terça-feira, 18 de junho de 2013

Ver, rever, ver novamente...


Certa vez ouvi de uma pessoa que ela não estava interessada na exposição sobre os Impressionistas que ocorria em São Paulo porque já os tinha visto no Museu D`Orsay, em Paris. Que pena, pensei.
            Em se tratando de arte, penso que é preciso ver, rever, ver novamente, ver sempre. E por inúmeros e variados motivos. Primeiro, porque a visão do belo sempre nos emociona, nos é prazerosa, mobiliza em nós o que temos de mais sensível, e esta sensibilidade requer permanente afinação, como um violino. Às vezes, após um primeiro movimento muito estridente de uma sinfonia ou concerto, no entreato para o movimento seguinte, o maestro aguarda que os violinistas reajustem a afinação de seus instrumentos.
            Penso que a analogia é útil em se tratando de uma escultura, uma pintura, uma obra de arte qualquer, que possibilitem a afinação de nosso “aparelho de pensar” (a expressão é de W. R. Bion) e sentir.
            Acrescente-se a isso o fato de que já não somos os mesmos quando voltamos a um determinado museu, são outros olhos que agora veem. Para ser mais preciso, os olhos podem ser os mesmos ou até terem piorado, efeito inexorável da idade do viajante, porém quem de fato vê é o cérebro. Ou a alma, dirão os poetas.
Fenômeno semelhante ocorre com a música e a literatura. Há certas músicas que necessitam mesmo de múltiplas audições para que sejam mais bem compreendidas e apreciadas, e quanto mais as ouvimos, mais gostamos delas. Atrevo-me a incluir nesse grupo os últimos quartetos para cordas e sonatas para piano de Beethoven.
A segunda ou terceira leitura de um mesmo livro têm sabor bem diferente da primeira. Alguns livros parece que foram escritos para serem lidos e relidos durante nossa vida inteira. Admito as preferências individuais, mas não posso deixar de citar o Hamlet, de Shakespeare, ao qual Harold Bloom chamou de “poema ilimitado”. À cada leitura corresponde um novo livro e um novo leitor.
O viajante que visita São Paulo com frequência pode desfrutar do privilégio de ver, rever, ver novamente, ver sempre o acervo da Pinacoteca do Estado. O Louco por cachorros já fez referência a este grande museu em diversas situações, aqui listadas:


Em nossa última estada na Pionacoteca revisitamos o magnífico quadro de Paul Michel Dupuy (1869-1949), pintor francês impressionista, a Praia de Biarritz, aqui mostrada em detalhes.
Além disso, rever Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Antonio Parreiras, Eliseu Visconti, Almeida Júnior, e tantos outros, é sempre uma grande alegria.






Fotos: Mercêdes e A.Vianna, São Paulo, 2013.

2 comentários:

  1. O que vem a ser um "clássico": é o que nunca termina de dizer o que tem a dizer. É o caso. Ótimo alerta, André!

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    1. Ótimo seu comentário, Paulo! É preciso voltar sempre aos clássicos! Ouvir Beethoven, ouvir, ouvir...

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