segunda-feira, 2 de março de 2015

À minha perna esquerda


1

Pernas
para que vos quero?

Se já não tenho
por que dançar,

Se já não pretendo
ir a parte alguma.

Pernas?
Basta uma.

2

Desço
     que                  subo
         desço      que
                 subo
                camas
               imensas.

Aonde me levas
todas as noites
pé morto
pé morto?

Corro, entre fezes
de infância, lençóis
hospitalares, as ruas
de uma cidade que não dorme
e onde vozes barrocas
enchem o ar
de p
     a
     i
     n
     a sufocante
e o amigo sem corpo
zomba dos amantes
a rolar na relva.

Por que me deixaste
pé morto
pé morto
a sangrar no meio
de tão grande sertão?

não
n ã o
N Ã O !

3

Aqui estou,
Dora, no teu colo,
nu
como no princípio
de tudo.

Me pega
me embala
me protege.

Foste sempre minha mãe
e minha filha
depois de teres sido
(desde o princípio
de tudo) a mulher.

4

Dizem que ontem à noite um inexplicável morcego
assustou os pacientes da enfermaria geral.

Dizem que hoje de manhã todos os vidros do ambulatório
apareceram inexplicavelmente sem tampa,
os rolos de gaze todos sujos de vermelho.

5

Chegou a hora
de nos despedirmos
um do outro, minha cara
data vermibus
perna esquerda.
A las doce em punto
de la tarde
vão-nos separar
ad eternitatem.
Pudicamente envolta
num trapo de pano
vão te levar
da sala de cirurgia
para algum outro (cemitério
ou lata de lixo
que importa?) lugar
onde ficarás à espera
a seu tempo e hora
do restante de nós.

6

esquerda      direita
esquerda      direita
  direita
  direita

Nenhuma perna
é eterna.

7

Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo.
Não há
pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.

Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do Juiz
coragem:
não tens culpa
(lembra-te)
de nada.

Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração.
Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas do mundo.

Mas não te preocupes
que no instante final
estaremos juntos
prontos para a sentença
seja ela qual for
contra nós
lavrada:
as perplexidades
de ainda outro Lugar
ou a inconcebível
paz
do Nada.
                                      José Paulo Paes
                                      Poesia completa
                                      Companhia das Letras, 2008.
                                             

Where is the money?

Charge do dia.


Será que todos os brasileiros reconhecem a figura do "aluno" da primeira fila? Os brasilienses conhecem. Ele é do PT.


A evolução das espécies

A foto do dia.



“Crânio encontrado no Quênia pode revelar linhagem humana desconhecida até agora.”

Foto: IFL Science/President and Fellowns of Harvard College /


O que deseja uma mulher?


– Queria casar...
– E aquele moço que lhe beija a mão?
– Quero um homem que me beije os pés.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A barbárie do século XXI



Se os militantes do Estado Islâmico desejavam chocar o mundo, e penso que este era o grande objetivo deles, conseguiram-no plenamente, ao divulgar nesta quinta-feira o vídeo aterrorizante.
Este blog tratou ontem da queima de livros e manuscritos pelos terroristas. Hoje, as imagens da destruição de peças históricas do museu de Mossul, ao norte do Iraque, pelo mesmo grupo, provoca sentimentos de revolta, tristeza, indignação, ódio. São perdas definitivas para a história da humanidade.
Os terroristas alegam que o profeta Maomé destruiu estátuas ao conquistar Meca, no século VII. Não estou certo da veracidade desta afirmação. (Minha ignorância é mesmo espantosa!) Mas se o fez, fez muito mal! Se o fez, infelizmente o exemplo perdura até os dias atuais.
Pois estes bárbaros tratam as esculturas assírias de mais de 2.000 anos, algumas do século VII a.C., como "ídolos” venerados por povos de séculos anteriores, portanto sem qualquer valor. Ou pior, como se fossem objetos de idolatria de adoradores do demônio.
            Para o Estado Islâmico, tudo o que pertença a antigas civilizações, tudo o que veio antes do islã, deve ser destruído.
Penso que eles têm muito medo! Esta é uma característica do fundamentalismo religioso: o que está fora do “texto sagrado” representa uma tentação e, portanto, uma ameaça que precisa ser expurgada.
Outros sítios arqueológicos estão em risco na região. Há relatos de que peças de valor histórico estão sendo vendidas no mercado negro, com o intuito de financiar o Estado Islâmico. (O que não é de espantar, pois os americanos fizeram o mesmo na Guerra do Iraque, não para financiar a guerra, mas para benefício exclusivo dos ladrões!)
            Sou de opinião que violência gera violência, mas alguma coisa precisa ser feita, efetivamente, para estancar esta barbárie.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A beleza!

A foto do dia, do mês, do ano...


Sem comentários.


Queima de livros e de outras coisas mais


Pieter Bruegel, the Elder (1562)

Manuscritos de até 5000 a.C. da biblioteca pública de Mossul, no Iraque, 8 mil livros, incluindo os do período do Império Otomano, antiguidades de valor histórico inestimável, tudo queimado recentemente por militantes do Estado Islâmico! 
Não é de hoje o costume de queimar livros. A Igreja praticou-o durante séculos, particularmente no período da Inquisição. Os nazistas foram incendiários ferozes de livros em praça pública. Agora, o Estado Islâmico encarrega-se de preservar esta humana tradição.
Não por simples coincidência, estas três instituições também queimaram e continuam queimando gente. (Dizem que Freud, ao saber de seus livros destruídos pelo fogo, teria comentado, não com essas palavras: O homem está mais civilizado; antes, queimava os autores, agora queima suas obras. Mal sabia ele...)
Quando a decapitação tornou-se banal, o Estado Islâmico apelou para o fogo, para o sacrifício dos infiéis.
No Brasil, nas grandes cidades, seja lá por que razão for, queimam-se ônibus. Às vezes, com gente dentro.
Traficantes utilizam-se dos chamados micro-ondas, engenhosos artefatos construídos com pneus empilhados, onde outro tipo de infiel é colocado, molhado com gasolina, queimado vivo. É a fogueira inquisitorial moderna.
Manifestantes, de toda coloração política, queimam pneus para obstruir ruas e estradas. A fumaça é sempre negra.
Os já lendários coquetéis molotov – dizem, inventados pelos russos, cujo nome é homenagem a Vlacheslav Molotov – ainda têm serventia nas manifestações populares mundo afora.
            Além da destruição que acarreta, o fogo parece ter um forte conteúdo simbólico, o de produzir a purificação do Mal.