domingo, 14 de fevereiro de 2021

Função do esquecimento


“Os cientistas cognitivos Steven Sloman e Philip Fernbach sustentam que nossos cérebros foram projetados para não guardar detalhes justamente para maximizar a capacidade de fazer generalizações.”

 

O trecho acima está na crônica de ontem (12 fev 2021) de Hélio Schwartsman: O esquecimento como virtude, para a Folha de S. Paulo. 

O ponto de partida para o tema foi a recente decisão do STF em não reconhecer o direito ao esquecimento. Ainda bem que foi assim. Porém, alerta o articulista: “Daí não decorre que o esquecimento não seja, tanto quanto a memória, um ingrediente importante para o bom funcionamento da sociedade e do próprio cérebro humano. A razão pela qual humanos não temos uma memória perfeita não é de bioengenharia. Existe uma síndrome rara, a hipertimesia, que faz com que seus portadores se lembrem de praticamente tudo — algo próximo ao que Jorge Luis Borges descreveu no conto "Funes, o Memorioso".”

            O mais interessante dessa história, e que destaco aqui como epígrafe, é a descoberta de que é preciso haver espaço no cérebro para as abstrações; inundado por fatos, resta ao cérebro apenas lidar com eles, perdendo a capacidade de construir generalizações. Isso me parece uma grande novidade. Costumamos dizer: é preciso haver tempo para pensar. Agora acrescentamos: é preciso haver espaço para pensar.

            (Conheci de perto uma pessoa que exibia memória espantosa. Guardava as placas de carros que via no estacionamento de onde trabalhávamos; cpfs para ele eram fichinha; os registros de prontuários milagrosamente guardados. Ao longo do tempo essa característica se agravou de tal modo que, quando não havia fatos para memorizar, ele os inventava, e a partir de então os tomava por verdade; surgiu daí um mitômano.)

            Schwartsman conclui de modo brilhante: “A vida social também depende de esquecimentos, que às vezes chamamos de perdão.” Sob tal perspectiva, a palavra perdão aparece despida de qualquer conotação religiosa, significando tão somente uma certa função cerebral, a de oferecer espaço para o bom convívio social. 

            Em tempo, é preciso reconhecer a importância da ficção. Borges antecipou isso tudo no espantoso conto citado por Schwartsman! O final de Funes, o memorioso, foi trágico!

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2021/02/o-esquecimento-como-virtude.shtml

 

 

 

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Relatos do mundo

 

 

Com o estranho  título Relatos do mundo, a sugerir algo mais sofisticado, a Netflix tenta ressuscitar o velho e agonizante western, espécie de gênero que parece desafiar tantos diretores de cinema.

            O argumento baseia-se em Rastros de ódio, do grande John Ford. Relatos contém todos os detalhes que se repetem invariavelmente em cada filme de mocinho: um homem bom em luta permanente contra a humanidade má, os revólveres antigos tipo colt, espingardas enormes, cavalos, carroça, a roda da carroça que se quebra, caminhadas debaixo do sol escaldante de um deserto infinito, a sede mortal e a água do cantil que acaba. É a deliciosa repetição desses detalhes que fazem o western sobreviver.

            O filme dirigido por Paul Greengrass tem tudo isso de forma bem dosada, nada de grandes arroubos, o ritmo lento acompanhado de uma fotografia espetacular. (O espectador não pode exigir muito não. Tem que gostar e pronto.)

            Há algo extraordinário no filme, o ótimo desempenho de Tom Hanks, cuja versatilidade possibilita a encarnação de um mocinho diferente, ético acima de tudo, cujo papel empresta título ao filme. Acompanha-o na história uma menina muito branca e demasiadamente loura (Helena Zengel), perdida no mundo, completamente desamparada, à mercê dos homens maus, com atuação brilhante. Quando a munição da espingarda de caça acaba, é ela que surge com solução originalíssima!

            Em tempos em que os machões estão em baixa, Hanks é o oposto de John Wayne, quase um intelectual, mas que também sabe lutar e matar os bandidos.

            Senti falta de uma boa trilha sonora, elemento fundamental nesse tipo de filme.

            Com todas as limitações, para quem aprecia o gênero e sabe ser generoso, vale a pena assistir Relatos do mundo

            

 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Melhor legenda

 

 Presidente Jair Bolsonaro arrisca corrida

em pista de atletismo em Cascavel (PR)

Foto: Isac Nóbrega/Presidência da República

 

 

Este blog mostrou ontem a fotografia do presidente de república (sempre com minúsculas) correndo aparentemente de forma alucinada em uma pista de atletismo; o marcador da postagem foi Política Sem Palavras.

            Em seguida fui surpreendido pela notícia de que a Folha de S. Paulo havia desafiado seus leitores para que colocassem legenda na alucinada foto.

Eis o ranking das melhores legendas:

 

1. Leite condensado te dá asas! 

Ronan Wielewski Botelho, 35, filósofo, Londrina (PR)

 

2. Campeão dos sem nexos rasos. 

Julião Villas, 43, artista, Nova Lima (MG) 

 

3. Bolsonaro inaugura nova modalidade no atletismo, os 230 mil mortos sem barreiras. 

Marcelo Vieira Fernandes, 43, professor, São Paulo (SP)

 

4. Corre que a vacina vem aí! 

Edson de Oliveira, 46, cozinheiro e empresário, Passo Fundo (RS)

 

            Eu poderia acrescentar:

 

# Mãêêê!!!!

 

            São todas legendas engraçadas, de fato. Ainda prefiro minha postagem inicial: Sem Palavras.

Enquanto muitos da plateia riem, o que vemos é um homem ensandecido; sua expressão facial me sugere misto de desespero, euforia, sofrimento, talvez dor pelo esforço físico, a busca infindável por aprovação, medo de que isso não ocorra, e tantos outros sentimentos que não consigo imaginar. É um retrato da Loucura, onde prevalece o narcisismo patológico.

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/paineldoleitor/2021/02/que-legenda-voce-daria-para-essa-foto-de-bolsonaro-correndo.shtml

 

 

Que imagem!

A foto do dia


Ontem, dia de seu aniversário, minha filha Paula anunciou, Vou me dar um presente, vou mergulhar e fotografar cavalos-marinhos! Eis o resultado!




Em Búzios! 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Focos de civilização

Ao meu amigo Sergio Pripas

 

“As condições são muito difíceis. Elas exigem que a gente não se conforme com elas. Nos campos de concentração, Walter Benjamin criava clubes de leitura, de debates. Ele criou um foco de civilização no meio da barbárie. Acho que somos capazes disso. As condições são muito graves e, por isso, elas exigem muito. É hora de começar a inventar. Nós vamos ter que dar o melhor de nós”.

 

As palavras acima são da psicanalista Maria Rita Kehl para o site Tutaméia.

A ideia de criar “focos de civilização” para enfrentar a miséria que vivemos em nosso país me parece essencial. Alguns pensam (sonham) que a humanidade pode estar melhorando ao ser açoitada pela peste; não há evidências de que isso esteja ocorrendo, ao contrário, a violência e o egoísmo prosperam, em um frenético salve-se quem puder. Os espertinhos furam fila de vacinação.

Kehl cita Walter Benjamin, o que é muito apropriado. Penso imediatamente em Olivier Messiaen. Quando a França entrou na Segunda Guerra Mundial, Messiaen foi convocado a servir, e logo capturado pelos alemães; levado ao campo de concentração Stalag VIII A de Görlitz, lá sobreviveu por um ano. Nas condições mais adversas, Messiaen conheceu três outros músicos no campo, um violoncelista, um violinista e um clarinetista, todos manejando precários instrumentos. Com o acréscimo do piano tocado pelo próprio Messiaen, ele compôs o Quatuor pour la fin du temps. A peça foi tocada no próprio campo, na presença de oficiais nazistas e prisioneiros, no dia 15 de janeiro de 1941, sob pesada neve.  Os músicos que participaram da estréia foram Henri Akoka (clarinete), Jean le Boulaire (violino) e Étienne Pasquier (violoncelo). Abaixo, o convite impresso para o concerto, com o carimbo oficial do Campo.

 


 


Olivier Messiaen (1908-1992)

 

            Agora aprendo com Kehl traduzir em palavras fenômeno tão complexo ocorrido em um campo de morte, improvável, quase impossível, e por isso mesmo magnífico: “foco de civilização no meio da barbárie”. 

            Em seguida me veem à mente os atuais concertos da Osesp na Sala São Paulo, os músicos separados por chapas de acrílico, os que podem, incluindo o maestro, usando máscaras, o número reduzido de participantes para evitar aglomeração, oferecendo concertos gratuitos pela Internet, muitas vezes sem a presença de uma plateia. Isso é criar foco de civilização.

            Meu amigo Sergio, a quem dedico este texto, participa de um clube de leitura em São Carlos – SP, em atividade ininterrupta há mais de 25 anos. Outro foco de civilização.

            Acredito que o idealismo e o desejo de difundir a língua pelos esperantistas, dentre os quais meu irmão Paulo, que desempenha papel de destaque nacional e internacional, estejam criando foco de civilização pelo mundo afora. O Esperanto é falado em todos os continentes.

            As chamadas lives oferecidas por instrumentistas e cantores da música popular brasileira são manifestações de resistência contra aqueles que desejam diminuir a importância da arte, e portanto focos de civilização.

            Meu amigo Moisés, artista nato da palavra, ao decidir tirar seus textos da gaveta e torná-los públicos no blog (https://moisestitolf.blogspot.com), para alegria da multidão de fãs que ele carrega vida-a-fora, tratando de filosofia, literatura, poesia, e da vida como ela é, cria mesmo sem saber um foco de civilização.

            Os exemplos são inumeráveis, uns de maior projeção, outros menos, e atenuam de certa forma o estado de barbárie instituído pelo atual governo e seus fanáticos seguidores. Os focos de civilização não precisam de armas de fogo; utilizam-se da palavra, das artes, do livre pensar, do desejo do conhecimento e da informação. 

A civilização haverá de prosperar sempre.               

 

 

https://tutameia.jor.br/e-preciso-criar-focos-de-civilizacao-em-meio-a-barbarie-diz-maria-rita/?fbclid=IwAR3nBH1Ccgo-_C0g3BHL-br4pKce4XSJPuNYpo3w_dyzkC5BuMGBEAhVgDM

 

 

Stonehenge sob a neve

A foto do dia 



Stonehenge sob a neve


Poucas vezes me emocionei tanto em minha vida, e de forma aparentemente inexplicável, quando nosso velho Ford Fiesta iniciou a descida de uma elevação e pudemos avistar de longe o monumento de Stonehenge. Passados 35 anos daquela experiência, a emoção perdura. A impressão talvez fosse de que estávamos revivendo a pré-história da humanidade.

Fundamentalismo

Charge do dia 


Leandro Assis e Triscila Oliveira

para a Folha de S. Paulo