segunda-feira, 28 de março de 2016

Mundo cão



             Mais um ótimo filme brasileiro em cartaz! O título, Mundo cão, poderá espantar os mais delicados, e de fato trata de sofrimento doméstico cotidiano, vingança, sequestro, morte, violência, enfim. Mas trata também de sentimentos e relações humanas, num tom de realismo impressionante, sob a direção de Marcos Jorge, o mesmo diretor do excelente Estômago.    
            Como não poderia deixar de ser, o filme despertou nesse blogueiro particular interesse ao tratar dos sentimentos ambivalentes do protagonista (Lázaro Ramos, cuja interpretação vale o filme!), um marginal cruel que adora seus cães, lindos e ferozes dobermanns e rottweilers, e odeia humanos, sobre os quais solta suas feras para extorquir dinheiro.
            Gosto de dizer e escrever aqui que o cão humaniza o homem, humaniza a família. No filme parece que isso não ocorre: é a exceção que confirma a regra. Porém, em vários momentos, podemos notar traços de humanidade e consideração pelo próximo por parte do vilão, especialmente quando demonstra alguma identificação pelo menino que, como ele, também torce pelo Palmeiras. (Para onde foi parar sua capacidade de amar o outro, isso o filme não esclarece. Trata-se apenas de um marginal.)
            O roteiro de Mundo cão é excepcional, ágil, uma surpresa a cada reviravolta da história, capaz de prender a atenção do expectador até a (incrível) última cena. A interpretação de Adriana Esteves também é digna de nota, mulher e mãe casada com um negro (Babu Santana), o que não é comum em nosso cinema. Ela é evangélica e confecciona calcinhas para vender (há bastante humor em Mundo cão).
            A participação de uma menina surdo-muda (Thainá Duarte) na história é outro elemento que surpreende e é fundamental para o inesperado desfecho.
            Há violência no filme, tanto quanto na vida real, ou não viveríamos num mundo cão. (A horda de refugiados que cruza e morre no Mediterrâneo todos os dias que o diga.) Mas há também a luta entre sentimentos contraditórios que habitam o ser humano, como na vida real.
            O futuro expectador preste atenção na expressão facial de Lázaro Ramos, bem no final do filme, quando seu destino será selado, e a câmara dá um close em seu rosto: poucas vezes se viu expressão igual!
            Um ótimo filme, repito!
           

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