terça-feira, 7 de abril de 2015

Considerações sobre a Sala de Aula


Para possível discussão
entre estudantes e professores
de Medicina.


É possível que há 70 mil anos, com a chamada Revolução Cognitiva (Harari, 2012) e com o surgimento da linguagem ficcional, o Homo sapiens tenha se utilizado de uma caverna como sala de aula. A luz vinha de uma pequena fogueira. O quadro-negro: as paredes da caverna. O giz: carvão e tintas de plantas da região.  Temas das aulas: as caçadas, como proteger-se das intempéries, onde encontrar frutas e plantas comestíveis, enfim, como sobreviver. Talvez uma ou outra aula sobre a importância da arte, como atestam as pinturas rupestres.
            Difícil afirmar se havia um único professor, e os demais frequentadores da caverna eram todos alunos. Talvez todos fossem as duas coisas, na tentativa de compartilhar experiências. Mas não é impossível que algum indivíduo se sobressaísse, assumisse a liderança do grupo, que fizesse o papel de professor, ou pela experiência e sabedoria acumuladas, ou pela “oratória”, capacidade de convencimento, simples esperteza. Não sabemos, mas podemos supor que a sala de aula seja tão antiga quanto o desenvolvimento da linguagem oral pelo ser humano.
            Com o passar dos milênios, surgiram o laptop, o celular, o tablet, e a sala de aula nunca mais foi a mesma!
            A função do professor perdeu muito do sentido original. Ele já não pode ser aquele que transmite conhecimento, pois este encontra-se disponível em maior volume e melhor qualidade na Internet. A tal ponto isso parece verdade que o professor, nos dias de hoje, pode ser perfeitamente dispensável. Ou talvez possamos destinar-lhe novas funções. Talvez possa ser chamado, doravante, de Orientador, em vez de professor. A seguir esta linha de pensamento, chegaremos facilmente à extinção da sala de aula.
            A menos que também possamos dar outra destinação a sala de aula, diferente da que vem sendo utilizada nos últimos milênios. A primeira providência seria mudar-lhe o nome para Ponto de Encontro. E este encontro jamais deveria ser obrigatório (abolida, portanto, a lista de presença); ao contrário, lá estariam pessoas que tivessem o genuíno desejo de se encontrarem para, como nas cavernas, trocar experiências. Afinal, o Homo sapiens encontra-se ainda em franco processo de evolução, e a troca de experiências permanece como método eficaz de aprendizado.
            No Ponto de Encontro, o Orientador talvez pudesse propor os temas para discussão, tendo em vista prévios debates entre seus pares, com o objetivo de estabelecer um currículo mínimo. Nada tão rígido que não pudesse ser modificado por sugestão dos estudantes, também fruto de discussões prévias entre eles.
            Como se trata de encontro, as pessoas devem ser os protagonistas. A presença de um “quadro-negro” sofisticado, com acesso instantâneo a Internet pode ajudar. Tablets e celulares acionados em tempo oportuno, de acordo com a necessidade do grupo (e não em consequência de divagações pessoais alheias ao que está em debate), prontos para sanar duvidas ou adicionar informação, são bem-vindos. O Orientador precisa estar acostumado a estas novas práticas, como por exemplo, ser contestado por alguma evidência apontada pelo estudante. Porém, não se deve perder o foco do Ponto de Encontro: as pessoas. E o foco principal jamais será a oferta ou transmissão de conhecimento.
            Como bom exemplo de encontros, relato minha experiência pessoal com seminários sobre o tema Paciente Terminal, realizados ao longo de mais de 30 anos, com estudantes de Medicina situados na fase intermediária do curso e no Internato.  Os seminários tinham 2 horas de duração. Na primeira hora, os estudantes apresentavam suas dúvidas, angústias, temores; o orientador apenas organizava a discussão, garantia a palavra de alguém com opinião polêmica, colocava alguma ordem no grupo. Na hora subsequente ele destacava os pontos relevantes discutidos até então, apresentava pontos de vista próprios, baseados em experiências pessoais, nunca imponto conceitos ou proferindo a última palavra.
            Esta última afirmação é tão verdadeira que, minha opinião era sempre vencida no seguinte ponto, pela esmagadora maioria dos grupos. Diante da pergunta formulada pelo paciente, Doutor, quanto tempo tenho de vida?, os alunos afirmavam, quase que invariavelmente, que a resposta deveria ser baseada na média estabelecida pela literatura; ao passo que, em meu ponto de vista, a resposta deveria ser Não sei. (O tema já foi tratado com maior detalhe neste blog: http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2013/07/10-doutor-quanto-tempo-tenho-de-vida.html .)
            Ao final do encontro, restava claro para todos nós que o importante não era uma conclusão definitiva, uma verdade única, e sim que o assunto fosse pensado e discutido por cada um dos participantes. Todos aprendíamos muito.
            Este é um exemplo de troca de experiências bem sucedida. Nunca houve necessidade de utilização de alta tecnologia em tais encontros. O fator humano sempre preponderou. Findos os encontros, aqueles que o desejassem, ou se sentissem motivados, tinham todo o tempo do mundo para acionar seus computadores em busca de mais informações sobre o tema.
            Portanto, penso que ainda há espaço para a Sala de Aula, ou Ponto de Encontro, em nossas universidades, bem como para a utilização da nova tecnologia disponível, desde que o fator humano seja priorizado.

2 comentários:

  1. O texto nos leva a bastante reflexão. Para mim serviu também para ler o texto anterior: Doutor, quanto tempo tenho de vida?, do qual achei especialmente interessante o seguinte trecho - "A ameaça de morte provoca reações emocionais intensas e primitivas, e não podemos esperar que ele possa pensar de forma racional, como o médico pensa ao falar em médias".

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