terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Suzete conhece o Anjo Exterminador


Querida Suzete,

tempos estranhos esses que estamos vivendo. Tragédias e mais tragédias, mortes e mais mortes, de repente perdemos o homem que nos traduzia os acontecimentos cotidianos de forma lúcida e corajosa, e o país acorda de luto nesta terça-feira 12 de fevereiro, uma tristeza sem fim. Ficou difícil pensar.
            Depois de ler quatro ou cinco jornais e percorrer o Twitter de ponta a ponta, o sentimento é de desalento, de desesperança. Então bateu a vontade de escrever para você, minha amiga.
            Há um animal novo aqui em casa. Como o irmão mais velho se chama Costela, botei-lhe o nome de Bisteca. Não pegou, ninguém gostou, lindo animalzinho da raça dachshund, ou linguicinha, ou Cofap, com nome tão vulgar. Passou a chamar-se Lila, inspiração oriunda de uma certa série da tv, A amiga genial. Todo mundo gostou. Com o passar dos dias, agora com 3 Kg e uma voracidade infernal, tem sido chamada de Anjo Exterminador, Capeta, Cão Chupando Manga, Dragão de Komodo, e até Filha-da-Puta, quando prega os caninos em meu pé.
            O prazer de Lila é infernizar a vida dos outros quatro cães daqui de casa, morder a orelha das duas pequenas e o rabo das grandes. Vamos ver se melhora com a idade e um pouco de juízo. Mas ela é linda!
            Não sei o que seria desta casa sem a presença dos cães. Seria um ermo triste cheio de silêncio. Sabe, Suzete, os que já se foram – Dora, Berta, Lenda, Camões, Lola – permanecem todos presentes, enchendo a casa de lembranças doces, do amor que nos legaram.
            Enveredei por este assunto canino para lhe contar que esteve conosco nesse fim de semana o meu amigo Sergio Pripas, de São Carlos – a Capital do Mundo! 
Falávamos de cães, naturalmente, dos diferentes temperamentos de cada raça, Sergio teve um dogue alemão arlequim, lindíssimo, eu tive um rottwailer imenso chamado Zenon, falávamos das diferentes personalidades desses animais, de como se relacionam com seus donos, (e o Anjo Exterminador mordendo nossos pés debaixo da mesa da cozinha, Ôôô Raça-Ruim!), até que lhe apresentei o gold kiwi, que ele não conhecia, embora seja grande conhecedor de plantas, flores, frutos, bichos e muito mais. Ele gostou, impossível não gostar de um gold kiwi, e ficamos dissecando o complexo sabor da fruta, um tanto do kiwi comum, o verdinho, um toque de laranja, de limão, textura de mamão, sabor elegante, até que meu amigo saiu-se com a antológica frase, que por si só constitui um excelente microconto:

Gold kiwi é cachorro.

            Portanto, Suzete, aqui estão os três grandes microcontos da Literatura Universal:
1 - O Dinossauro, de Augusto Monterroso: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”
2 - Manoel de Barros: “Ovo de lobisomem não tem gema” (que só eu classifico como microconto; para o autor, um verso apenas).
3 - Agora, Sergio Pripas: “Gold kiwi é cachorro.” Para a glória eterna, como o terceiro melhor microconto de todos os tempos!

Suzete, nunca recebi um microconto seu. Quem sabe na próxima carta? 
            Bem, termina aqui o lero-lero sobre cães e afins. Termina também esta cartinha, que já me deixa mais animado para enfrentar o dia-a-dia deste país tropical “abençoado por Deus e bonito por natureza”...
            Do amigo de sempre,

                                                           andré

            

Grande perda

A foto do dia


Morre Ricardo Boechat

Gold kiwi é cachorro




– Os cachorros, cada raça um temperamento.
– É mesmo, cada um cada um.
– Este gold kiwi tem diversos sabores.
– Gold kiwi é cachorro.



(Microconto em parceria com Sergio Pripas, autor da última frase, que por si só constitui um microconto autônomo.)

Poema


A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.
        
         Manoel de Barros
In Tratado geral das grandezas do ínfimo

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Cannabis e surto psicótico



Estudos mostram provável elo entre o uso da cannabis e a esquizofrenia em pessoas com predisposição genética 
Foto: Carlos Osorio/Reuters


“Uso de cannabis de 'alta potência' pode desencadear surto psicótico. Segundo especialistas, os riscos são para adolescentes e jovens que fazem uso de maconha e possuem histórico familiar de distúrbios mentais.” A reportagem é de Benedict Carey, para The New York Times (11 Fev 2019).
Prossegue a reportagem: “Legisladores e médicos estão cada vez mais preocupados com os perigos da maconha. Especialistas diferenciam entre a "nova cannabis" – legalizada, altamente potente, disponível sob a forma de produtos comestíveis ou em vaporizadores – e a versão antiga, uma erva mais fraca. Faz pelo menos três décadas que os níveis do THC, elemento químico responsável pelo efeito da maconha, estão aumentando.” 
Preocupa a todos o uso contínuo da erva e o surgimento de psicose entre os jovens, pois há 70 anos as evidências se acumulam. “No livro “Tell Your Children” [Conte aos seus filhos], o autor Alex Berenson, que já foi repórter do New York Times, argumenta que a legalização está expondo uma geração inteira a um elevado risco de esquizofrenia e outras síndromes psicóticas.”
“Há evidências circunstanciais de um mecanismo biológico por meio do qual o uso da cannabis poderia causar um distúrbio psicótico, episódios que tendem a ocorrer no fim da adolescência e início da vida adulta, durante ou após um período de rápido desenvolvimento do cérebro.”
“Durante a adolescência, o cérebro desfaz algumas conexões desnecessárias entre os neurônios do córtex pré-frontal - onde ocorrem o pensamento e o planejamento - e a região que é perturbada pelos distúrbios psicóticos. A região é rica em receptores CB1, envolvidos nessa "poda" e estimulados pelo uso da cannabis. Alterações no processo de poda podem aumentar o risco de esquizofrenia, de acordo com pesquisas recentes.”  
Parece que o histórico familiar de distúrbios psicóticos tem papel muito mais preponderante que qualquer efeito causado pelo uso da cannabis. Um estudo de 2014 indicou um maior risco de esquizofrenia entre pessoas com histórico familiar desse distúrbio, independentemente do uso da Cannabis. 
"Meu estudo mostra claramente que a cannabis não causa, sozinha, a esquizofrenia", disse a Dra. Lynn E. DeLisi, da Faculdade de Medicina de Harvard. "Na verdade, é necessária uma predisposição genética." Ela acrescentou que é provável que o uso da cannabis durante a adolescência e até os 25 anos pode desencadear um quadro de esquizofrenia.  
            Aguardamos estudos que apresentem conclusões definitivas sobre o assunto.



domingo, 10 de fevereiro de 2019

Dois artistas?


Mais uma surpresa de nossa visita, eu e meu amigo Sergio, à exposição "50 anos de Realismo - do Fotorrealismo à Realidade Virtual"no CCBB de Brasília.
            Paramos diante de impressionante pintura, enorme óleo sobre tela, de Andrés Castellanos (1956), intitulada Shopping Center N.Y. (2014). Revela vista de Nova Iorque, baseada em fotografia tirada de dentro de um shopping diante do Columbus Circle. A trama quadriculada corresponde a um extenso vidro diante da fachada do prédio.
            Eis a pintura (é uma pintura!):




            Instantaneamente eu disse, Já estive nesse lugar e bati uma foto muito parecida com este quadro. 
Em nossa última estada em Nova Iorque, eu e Mercêdes fomos a três apresentações em um espetacular clube de jazz localizado no quinto andar do The Shops at Columbus Circle, o famoso Dizzy’s Club Coca-Cola. (A sugestão do programa foi de meu irmão Paulo.) 
            Eis a fotografia do artista que lhes escreve:




            
            Recomento fortemente aos que visitarem NY: não deixem de ir ao Dizzy’s Club Coca-Cola.




Nu frontal


Ainda sobre nossa visita à exposição"50 anos de Realismo - do Fotorrealismo à Realidade Virtual"no CCBB de Brasília.
            A certa altura da visita, eu e meu amigo Sergio observamos, por tempo relativamente longo, cena que nos chamou a atenção. A escultura hiper-realista, intitulada Christine (2011), de autoria de John Deandrea (1941), mostrava uma mulher nua. Nos colocamos de frente para a face anterior do corpo e vimos que cinco adolescentes permaneciam observando – e conversavam animadamente sobre o que viam –, apenas a parte posterior da escultura. Do que riam? De que tanto falavam? Jamais saberemos.
            O que nos intrigou foi o fato de permanecerem olhando para a face posterior do corpo. Parece que evitavam propositalmente a visão do nu frontal. Adolescentes envergonhadas?



50 anos de Realismo


Teve início neste começo de fevereiro a exposição "50 anos de Realismo - do Fotorrealismo à Realidade Virtual"no CCBB de Brasília (5 de fev a 28 de abr)
Entramos na primeira sala, eu e meu amigo Sergio Pripas, e diante dos três primeiros quadros permanecemos quase que perplexos, sem compreender o que víamos, É uma fotografia bastante manipulada, Mas parece uma pintura, Não, é muito real para ser pintura, a conversa ia por aí quando um guarda que zelava pela sala, muito educadamente, chegou e disse, Isso é tudo pintura, não tem fotografia, e o nosso susto foi enorme, Nossa Mãe do Céu! 
O próprio site da exposição explica: “O foco das obras é o hiperrealismo. As esculturas tridimensionais são uma representação realista do ser humano. Já os quadros trarão a constante dúvida "foto ou pintura?". 
            Eu e meu amigo não conhecíamos esse Hiperrealismo na Arte contemporânea. Concordamos ambos que a Exposição é belíssima, surpreendente, acima de nossas (parcas) expectativas.
            Abaixo, destaques que darão pálida ideia do que é a exposição.

Clique na foto para aumentar.




Na chegada, de longe, a árvore parecia real.
Cobre e plástico.



As 3 primeiras obras e nossa perplexidade.




Trailer com cavalinho de balanço. Aquarela! (1974-1975)
Jonh Salt (1937)





Onda ao luar (2016)
Antonis Titakis (1974)





Aparas em vermelho, azul e branco (2018)
Javier Banegas (1974)



Realidade virtual para os visitantes.


            Encerramos a esplêndida visita em alto estilo, com vinho branco, pão e queijo. A conversa prosseguiu.