quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

    Em meio à arrumação que a morte nos impõe, se pretendemos evoluir no doloroso processo do luto organizamos gavetas, caixas, armários. Quanta coisa guardada, meu deus!  E qual o propósito? Na tentativa de desocupar um móvel meio pesadão,  espaçoso demais (o André certamente diria que eu estava tentando me descartar dele próprio!?), encontrei um de seus inúmeros diários. Este chama a atenção pela letra caprichada, as datas lá estão. Reconheço alguns momentos, de outros não me lembro  e nem poderia porque essa é uma memória dele. Não sinto que estou invadindo, xeretando: o diário ficou aqui por quase trinta anos dentro de um armário e se hoje eu perguntasse a ele "o que é isso?" tenho quase que certeza da resposta "não faço a menor ideia". O que quero dizer é que esse diário há de ter servido naqueles tempos para uma reflexão sobre aqueles dias. Reflexão??? Palavrinha ruim essa na falta de outra melhor. Serviu para  pensar, exercitar a autocrítica e conversar de forma muito verdadeira consigo mesmo. Transcrevo aqui um trecho. A grafia e a pontuação são dele. O pequeno poema também, me corrijam se estiver enganada, mas procurei e não achei autor. Mesmo que haja penso que está bem a propósito.

23/12/1994: "Véspera de Natal. O cheiro de pêssego no ar, Bach, violino e contínuo. E uma Paz difícil de aceitar. Vontade de escrever ao irmão distante: nada dizer, a não ser da saudade, das lembranças mais queridas, de uma vida que passou.

Como tem passado a Vida!

Quanto ainda há de passar?

Água que corre

às vezes límpida

de riacho quase puro

às vezes turva

de enchente lamosa

transbordante

sem margens o rio da Vida."


domingo, 30 de outubro de 2022


 ARGENTINA 1985


    A Argentina viveu certamente a mais cruel e sangrenta das ditaduras modernas da América do Sul. Em nome do combate à grande ameaça do comunismo daqueles idos especialmente na década de  70 os mais atrozes crimes foram cometidos. Diferentemente de  nós brasileiros os argentinos já há um bom tempo tentam expurgar os excessos.

    O indefectível Ricardo Darín encarna no filme "Argentina 1985" o promotor Strassera que de forma inédita preside um tribunal civil que vai julgar os crimes perpetrados por grupo de militares das mais altas patentes. Há que convencer o povo, o cidadão comum que não acredita que todo o horror se passou sem que dele se apercebesse. Não viram ou preferiram não ver? Os relatos duros, difíceis não resvalam no sentimentalismo. Strassera é um destemido e o grupo de jovens promotores que o segue são incansáveis na procura por testemunhas, na reunião de provas, na demonstração de coragem. 

    As mães e agora avós da Praça de Maio continuam esperando uma resposta, um corpo, um atestado de óbito. Não desistem da luta contra a opressão e obscurantismo que pautou aqueles tempos. Strassera invoca uma frase da qual precisamos nos apropriar: "Nunca mais".


ARGENTINA 1985 disponível na plataforma  PRIME VÍDEO 

sábado, 8 de outubro de 2022

NOBEL DE LITERATURA 2022


    Neste ano de 2022 o prêmio Nobel de Literatura foi concedido à escritora francesa Annie Ernaux de quem tive conhecimento pouco tempo faz. E ainda que não tenha lido nenhum livro seu já me sinto muito interessada no que ela tem a dizer após ter assistido há algumas semanas o filme baseado em sua obra "L'evenement" disponível por aqui com o título "O acontecimento". Ela narra no livro que deu origem ao filme a saga de uma jovem mulher, no caso ela própria, que na década de  60 estuda  literatura para se tornar não professora como é esperado então, e sim escritora, e no entanto tem seus sonhos paralisados quando se vê às voltas com uma gravidez indesejada. No filme com  muita economia de sentimentalismos é impossível não se angustiar com a difícil jornada frente ao preconceito do meio  que a segrega e a muralha de regramento fundamentalmente machista que a impede de fazer um aborto. Em que pese a discordância de tantos em relação ao tema, não podemos ignorar a necessidade de olhar de perto o problema. E é isso que para mim o filme consegue fazer graças à escrita autobiográfica  dessa  autora nascida em 1940 na Normandia e a primeira  mulher  francesa a receber o Nobel de Literatura.
    Podemos entender o que ela defende quando no filme ao ser questionada por um professor a respeito da causa de seus repentinos insucessos escolares: "Você está doente?", "Tenho uma doença que só as mulheres tem e que as transforma em donas de casa." Annie Ernaux é feminista. Sua obra é construída sobre sua biografia, vinda de uma família modesta estuda com dificuldade encom sua arte ao dizer  "eu" está a falar de experiências comuns. Annie Ernaux pertence à categoria de mulheres muito necessárias nesse momento em que o conservadorismo tenta se apoderar de comportamentos, ideias e escolhas dos indivíduos. Seu livro mais recomendado é "Les années"  ("Os anos") de 2008 disponível no Brasil pela editora Fósforo.
    Recomendo muito o filme "O acontecimento" na HBO MAX.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

 O HOMEM IDEAL


    Nos habituamos o André e eu há muitos anos a assistir juntos a um ou dois filmes nos finais de semana. Alguns inesquecíveis e muitos umas verdadeiras patacoadas. Quando bons, tínhamos mote certo para longas conversas. Nas últimas semanas de vida do André sem querer arriscar perder tempo, passamos a rever bons filmes mais antigos: "As horas", "Fale com ela". O último filme que vimos juntos era um filme novo de 2021 que tem em português um título a meu ver pobre para o que é - "O homem ideal". Dirigido pela alemã Maria Schrader, tem como título original "Ich bin dein Mensch", que meu amigo alemão traduziu como em inglês "Eu sou o seu homem". Há meses após ler crítica elogiosa sobre o premiado filme aguardo seu lançamento nas plataformas de streaming, até que há pouco mais de um mês apareceu para alugar numa delas. O início é meio desconcertante, um pouco desconfortável. O expectador titubeia um pouco, mas segue. Ainda bem. Acompanhado por uma trilha sonora além do impecável o filme é de uma delicadeza que alguns certamente atribuirão à condução feminina da trama, eu penso que ela vem simplesmente celebrar o tema tratado: o que é SER humano e estar aberto ao amor.

    Sem entrar em detalhes para não dar spoiler, até porque as sinopses falam disso, a protagonista aceita participar de um experimento no qual vai conviver por alguns dias com um robô, um androide ou como se queira designar uma máquina em formato de homem, desenhado para atender a todos os seus desejos, necessidades e fantasias, devendo ao final fazer um relatório recomendando ou não a experiência. A ação se passa numa Berlim moderna, mas nada a ver com o cenário futurista de filmes semelhantes (quem se lembrou de Blade Runner pode tratar de esquecer). O homem ideal quer agradar com cuidadinhos, flores, champagne e sexo, por que não? No entanto esse ser humanoide não é de modo algum desprovido de senso crítico, ele observa os humanos com curiosidade e algum sarcasmo. Nada lhe escapa. Pensará a máquina no que está fazendo num mundo desses? Ele é aceito naturalmente pelos animais e se espanta com a falta de empatia dos humanos.

    E o que parecia uma experiência fácil para uma mulher já madura, uma cientista especialista em escrita cuneiforme tradutora de acádio, transforma-se numa armadilha na qual ela é forçada a olhar de frente os sonhos que foram desfeitos, frustrações que a vida amorosa e profissional nos impõem, a decrepitude e fragilidade da velhice, a morte, a inveja da felicidade alheia. E se de repente nada mais disso acontecesse? E se a imprevisibilidade da vida se extinguisse? Seríamos então destituídos do que nos faz humanos, transformados em autômatos perderíamos a capacidade extraordinária que temos de aprender a lidar com as perdas, encontrar consolo para esperanças frustradas, usar como se diz na psicanálise os recursos da mente. O resto fica por conta de quem se interesse por assistir.

    A atriz principal Maren Eggert tem uma beleza sem adornos e uma atuação maravilhosa que lhe rendeu o Urso de Prata no Festival de Berlim 2021. Já seu par Dan Stevens consegue compor um personagem que não é humano mas que nos comove ao expor ao longo do filme atitudes do homem que muitas mulheres desejam. A diretora Maria Schrader já é conhecida do público brasileiro pela impressionante minissérie exibida em plataforma de streaming "Nada ortodoxa" que trata da fuga de uma jovem da comunidade judaica ortodoxa de Nova Iorque.

    O homem ideal tem apenas uma característica que nos tempos atuais invejo: não morre nunca. Até a última vez que pude conversar com o André repeti para ele: queria muito que você fosse o homem ideal. Dávamos juntos uma risadinha triste sempre que eu falava isso. O homem ideal não existe. 




Disponível para aluguel na Apple TV ou para os assinantes Prime da Amazon

   

sábado, 13 de agosto de 2022

O LUTO E A TORTA DE MAÇÃ

 

            O luto é o tempo da saudade, das lembranças, da solidão, do remorso, por vezes do desespero. A mente retorna à experiência de uma vida muito compartilhada numa conversação aberta, fértil troca de ideias e pensamentos expostos sem censura. Um ou outro desejo silenciado. É essa a tessitura da convivência harmônica. A vida transcorreu como se as ameaças cotidianas fossem unicamente vislumbres de um futuro muito, muito distante. Mas elas estavam lá sempre à espreita.

            Remorso não tenho das palavras atravessadas, do que poderia ter sido dito, de desculpas nunca verbalizadas. Não almejando a perfeição fui até onde consegui. O que me mortifica são as tortas de maçã que deixei de fazer. Numa gaveta da geladeira ficaram cinco maçãs verdes à espera de uma torta que foi sendo adiada. Foram ficando. O desinteresse pela vida contagia. Cozinhar para que? Qual é mesmo o sentido de acordar de manhã, se arrumar para o trabalho, tomar café (que difícil que desce esse café!), dirigir até o trabalho, escutar histórias banais tidas como trágicas, escutar histórias trágicas e prescrever um analgésico para dor de garganta? Então é disso que se trata estar vivo? É!

Hoje celebramos o dia dos pais com três pais ausentes: dois mortos e um distante. Todos muito importantes para as quatro filhas que aqui estamos. Cada um a seu modo absolutamente insubstituível como é natural que seja. Hoje a torta de maçã foi ao forno e sem falsa modéstia estava perfeita. Não poderei jamais e nem quero saber se minimamente se aproximou daquela feita pela mãe, aquela da memória afetiva. Por vezes tentei inovar: sem tampa, com creme de gemas, tarte tatin. Nenhuma convenceu: “eu gosto de torta com recheio massa em cima e em baixo.” Para os entendidos está dito. Que arrogância que é tentar competir com mãe! 

Gostava muito que você estivesse aqui comendo essa torta que foi feita para você, André. Servi um vinho italiano no almoço, fiz um churrasco de bife ancho muito bom, tomates, cebolas e abobrinhas assados na brasa como você gostava! E preciso contar que a Gabi está linda com o cabelo cortado curto e pintado de ruivo. Está a cara da Shirley MacLaine quando muito jovem, mas não pode falar que ela fica encabulada. As meninas estão com saudades e eu também. “Com açúcar e com afeto..."

domingo, 3 de julho de 2022

A Morte e o pequeno cão

 


 

 

À hora do repouso noturno deitou-se com seu pequeno cão que, como de costume, se acomodou ao pé do leito. Ao lado jazia a Morte, com sua presença quase física, paciente silenciosa determinada.

          Naquele estado de semiconsciência, do lugar mais secreto de sua alma, aflorou nítido o pensamento:

          – Eis o sentimento da mais profunda solidão. 

          Passados alguns segundos o cão despertou, caminhou pelo leito e se aninhou em seu peito. 

          Sem pedir licença, a Morte se fastou, ciente de que fora apenas uma batalha perdida. Levou consigo a Solidão!

 

segunda-feira, 27 de junho de 2022