quinta-feira, 5 de março de 2020

Homenagem a Hanna






A cadela Hanna foi homenageada na última terça-feira (4 mar 2020), após 8 anos de serviços prestados ao Corpo de Bombeiros de Goiás.
Ela trabalhou em Brumadinho, após o rompimento da barragem. A mãe de Hanna também atuou na corporação. 
Hanna a partir de agora viverá junto à família do soldado Walisson, com quem conviveu profissionalmente durante tantos anos. 
Belíssima e merecida homenagem! Chega a emocionar este blogueiro, amante incondicional dos cães.



(Imagens: Corpo de Bombeiros)


Providêncial


Ao despertar, corria a preparar o café da manhã, para não ser tomado por maus pensamentos.   

quarta-feira, 4 de março de 2020

A África não é um país

A foto do dia
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Vensam Iala, de Guiné Bissau, com a camiseta em português. Foto: Bruno Santos/Folhapress

“A África não é um país.” “Cansado de ouvir informações distorcidas sobre seu continente de origem, Vensam Iala, 30, achou melhor exibir essa frase óbvia no peito — e em três idiomas diferentes. Natural da Guiné-Bissau, ele vive no Brasil desde 2010 e acaba de lançar uma linha de camisetas com a mensagem-provocação em português, francês e inglês.” Reportagem de Flávia Mantovani para a Folha de S. Paulo hoje.
“Muita gente tem um olhar estereotipado sobre a África como um lugar único, que só tem mazelas, doenças, coisas ruins. É um recado de que na verdade é um continente com 54 países, com culturas totalmente diferentes, idiomas diferentes, povos diferentes”, afirma.
            Na Inglaterra, anos 80, certo dia um colega médico me perguntou se eu não ia passar o Natal em casa. Respondi que não, era muito longe e caro. Ao que ele retrucou, Mas o Brasil não fica na Europa? Causou-me certo mal estar. 


terça-feira, 3 de março de 2020

Tirinhas por escrito


Gostava de tirinhas mas não sabia desenhar. Sabia escrever: tornou-se um mestre em microcontos.


(Inspirado em Edson Rossatto: Cem toques cravados, Ed. Europa, 2012)

Gilka Machado, um poema



O julgamento de Frinéia, de Jean-Léon Gérôme (1861), mostra a hetera diante do Areópago





Possa eu, da frase nos agrestes sons,
em versos minuciosos ou sucintos,
expressar-me, dizer dos meus instintos,
sejam eles, embora, maus ou bons.

Quero me ver no verso, intimamente,
em sensações de gozo ou de pesar,
pois, ocultar aquilo que se sente,
é o próprio sentimento condenar.

Que do meu sonho branco véu se esgarce
e mostre nua, totalmente nua,
na plena graça da simpleza sua,
minha Emoção, sem peias, sem disfarce.

Quero a arte livre em sua contextura,
que na arte, embora pecadora, a Ideia,
deve julgada ser como Frinéia: 
– na pureza triunfal da formosura.


                               Gilka Machado (1893-1980)
                               Estados de Alma
   In: Poesias completas,
   Léo Christiano Editorial Ltda
   (1992)

segunda-feira, 2 de março de 2020

domingo, 1 de março de 2020

Moisés iluminado


Fundamentalismo

– Então você acredita estar aqui por uma sequência infinita de acasos, e o homem de fé sou eu?



Iluminado

As pessoas deviam conversar mais comigo. Eu tô muito sabido.



Acostumamento

Ele dizia que cada sofrimento só valia a pena uma vez. Evitava zonas de conforto.



Expertise

Qualquer torturador com o mínimo de experiência sabe que as sessões devem ser monotonamente iguais, passo a passo.


                         Moisés Tito Lobo Furtado

A Mercadoria Mais Preciosa




A Mercadoria Mais Preciosa é uma fábula de Jean-Claude Grumberg, com tradução de  Rosa Freire D’Aguiar (Editora Todavia, 2019). A história é sombria, tristíssima, terrível mesmo, porém indispensável nos tempos atuais e sempre. Precisa ser lida.
            Grumberg nasceu em Paris em 1939. Autor de mais de 30 peças teatrais, roteirista de cinema e TV, recebeu todos os prêmios, inclusive o Moliere. 
            Digo que o livrinho de setenta e poucas páginas precisa ser lido, por dois momentos cruciais da narrativa. A primeira é quando um bebê enrolado em uma manta tecida com fios de ouro e prata é jogado na neve pela janela do Trem da Morte, um soco no estômago do leitor.
            A segunda, ainda mais dramática, é quando o pai, sobrevivente do campo de concentração, encontra a filha pequena cuidada pela mulher que a resgatou da neve – a lenhadora –, passa por ela, e pensa que ele já não tem nada para ofertar à própria filha. Naquele instante, ele ainda não se reconhecia como ser humano.
            Fatos históricos são misturados a sonhos, devaneios, pesadelos; realidade e ficção podem confundir o leitor, mas a mensagem final não deixa dúvida: trata-se de um maravilhoso conto de amor.
            Eis pequena amostra:

“Em muitas fábulas, e estamos de fato numa fábula, encontra-se um bosque. E nesse bosque um espaço mais denso que ao redor, no qual só se penetra com dificuldade, um espaço selvagem e discreto, protegido dos intrusos por sua própria vegetação. Um lugar retirado onde nem homem, nem deus, nem bicho entram sem tremer. No vasto bosque onde pobre lenhador e pobre lenhadora tentem subsistir, existe um lugar desses, ali onde as árvores crescem mais cerradas e mais frondosas. Um lugar que o machado dos lenhadores respeita e onde não se descobre o traçado de nenhuma trilha. Uma floresta densa por onde a gente só se esgueira em silêncio. As crianças, é claro, não têm autorização de ir lá. E até seus pais temem por os pés ali e se perderem.”

            Para alguns, o tema do Holocausto é um bosque impenetrável, tamanho sofrimento e dor que surgem ao tentar apenas pensar no ocorrido. Mas não se pode esquecer o ocorrido. Uma fábula pode ajudar.

Jun'ichiro Tanizaki





"Jun'ichirō Tanizaki (1886 - 1965) é considerado um dos maiores autores da literatura japonesa moderna. Sofreu influência de Allan Edgar Poe, participou da escola denominada A Tanbiha, que “valorizava a “arte e beleza acima de tudo”, contra o objetivismo da época.”
“Membro de uma família de mercadores, Jun'ichirō Tanizaki nasceu em Tóquio. Em sua juventude foi um admirador do mundo ocidental e das conquistas da modernidade, tendo vivido por um curto período em uma casa de estilo ocidental em Yokohama, subúrbio de Tóquio e lar de estrangeiros expatriados. Lá levou um estilo de vida boêmio. Em 1923, um forte terremoto e consequente destruição da sua casa, forçaram Tanizaki a se mudar para Ashiya, na região de Kyoto e Osaka, fornecendo cenários ao seu romance As irmãs Makioka.” 
“O centro dos seus interesses é a preservação da língua e da cultura tradicional do Japão. Tanizaki faleceu aos 79 anos, em 1965, um ano após ter sido o primeiro autor japonês eleito membro honorário da American Academy and Institute of Arts and Letters.”
Principais obras: Amor insensato (1924; Companhia das Letras, 2004), Voragem (1928; idem, 2001), Há quem prefira urtigas (1930; idem, 2003), A chave (1956; idem, 2000) e Diário de um velho louco (Estação Liberdade, 2002), Elogio da Sombra. Tanizaki traduziu para o japonês autores ocidentais, como Stendhal e Oscar Wilde.
“Após a Segunda Guerra Mundial Tanizaki alcançou proeminência literária, obteve muitos prêmios e até sua morte foi considerado o maior autor vivo de seu país. A maioria de seus livros é altamente sensual, alguns centrados no erotismo. Em praticamente todos eles se destacam a agudeza de sua percepção e uma sofisticação irônica. Muito embora seja lembrado por suas novelas e contos, Tanizaki também escreveu poesia, drama e ensaio. Ele foi, acima de tudo, um magistral contador de histórias.”



Esta longa introdução se justifica em função da minha incurável ignorância, pois nunca ouvira falar do autor. Há poucos dias encontrei obra dele numa livraria, li a primeira página, gostei muito, não larguei mais o livrinho até que chegasse à última linha. Um primor de literatura! São duas novelas: A ponte flutuante dos sonhos seguido de Retrato de Shunkin, tradução do japonês de Andrei Cunha, Ariel Oliveira e Lídia Ivasa (Estação Liberdade, 2019).
Assim tem início A ponte flutuante dos sonhos:

“Veio hoje
O cuco cantar
na Toca da Garça-Cinzenta:
fim da travessia
da Ponte flutuante dos sonhos.”

“A epígrafe dessa história é uma composição de minha mãe. No entanto, o problema é que tive duas mães – uma de nascimento, outra que veio depois – e, ainda que a mais provável autora do poema seja a mãe de sangue, jamais terei certeza disso. Acredito que os motivos de minha dúvida se tornarão claros ao longo da leitura, mas posso desde já adiantar um deles: as duas mulheres eram conhecidas pelo nome de Chinu.”

A leitura segue amena, inocente, quase pueril às vezes, mas a história vai se adensando até surgirem erotismo e luxúria, sem que o autor nunca perca a elegância no exprimir-se. 
Surpreendente o texto de Jun’ichiro Tanizaki!