terça-feira, 20 de outubro de 2020

Artesania

 

Era moça bondosa. 

Por isso se admirou muito quando ficou sabendo 

                               [que havia a palavra artesania. 

Falou artesania, em voz alta.
Ouviu então uma profusão de violinos. 

Ouviu o sereno da noite,
seu próprio medo de não existir,
o gosto de um fruto exótico,
a sede,
a fome,
a deselegância dos cotovelos,
as euforias da primavera.
Ouviu a própria ovulação, no âmago,
a cor dos olhos,
bem como as tentações de cada entardecer, 

os desejos, os desejos.

Gostou tanto que botou nome na sua

                                           [gatinha: Artesania. 

A gatinha apreciou deveras e passou 

                                           [a miar poesia. 



                                 Paulo Sergio Viana

                                 In Esmo, 2020

 

Muita neve em Forest Hill

Galeria de Família 


Ciça e Paula

no pequeno jardim (?) em frente a nossa casa

em Londres, Forest Hill, 1986 (?)

Onde estará o André?

Galeria de Família 


Fotografia onde aparecem apenas os acadêmicos homens

em algum momento do curdo de Medicina

na UERJ, antiga UEG, anos 60

A visita

Meus quadros favoritos 

 

Silvestro Lega (1826-1895)


Galeria Nacional de Arte Moderna, Roma

Pertencente ao grupo Macchiaioli

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Floresta escura


 

Em certa manhã de primavera, ao despertar, olho pela janela de meu quarto e vejo tenebrosa floresta escura em meio a qual estou completamente perdido, só triste abandonado desprotegido vulnerável fraco indefeso incapaz de enfrentar os perigos e ameaças que a floresta esconde. Caminho caminho caminho, me ferem espinhos capins-lâminas cortantes aranhas cobras pestilências e terror, e não consigo encontrar o caminho de volta. Que caminho será esse? Voltar para onde? Para quem?

De repente uma orquestra invisível começa a tocar o concerto n.1 para piano de Shostakovich, o que faz multiplicar minha angústia, me atordoa, me confunde ainda mais. Tapo os ouvidos com minhas mãos espalmadas. A orquestra toca mais  alto. Onde estou? 

Acordo em sobressalto. Tudo eram restos de um sonho que  ainda não havia terminado, e a floresta é apenas o belo quintal de minha casa, visto pela janela de meu quarto, em um amanhecer de primavera.  




sábado, 17 de outubro de 2020

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Peso da palavra

 

Há poucos dias assistia um bom jornal de conhecido canal de tevê quando uma das comentadoras utilizou-se da palavra “denegrir”, e usou adequadamente, bem inserida no contexto em questão, que por sinal não se referia de modo algum a problemas raciais. Veio o intervalo, se não me engano, ou o comentário de outro jornalista, fato é que a primeira comentadora pediu a palavra e disse, muito constrangida, aproximadamente o seguinte:

         “– Acabo de receber aqui pelo ponto [o microfone inserido na orelha] a informação que utilizei a palavra denegrir. Foi um lapso [ou coisa parecida], erro meu, peço desculpas, às vezes a gente erra mesmo.”

         O mediador ou âncora do jornal ainda deu força à comentadora, “É isso mesmo, todo mundo de vez em quando erra”. Seguiram-se outras notícias, não se falou mais no assunto.

Desde então continuo matutando: estão quer dizer que a palavra denegrir está proscrita de nosso vocabulário! Proibidíssima!

Vejamos o que registra o Caldas Aulete Digital:

 

Denegrir:

1. Fig. Manchar ou infamar (a honra [de]); tornar (algo ou alguém) desacreditado; CONSPURCAR: Invejoso, vive a tentar denegrir o caráter do bom homem: "Revoltava-me ler o que dele se dizia, na ânsia de denegri-lo, a despeito de tudo quanto havia realizado." (Josué Montello, Sempre serás lembrada).

2. Fazer(-se) negro ou escuro: A poluição denigre as paredes: Com o tempo denigrem-se as pinturas.

[F.: de- + rad. pop. negr - (< negro) + -ir. Tb. denigrir (f. erudita).]

 

Vamos à etimologia: 

 

"Denegrir" vem do latim "denigrare", que por sua vez vem da junção das palavras "de" e "niger", significando "mais" e "negro". O significado original de "denegrir", portanto, seria "tornar escuro" ou "manchar". Por associação temos também, hoje, a significação "difamar". 

 

         É aí que as coisas começam a complicar: o sentido figurado de “difamar”, porque vem do escuro, do negro, gera a conclusão óbvia, porém “errada”, que denegrir significa difamar o negro, as pessoas de raça negra.

         A frase “denegrir significa difamar o negro” traduz uma ideia. Mas as palavras não encerram ideias, mas sim, significados, às vezes múltiplos. Para que uma palavra exprima uma ideia é preciso analisá-la dentro do contexto em que está sendo empregada. Considerar a palavra apenas por sua etimologia, fora de qualquer contexto, isso sim, gera preconceito. O dicionário registra: denegrir = fazer (-se) negro ou escuro. Apenas isso. Não há qualquer ideia nessa simples palavra.

O ramo da Linguística que estuda como as palavras se comportam dentro de um contexto é denominado Pragmática. “A Pragmática estuda a linguagem no contexto de seu uso na comunicação. A pragmática está além da construção da frase, objeto da sintaxe, ou do seu significado, objeto da semântica. A pragmática estuda essencialmente os objetivos da comunicação.” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Pragmática)

 

         Ora, se a jornalista utilizou “denegrir” dentro de um contexto adequado, sem qualquer ligação com ideias racistas, não há por que pedir desculpas. Talvez ela deva pedir desculpas à Língua Portuguesa.

         Reconheço, entretanto, que eventual leitor desse meu texto possa viralizar o denegrimento de minha pessoa, só porque amo as palavras.