terça-feira, 23 de julho de 2013

O cão humaniza a família

Camões, diante de uma reprodução de Monet.


Uma amiga, mãe de três filhos, sabedora de meu amor pelos cães, puxou conversa, como que a pedir conselho ou aprovação, Meus filhos estão implorando para que eu compre um cachorrinho, mas estou relutante, uma trabalheira danada, moramos em apartamento, vai ser xixi pra todo lado, a briga pra decidir quem vai descer com o cachorro, despesas com veterinário, ração, vacinas, sem falar na implicância do marido, antevejo o inferno...
Faça a vontade deles, respondi, o cão humaniza a família.
Não estou certo de que ela levou a sério esta minha assertiva, pois não teceu qualquer comentário. Pode ter pensado, Humanos somos nós, não os cães; por consequência, apenas o humano é capaz de humanizar.
Devo admitir que há lógica nesta afirmação, mas como humanização diz muito mais respeito às emoções que à lógica, reafirmo a ideia de que temos muito a aprender com os animais, especialmente com os cães.
Algum tempo depois, a amiga veio com a novidade, André, você não sabe o que minha filha de cinco anos me disse outro dia, Mamãe, depois que o Lulu chegou nós não brigamos mais! A menina referia-se às constantes brigas entre os irmãos, que tornaram-se mais raras com a presença do bichinho.
Segundo Ulisses Tavares, organizador do singelo mas bem cuidado livrinho Poemas que latem ao coração (Editora Nova Alexandria, 2009), às vésperas de sua morte ocorrida no dia 9 de outubro de 1998, o grande poeta e tradutor José Paulo Paes registrou numa última gravação:

Dúvidas

Não há nada mais triste
do que um cão em guarda
ao cadáver de seu dono.
Eu não tenho cão.
Será que ainda estou vivo?

            O poeta foi bem mais radical que eu, ao sugerir que a ausência do cão junto ao homem indica que ele já morreu, embora muitas vezes não se aperceba disso. O cão traz vida à casa!

Foto: Mercêdes, Brasília, junho de 2013.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

18. O que dizer a uma criança?



     
Parece que as crianças não perguntam o que têm, por uma razão bem simples, segundo Kübler-Ross: elas já sabem! “Todas sabem que têm uma doença terminal, basta saibamos decifrar a linguagem simbólica das crianças”, foi o que ouvi de Kübler-Ross naquela inesquecível conferência, em 1979, aspecto que aqui resumo, lembrando-me do impacto que me causou.
Assim que eram internadas em um hospital geral para
tratamento de câncer, as crianças eram atendidas pela equipe de psicólogos de Kübler-Ross, recebiam papel e lápis de cor, comunicavam-se, enfim, através de seus desenhos. Uma delas desenhou a imagem aqui mostrada (de forma grosseira e incompleta, pois é apenas a lembrança que guardei de uma fotografia revelada por Ross em sua conferência), que foi imediatamente analisada pela equipe. O médico da criança foi procurado e informado de que o menino de aproximadamente 6 anos de idade estava dizendo que tinha um tumor no hemisfério cerebral direito (?) e que tinha dois anos de vida. Evidentemente o médico não deu crédito a tais informações, com a alegação de que aquilo não era “científico”. Com a investigação clínica, o diagnóstico foi confirmado, a criança foi operada e sobreviveu por dois anos. 




Nessa “conversa”, vamos chamar assim, entre pacientes, médicos, psicólogos e familiares reside o fundamento do apoio a ser prestado à criança doente. Fundamental mesmo, é saber “ouvir” a criança, que muitas vezes pouco se expressa por palavras.
A atenção a ser dispensada à família deve ser redobrada, pois é ela que manifesta de maneira mais veemente todo o sofrimento com a dificílima situação de conviver com um filho doente, e que vai morrer. Uma situação que se vive no limite, penso eu.
Minha experiência pessoal com crianças é muito pequena, e posso apenas registrar aqui minha dificuldade em lidar com elas, quando o assunto é a morte, pelo tanto que me afeta emocionalmente. Posso concluir que a experiência é tudo, em todos os sentidos.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A árvore mais velha de Paris

Ao meu irmão Paulo.



Há uma pequena praça, bem perto da Notre Dame, em Paris, onde se pode ver a árvore mais antiga da cidade, uma acácia. O viajante comoveu-se pelo modo com que ela, a árvore, é tratada, como todo ser vivo merece ser tratado. E até hoje ela acolhe outros seres vivos, como a pomba que repousa entre seus ramos centenários.






Fotos: A.Vianna, Paris, 2013.

17. Doutor, não conte ao José


Dentre as várias possibilidades que temos apresentado aqui, na relação do médico com o chamado paciente terminal, há uma que se destaca pela frequência com que ocorre, além do apelo emocional que provoca. O paciente pergunta ao seu médico, Doutor, o que eu tenho. Ao mesmo tempo, a família, que foi informada antes do próprio paciente, pede ao médico, Doutor, não conte nada ao José, nós temos medo que ele faça uma besteira.
Mas nosso paciente, o José, insiste em saber a verdade. E, agora não resta dúvida, é um direito seu.
Mais uma vez, apelamos para a arte da conversa. Parece que, em tais circunstâncias a angústia maior está com a família e é ela que requer a atenção e cuidado do médico. Não é difícil explicar que é um direito do José informar-se a respeito da natureza da doença dele, e que a família não pode impedi-lo. Se a notícia é oferecida de maneira adequada, se a disponibilidade do médico é evidente, se o paciente confia em seu médico, se o apoio familiar estiver presente, o suicídio não é uma atitude frequente nesses casos, o médico deve tranquilizar a família.
A conversa mais uma vez deverá realizar-se na presença do médico, do paciente e de algum familiar que disponha de maior tranquilidade emocional. Quando bem conduzida, o efeito será terapêutico para todos.
Porém, já nos deparamos com situações dramáticas em que todos conhecem a verdade, até os vizinhos..., e o paciente segue desinformado sobre sua doença. Nas palavras de Kübler-Ross, quando o paciente, perto da morte, descobre que lhe mentiram durante todo o tempo, “ele morre na mais profunda solidão”. Compartilho deste ponto de vista. Ninguém é bobo. Não há por quê menosprezar a capacidade das pessoas perceberem que algo errado se passa em seu corpo, quando estão doentes. Nós somos também, e antes de tudo, o nosso corpo.

16. Diário: 18/07/13


Recebi a visita do irmão, de corpo e alma, como quem recebe uma benção, um presente, uma dádiva. Ele despencou de São Paulo, deixou seus afazeres, e por dois dias estivemos juntos. Em muitos momentos, calados ambos, sem qualquer necessidade de verbalizar os sentimentos ali presentes, intensos. Isso acontece com as pessoas a quem amamos muito, este silêncio pleno de significados. Ouvimos música, especialmente duas sonatas para piano de Beethoven, magníficas. Conversamos sobre trivialidades, rimos de algum episódio relembrado da infância, acariciamos os cães, comemos a comida sempre saborosa daqui de casa, bebemos vinho. Quando nos despedimos no aeroporto, veio-me o nó na garganta, e restou a felicidade por tê-lo como irmão durante toda uma vida. Quando ele nasceu, eu já esperava por ele...