quarta-feira, 4 de julho de 2018

Homenagem a Monteiro Lobato



Setenta anos, hoje, da morte de Monteiro Lobato. Vale a pena lembrá-lo, singela homenagem deste blogueiro, que leu-releu-treleu sua obra infantil, de cabo a rabo várias vezes.  
A reportagem é de Rodolfo Stipp Martino, e informa que o escritor José Bento Monteiro Lobato, um dos mais populares do Brasil, morreu aos 66 anos, na madrugada de 4 de julho de 1948, em São Paulo, vítima de um derrame cerebral.
Afirma Martino: “Cerca de um ano antes de isso ocorrer, ele havia declarado, em entrevista exclusiva para a Folha da Noite(um dos jornais que deram origem à Folha), que já não tinha mais pretensões e que estava curioso em saber o que acontece depois do fim da vida.”
Interessante a declaração bem-humorada de Lobato:

“O meu cavalo está cansado, querendo cova — e o cavaleiro tem muita curiosidade em verificar pessoalmente se a morte é vírgula, ponto e vírgula ou ponto-final”.

            Pena que ele não voltou para nos dar a resposta. Mesmo assim, Viva Monteiro Lobato!





Raízes


a serpentear na superfície
as raízes da velha acácia
constroem montanhas 
vales
picos nevados
labirintos sulcados

cansadas de habitar
as profundezas do chão obscuro
a sugar a seiva fecunda do húmus
entediadas do silêncio da terra
das umidades anônimas 
do quieto solo

assomam sáurias cá fora
constroem cidade remota de grandes muralhas
contraponto da árvore imensa
terrosa simetria desfolhada
que o vento não faz oscilar
que prescinde de luz
garra amarra na terra
coração que não pulsa 
apenas flui

sérias nobres raízes da velha acácia


                                    Paulo Sergio Viana

Foto: Paulo S. Viana
Originalmente publicado no Blog do Paulo:


terça-feira, 3 de julho de 2018

Menino triste

Meus quadros favoritos


Joan Eardley 
Pintor inglês (1921-1963)

Fotoabstração N.45

Fotoabstração




Foto: AVianna, jul 2018.

Via Papua

Por André de Oliveira. Inspirada em Hilda Hilst, homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a corrente poética do EL PAÍS continua. Joselia Aguiar, atual curadora da Flip, agora escolhe Via Papua, do poeta, antropólogo e historiador, Antonio Risério. 

Via Papua

desamarra a quilha, canoa
desamarra a quilha
e voa

(vai pelo ar
pelo mar
e sobre a ilha;
voa sobre o que
se armadilha)

mas voa leve, canoa
e leva uma estrela
na ponta da proa

cruza o mar, a névoa
o peito, a boca, a língua
almas que invadem nuvens
dobras de angra e de íngua

(mas voa leve, canoa
há uma estrada inteira
na ponta da tua proa)

e que o ar mais leve a leve
e faça das algas do céu
a minha única
e exclusiva
coroa,

canoa.

“Poeta, escritor e antropólogo, Antonio Risério foi militante estudantil na década de 1960, quando foi preso aos 16 anos. Baiano, natural de Salvador, estuda cultura afro-brasileira e tem mais de quinze livros publicados, entre ficção e ensaios, como O Poético e O Político, de 1988, em coautoria com Gilberto Gil; Caymmi - Uma Utopia de Lugar, de 1993; Oriki Orixá, de 1996; e A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros, de 2007. Risério, que nasceu em 1953, também trabalhou no Ministério da Cultura, durante a gestão de Gilberto Gil e teve participações nas campanhas políticas do PT à presidência.”



Majestosamente




domina o jardim
a exuberante cattleya
majestosamente

A lógica do futebol



Se derrotamos a Alemanha, campeã do mundo, por que não haveremos de derrotar o Brasil? Este o raciocínio “lógico” que inspirou mexicanos antes do jogo com o Brasil.
            Desde criança, torcedor da Esportiva de Guaratinguetá, conhecida pela alcunha de Lobo do Vale, e peladeiro contumaz, ouço dizer que futebol não tem lógica. Resultado: os mexicanos dominaram os primeiros 25 minutos de jogo, pressionaram muito, mas não chutaram a gol. A Seleção tem ótima defesa!
            A partir daí, só deu Brasil. Os 2 gols no segundo tempo refletiram o domínio de campo, a técnica e a vontade de vencer do Brasil. (Destaque para a “vontade” de William, o melhor em campo em minha opinião!)
            Louve-se mais uma vez o Sr. Adenor, que mexeu no time com a maestria de (quase) sempre. Se o Brasil ganhar esta Copa, será principalmente pelo excelente plantel – palavra bem fora de moda –, com reservas que jogam tão bem ou melhor que os titulares. Coisa rara de se ver mundo afora. 
            Que vença o melhor!


Brasil derruba o México

A foto do dia






sábado, 30 de junho de 2018

Poesia em jornal



“Um texto semanal, um instante para parar tudo e ler um poema. A partir deste momento, o EL PAÍS começa esta corrente semanal em que uma poeta ou um poeta indica o trabalho de outro até o começo da Festa Literária Internacional de Paraty(Flip), que homenageará a poeta Hilda Hilst.”
            O artigo é de André de Oliveira, para El País (25 JUN 2018).
Hilda nasceu em 1930, em Jaú, no interior de São Paulo, e morreu em 2004. Foi considerada difícil durante a vida, autora hermética. “Ela própria enxergava essas críticas como resultado do fato de que ela não fazia o que se esperava de uma mulher, não escrevia sobre o que se devia e nem vivia como se devia. A homenagem do evento de literatura vem para colocar as coisas nos devidos lugares.”
A primeira convidada foi Joselia Aguiar, atual curadora da Flip. Ela escolheu a poeta e tradutora Josely Vianna Baptista, com seu poema Guirá Nãndu– nome da Constelação da Ema, na cultura Tupi-Guarani –, publicado no livro Roça Barroca, que acaba de ser reeditado pela editora Sesi-SP e será lançado em agosto. 

Guirá Nãndu

Para Teodoro (sob a Constelação da Ema, cujas penas são desenhadas por claro-escuros da Via Láctea)

pode que a noite hoje
se furte a amanhecer
a terra desmorone
nos bordos do poente
e outra vez o sol
como antes
não desponte
em busca de outro sol
pode alguém se perder
abandonando o humano
para encontrar seu deus
– o mesmo que ao nascer
deu-lhe um nome secreto
de sua divindade
perfeito e repleto
pode que na viagem
no trajeto disperso
um homem adivinhe
a vereda possível
sem fim, de sol a sol
até que a fome e a febre
o êxtase à flor da pele
a intempérie, a prece
a dança em excesso
transportem o corpo adverso
e o espírito pulse
e respire
e confronte
o mar que o separa
da terra indestrutível
quem sabe o paraíso
que descrevem os antigos
não esteja além do vasto
nevoeiro e sargaço
mas no árduo percurso
vencido passo a passo
sem bússola ou mapa do céu
em pergaminho
talvez além do zênite
que ofusca o caminho
deixando um invisível
roteiro para os olhos
que enfrentam o escuro
entre os dois
crepúsculos

Brilhante iniciativa do El País!




Giannetti vira-lata


*

À primeira vista, o título não atrai o leitor, muito menos a capa do livro. Porém, quem conhece o autor tem certeza de que vai encontrar ótimo texto. Falo do lançamento recente de O elogio do vira-lata e outros ensaios (Companhia da Letras, 2018), de Eduardo Giannetti.
            O primeiro ensaio – que empresta o título ao livro – é magistral! Eis sua conclusão:

“Ao vira-lata repugna o culto da pureza em suas múltiplas manifestações: a raça pura; a lógica pura; a razão pura; a vontade pura (no sentido de um senso de dever categórico desligado de qualquer inclinação ou motivação pessoal de quem age, como no “lenho reto” da ética kantiana). Ao vira-lata repugna a noção de que o índice de valor de uma pessoa se define pela competência para ganhar dinheiro, pela astúcia em galgar postos de poder ou pela intransigente adesão a um credo de qualquer natureza.
O vira-la celebra os valores da amizade, do convívio e da amabilidade sem cálculos; a disponibilidade para desfrutar intensamente o memento; o prazer de sorrir e saudar a todos que com ela ou ele casualmente cruzam nas ruas; a eterna disposição de festejar e brincar, por mais tênue que seja (ou não) o pretexto; o doce sentimento da existência nos climas e ecopsicologias onde o mero existir é um prazer; a experimentação inovadora na arte da vida. Amor sem coleira, trabalho sem patrão. Para o vira-lata, “a alegria é a prova dos nove”.”

            Penso que estes dois parágrafos são suficientes para que o leitor possa apreciar o estilo e a elegância do texto de Giannetti. Talvez a maior de suas virtudes seja a de escrever com absoluta clareza, certamente porque ele sabe pensar claro.
            O livro é composto por 25 textos escritos entre 1989 e 2018, com temas os mais variados: O paradoxo do brasileiro, Por que ler Aristóteles hoje?, Um prefácio para Dom Casmurro, Leite derramado, A genialidade de Mozart, J. S. Bach: Partita II para violino solo, A riqueza e a pobreza das nações, entre outros.
            Leitura obrigatória!