segunda-feira, 16 de junho de 2014

Domingo de Copa


             1.  Para quem esperava o ferrolho suíço (os mais jovens provavelmente não conhecem a expressão), os europeus surpreenderam com um futebol ofensivo, aberto, veloz, virando o jogo e vencendo o Equador por 2 a 1, o último gol já na prorrogação.
Continuo usando a palavra “prorrogação”, gosto dela, trago-a comigo desde a infância, e não vou abandoná-la só porque agora foi condenada pelos comentaristas esportivos, que falam em “acréscimos”. Todo mundo entendia o que se queria dizer com prorrogação. 
           Aconteceu o mesmo com a expressão "risco de vida"; todo mundo sabia que se tratava de risco de morte, mas alguém resolveu ser realista e condenou-a, passando a falar em "risco de morrer". É a mania do certo e do errado.
           A língua é viva, fazer o quê! E eu sou teimoso...
Voltando ao jogo, os equatorianos não jogaram mal, faltou apenas um pouco de coragem para atacar a Suíça. E técnica, é claro.
            
          2. Desde os amistosos pré-Copa que a França vem jogando um futebol eficiente, com ótimo conjunto, harmonia entre defesa, meio de campo e ataque, obtendo resultados impressionantes, como o 4 a 0 contra a forte Noruega. Ontem passou fácil por Honduras: 3 a 0, com dois de Benzema, bom centroavante, o primeiro de pênalti bem marcado (enfim!). França, forte candidata ao título.
            Pela primeira vez entra em campo a tecnologia a favor da precisão no resultado das partidas. No segundo gol da França, a bola bate na trave, rola sob a linha de gol, choca-se contra o goleiro e entra. Entra? O chip instalado na bola garante que sim. As imagens não deixam dúvida. Fácil demais! Sem discussão. É isso o futebol? Não, respondo com convicção. Futebol é um jogo onde não há necessidade de tamanha precisão. Se não, depois vamos conversar sobre o quê? Qualquer dia desses vão inventar um juiz eletrônico para apitar os jogos. Assim caminha a Humanidade...
            (Numa próxima crônica, se o gol for anulado contra o Brasil por causa desse chip, defendo o ponto de vista contrário ao que acabo de expor. Paixão é paixão.)
            
            3. O jogo mais interessante do domingo foi entre Argentina e Bósnia-Herzegovina. Podia acontecer de tudo, mas deu o mais provável: 2 a 1 para os companheiros de Messi. Jogo insosso, morno, sem graça, que começou com um gol contra logo aos 2 minutos, e que esfriou demais os bósnios. Logo no início do segundo tempo, outra paulada: belo gol de Messi. Daí pra frente não houve mais nada que prestasse. Nem o golzinho dos balcânicos animou o time, pregado em campo. Mas o Maracanã estava lindo!
            Se jogar assim contra o Brasil, a Argentina leva uma surra, dirão os ingênuos. Contra o Brasil, os argentinos vão suar sangue e ranger os dentes. E morder de vez em quando.

domingo, 15 de junho de 2014

Os ingleses não aprendem...


              1. Difícil acreditar que foram os ingleses que inventaram o futebol. Se inventaram, nunca aprenderam a jogá-lo. Mas até que surpreenderam no último jogo contra a Itália, com bonitas trocas de passes, jogadas bem armadas, um belo gol de bate-pronto, e não apenas aqueles costumeiros e sofríveis centros para a área adversária, na esperança de um cabeceio de um inglês grandalhão. Mas não foi o suficiente para ganhar.
            A Itália suou, mas foi de calor, não é mole jogar na Amazônia, e ganhou com relativa facilidade. Para minha surpresa, o time não recuou depois do primeiro gol, continuou jogando um futebol franco, aberto, tranquilo, o que facilitou de certo modo o gol de empate dos ingleses.
Os italianos desempataram com facilidade, numa deixada espetacular de Andréa Pirlo (abrir as pernas tem muitos significados...). A Itália jogou o suficiente para vencer de 2 a 1, seleção que tem camisa e se apresenta como forte candidata ao título.

2. Nada de anormal na vitória de 3 a 0 da Colômbia sobre a Grécia, esta talvez forte candidata ao pior time da Copa.

3. Vamos às zebras.
Proclamado o Grupo da Morte – Inglaterra, Itália, Chile e Costa do Marfim –, ninguém contava que esta última fosse a morada da Morte. O Uruguai foi o primeiro a cair nas garras da Morte. (Mas esta é ainda a primeira rodada.)
O Uruguai, que também chegou ao Brasil cantando de galo, fazendo constantes alusões à copa de 50 (quando eles dizem que gostariam de fazer uma final contra o Brasil no Maracanã, estão fazendo alusão à copa de 50; ou isso está na minha cabeça?). Com a primeira expulsão da Copa, saíram de campo murchos os uruguaios, em que pese minha enorme simpatia por José Mujica.

4. O Japão nunca jogou futebol (eles correm atrás da bola), mas perder para a Costa do Marfim foi demais! Perdeu de virada, 2 a1, de um time cheio de vontade (por isso o jogo foi bom de assistir) mas sem técnica alguma. Dois pernas de pau.

De qualquer maneira, ótimos jogos neste sábado, terceiro dia de Copa. Para quem disse e diz “não vai ter copa”, os jogos até agora têm sido ótimos.

sábado, 14 de junho de 2014

A vingança

Depois de viver o que passou a ser conhecido como o Século de Ouro – o século XVI –, a Holanda foi invadida por franceses e espanhóis, entrando em declínio. Pois ontem os holandeses vingaram-se dos espanhóis.
            A seleção da Espanha, bicampeã europeia e campeã do mundo na última Copa, chegou ao Brasil de salto alto. Era o time a ser batido. Criticada por alguns pelo tipo monótono de jogo, alegaram, impávidos, que jamais mudariam seu estilo. Morremos mas não mudamos nosso estilo, declararam os arrogantes espanhóis. Pois ontem, quase morreram. De vergonha!
            Primeiro foi a praga do pênalti inexistente (quem pisou no pé do adversário foi o centroavante espanhol). O mais incrível é que o simulador é brasileiro, naturalizado espanhol. Agora sabemos que não precisávamos mesmo dele, já temos o nosso. Enfim, 1 a 0 para a Espanha.
            Em seguida veio um dos gols mais bonitos de todos os tempos, e a Holanda empata o jogo no finalzinho do primeiro tempo. O senhor Robin van Persie, nascido em Rotterdam, com 31 anos de idade e 1,84 m de altura, voou na grande área e, de cabeça, encobriu o goleiro espanhol, considerado um dos melhores do mundo. A beleza plástica do lance torna-o uma obra de arte imortal. Dificilmente haverá gol mais bonito nesta Copa.
            Depois veio o segundo tempo e foi aquele massacre. Brilhou o senhor Arjen Robben, natural de Bedum, ao norte dos Países Baixos, 30 anos, 1,80 m, que deixou o goleiro Casillas de gatinhas, cercando frango na grande área.
            Para terminar, um olé!
            Nenhum holandês mais otimista, nenhum comentarista esportivo competente (nem mesmo o incrível PVC), ninguém arriscaria um resultado desses: 5 a 1 para a Holanda. Esta imprevisibilidade é um dos encantos do futebol, a magnetizar metade da população do planeta.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Abertura da Copa das Copas


Quatro acontecimentos insólitos marcaram ontem a abertura da Copa do Mundo. Surpresas acontecem, é claro, porém a natureza dessas últimas me faz lembrar a Jangada de pedra, de José Saramago, quando depois de uma sucessão de fatos extraordinários a Península Ibérica acabou por se destacar do continente europeu e navegou mar a dentro.

Começamos com a ausência de abertura oficial da Copa. Nem o Presidente da FIFA nem a Presidente da República declararam abertos os jogos. Ao contrário, esconderam-se bem no fundo da plateia. Faltou apenas que viessem disfarçados, para não serem reconhecidos. Ou aquelas pombinhas brancas eram os disfarces? Não que a mudez deles tivesse incomodado; ao contrário, as falas sim, teriam sido perda de tempo, ansiosos que estávamos todos para o começo do jogo. Mas, de fato, os jogos não foram abertos, por medo das vaias. Gente frouxa.

O segundo acontecimento, este mais infausto que o primeiro, foi que o primeiro gol da Copa – algo sempre festejado por quem gosta de futebol e Copas do Mundo – foi contra. Nosso lateral direito estava fora de posição, fazendo não sei quê lá na frente; a bola cruzada para a área pelo croata passou por três defensores nossos, que não conseguiram desviá-la; passou entre as pernas de um adversário, que não fez o gol; e foi chocar-se no lateral esquerdo do Brasil, que vinha correndo mais estabanado que uma vaca brava. Restou-lhe esbugalhar os olhos, incrédulo pelo gol que havia marcado, contra. E entrou para a história das Copas.

O absurdo do terceiro acontecimento reside no fato de que, pela primeira vez na história do futebol, incluindo os jogos de várzea, há unanimidade quanto à marcação de um pênalti: ele não existiu! As explicações variam enormemente, vão desde a teoria conspiratória de que esta Copa está comprada, até a teoria compensatória, que o juiz estava apenas se redimindo de um pênalti não marcado contra o Brasil, na Copa anterior, em jogo contra a Holanda, desclassificando o escrete. E não podemos nos esquecer daqueles que acreditam piamente de que deus é brasileiro... Um deus ladrão, com certeza.
Na manhã seguinte, jornais do mundo todo estampam nas primeiras páginas a gatunagem brasileira: o Brasil ganhou roubado. Precisávamos disso? A seleção jogou melhor que a Croácia e mereceu vencer, mas não sabemos se venceria se o pênalti não fosse marcado, e não saberemos jamais. Não é a primeira vez que acontece gol roubado em Copas do Mundo; quem não se lembra da “mão de deus” argentina? Porém, unanimidade num pênalti, é a primeira vez.

Por último, embora tivesse ocorrido em primeiro lugar, não houve escolas de samba, com suas peladas mulatas colossais, desfilando na abertura da Copa! Por isso mesmo, há quem diga que não houve abertura.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Little street, de Vermeer


Tela exposta no Rijkmuseum, Amsterdam (1657-1661).

Canal em Amsterdam

A foto do dia.

Foto: A.Vianna, maio de 2014.

Humano, de tão desumano


A ideia de um escritor português nascido em Angola escrever um livro cuja história se passa na Islândia parece por si só extravagante.
            A outra ideia, central no romance, é bastante original: uma das irmãs gêmeas morre, e a outra passa a ser chamada de “a menos morta”. Havia uma mais morta e outra menos morta. A menos morta diz, “Éramos gémeas. Crianças espelho. Tudo em meu redor se dividiu por metade com a morte.”
            Estou falando do último livro de Valter Hugo Mãe (agora com maiúsculas), A desumanização (Cosac Naify, 2014). Não se trata de um livro fácil, definitivamente. Causa no leitor uma espécie de desconforto, de estranhamento depressivo, sensação de vazio. Há um fosso medonho no alto da montanha, chamado de “a boca de deus”, de onde as pessoas são jogadas e desaparecem. Medo, acho que senti medo com a leitura de A desumanização. Até os nomes dos personagens soam misteriosos: Sigridur, Halla, Einar, Thurid, Hilmar. E a história, que o autor apenas nos deixa entrever, pois é contada cheia de lacunas, é tristíssima, como sugere o título do romance.
            O que nos chama mesmo a atenção é a linguagem utilizada por Mãe, linguagem verdadeiramente poética e encantadora, de um forte lirismo trágico. Eis uma pequena amostra:

“Achei que a minha irmã podia brotar numa árvore de músculos, com ramos de ossos a deitar flores de unhas. Milhares de unhas que talvez seguissem o pouco sol. Talvez crescessem como garras afiadas. Achei que a morte seria igual à imaginação, entre o encantado e o terrível, cheia de brilhos e susto, feita de ser ao acaso. Pensei que a morte era feita ao acaso.”

            Podemos dizer que a leitura do curto romance de Mãe – são apenas 150 páginas – constitui-se num desafio que, no meu ponto de vista de simples leitor, vale a pena enfrentar.