. Nubentes é boa!!! Só o tio Paulo mesmo....!!!

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