segunda-feira, 16 de julho de 2018

Fotoabstração N.47





Foto: AVianna, jul 2018.

Coqueiro

fotominimalismo





Foto: Paulo Sergio Viana, jul 2018.

Aprender e ensinar


Ruy Castro alerta: “Brasil corre o risco de, em breve, não ter professores para suas crianças.” (Aprender e Ensinar, Folha de S. Paulo, 16.jul.2018).
Apenas 2,4% dos jovens brasileiros pensam em se tornar professores (há 10 anos essa percentagem era de 7,5%.).  
Afirma Ruy Castro: “Os motivos para tal desinteresse são conhecidos. Ser professor, em certas áreas das cidades, equivale hoje à possibilidade de, a qualquer momento, apanhar na cara. Não há respeito por parte da classe. Alunos dominam a sala, ignoram a presença do mestre, passam a aula ao celular e, se forem do ensino privado, sabem que têm imunidades junto à diretoria —esta nunca correrá o risco de perder uma matrícula.  Outros motivos para o desinteresse pela profissão são os baixos salários e a falta de reconhecimento social. O piso fixado pelo MEC para professores que dão 40 horas semanais é de R$ 2.455,35.”
O quadro é desanimador. Perspectiva de melhora é nula a curto e médio prazos. Enquanto isso o país patina na lama da corrupção. 
O cronista encerra com melancólica constatação: “E eu que, inocente, sempre achei que só havia uma coisa mais bonita que aprender — ensinar.”   






sábado, 14 de julho de 2018

Lei Castilho


“Primeiro marco legal sobre formação de leitores no Brasil, Lei Castilho é sancionada.
A nova Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE) faz história ao instituir política de Estado de longo prazo.”

Esta é a espantosa manchete do artigo de Guilherme Sobota, para O Estado de S. Paulo (13 Jul 2018), pois foi sancionado nesta sexta-feira-13, o primeiro marco legal da história do Brasil voltado para a formação de leitores. 
“A Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE), que ficou conhecida como Lei Castilho, foi assinada pelo presidente Michel Temer e publicada no Diário Oficial da União, como Lei n.º 13.696, de 12 de julho de 2018. Fruto de um trabalho de décadas, a Lei é uma “estratégia permanente para promover o livro, a leitura, a escrita, a literatura e as bibliotecas de acesso público no Brasil”. 
Entre as diretrizes da nova legislação, está “o reconhecimento da leitura e da escrita como um direito, a fim de possibilitar a todos, inclusive por meio de políticas de estímulo à leitura, as condições para exercer plenamente a cidadania, para viver uma vida digna e para contribuir com a construção de uma sociedade mais justa”. 
“A Lei deve ser implementada pelos Ministérios da Educação e da Cultura, em conjunto com estados e municípios, e prevê a criação, a cada 10 anos, de um Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) com metas estabelecidas a partir dos objetivos do novo texto.”
“É o primeiro marco legal”, explica José Castilho Marques Neto, principal formulador do novo texto e líder político no longo processo de diálogo com setores da educação, da cadeia do livro e do governo. “Estamos falando de direito à leitura. É a melhor produção legal no sentido de emancipação cultural das pessoas no Brasil”. 
            
Bom demais para ser verdade?



Manoelito, meu amigo

Da série
Mais 47 cenas de um romance familiar


            Marcelo era colega de ginásio, morávamos a meio quarteirão de distância e jogávamos bola quase que diariamente, mas meu amigo mesmo era o pai dele, Manoelito, de nome Manoel Meirelles Freire, filho de ilustre cidadão de Guaratinguetá, cuja memória permanecia reverenciada pela cidade, Dr. Meirelles, médico de reconhecida dedicação, especialmente aos mais pobres.
            Manoelito possuía fazenda ao pé da serra da Mantiqueira, outrora fazenda de café, o que rendeu proventos suficientes para a construção de um casarão na fazenda e confortável casa na cidade. Passada a fase do café as terras foram ocupadas pela pecuária, o município conhecido como o maior produtor de leite do país.
            Nesse casarão passei um mês de férias, aos 12 anos de idade, completamente desligado de minha família – nem telefone havia –, acolhido pelo amigo Manoelito, sua esposa Dona Isis e o colega Marcelo, e foi lá que sucedeu o extraordinário acontecimento que passo a relatar, tantos anos transcorridos, na esperança de que não me venha trair a memória já enfraquecida. 
Havia também a outra filha do casal, irmã mais nova de Marcelo, de nome Maria Helena, mimada grosseira emburrada, enfim, chatíssima, sempre pronta para uma desfeita. Menino ainda, resolvi enfrentar a fera em troca das aventuras na fazenda.
            Em frente ao casarão havia um belo gramado, ótimo para um bate-bola; a porteira era o gol. Marcelo e eu revezávamos nos chutes, com bola de couro oficial. Bom mesmo eram os passeios a cavalo. Por deferência que nunca pude compreender, cabia-me montar na melhor égua da fazenda, de nome Soda, enorme linda toda branca esperta e mansa, égua marchadora. Aprendi a cavalgar de verdade, colocar o arreio, primeiro o baixeiro, depois a sela, apertar bem a barrigueira – questão de segurança para o cavaleiro –, subindo e descendo a serra, atravessando riachos, saltando valetas, até ficar amigo de Soda, a melhor montaria da fazenda, e que também passou a conhecer o pequeno cavaleiro.
            Manoelito era homem de pouca conversa, o que aprendi a admirar, relação que guardei para toda a vida, e o significado da palavra amizade. Tratava-me com tanto silencioso carinho que despertava ciúmes no filho, meu colega Marcelo (também meus pais sentiam ciúme de minha relação com Manoelito). À noite era preciso passar breu na correia do gerador – a eletricidade da fazenda vinha de roda d’água ligada por uma polia de couro ao gerador –, e lá íamos nós, Manoelito e eu, à parca luz de uma lanterna, em silêncio, é claro, no breu da noite, eu sentindo o calor daquela amizade incomum entre menino e homem bem mais velho, pai do colega, que não se comunicava por palavras, mas se fazia entender perfeitamente através do afeto. Foi a primeira vez que soube mesmo o que era afeto, embora ainda desconhecesse esta palavra. Havia tão somente o sentimento, que bastava.
            As refeições na fazenda marcavam momentos especiais, todos à mesa, Manoelito na cabeceira, comida de fogão-à-lenha, saborosíssima, preparada por Dulce, negra velha praticamente membro da família, os bons modos prevalecendo, todos respeitadores cerimoniosos, eu quase sempre em silêncio. (Os preceitos da boa educação me foram ensinados por minha mãe.)
            Às tantas, Manoelito organizou o que para mim pareceu-me um regalo em minha homenagem: cavalgada até o topo da serra, onde pernoitaríamos na cabana de um velho amigo dele. Foram dois ou três dias de preparativos, os mantimentos, as roupas de frio, cobertores, a tropa organizada por Zé Bento, velho capataz da fazenda e conhecedor de trilhas, escolhidas as melhores montarias, Soda era minha, naturalmente. 
            Zé Bento era uma das atrações da fazenda. Morava num pequeno casebre ao lado do casarão, o interior enegrecido pela fumaça do fogão-à-lenha, queimando por toda uma existência; no minúsculo quarto de dormir uma enxerga de palha e um velho cobertor; dois tocos de madeira que faziam as vezes de cadeiras na cozinha eram os lugares prediletos dos meninos – na brasa do fogão havia sempre milho ou mandioca assados –, atentos às histórias de Zé Bento. 
A excitação do menino na véspera da partida resultou em noite insone, na expectativa da maior aventura até então vivida. E a grande aventura terminou em monumental decepção. O dia amanheceu nublado, a Mantiqueira encoberta por espessas nuvens, o passeio cancelado. Lembro-me bem, não pronunciei uma única palavra, obediente ao vaticínio de Manoelito, Não se pode subir a serra com esse tempo. Estava decretada a palavra final. Naquela época eu já sabia o que era frustração, mas doeu.
            Passaram-se os dias. Maria Helena chatíssima como sempre, coitada, acabou sendo injustamente responsabilizada (internamente) pela estranha decisão que de repente tomei – o extraordinário acontecimento daquelas férias! Eu mesmo mal podia compreender: queria porque queria voltar para casa. Precisava voltar para casa. Faltavam poucos dias para o término das férias, quando todos retornaríamos à cidade, o que fazia de minha atitude algo ainda mais incompreensível. (Não aguento mais essa Maria Helena, ruminava eu.) Mas precisava voltar naquele dia, bati o pé, eu que não era disso, silencioso e obediente, comportadíssimo quase sempre, seguidor dos preceitos de minha mãe.
            Tamanha era minha determinação que Manoelito resolveu me botar no caminhão do leite que passava todas as tardes pela fazenda rumo à cidade. E assim procedeu, para espanto e apreensão de toda a família. (Talvez ele soubesse.)
            Não me lembro em que lugar da cidade me deixou o caminhão do leite. Cheguei à noite em casa, entrei sem tocar a campainha. Estavam todos à mesa, hora do jantar, meu pai, minha mãe, meu irmão Paulo e minha irmã pequena, Maria Helena. Receberam-me quase que em silêncio, sem qualquer manifestação de júbilo, nada de saudade, nenhum abraço. Apenas minha mãe teceu o curto comentário, Eu sabia que você viria para o aniversário de seu pai.
            Eu não sabia, era mesmo aniversário de meu pai. Sentei-me à mesa e comi com minha família. (Nunca falamos sobre o ocorrido; para todos os efeitos, voltei naquele dia porque era aniversário de meu pai.)
Ao final do jantar, outra observação de minha mãe, Nossa, o André mudou de voz!  
Verdade, o silêncio e o afeto de Manoelito deram-me voz de homem. 



Foto tirada 40 anos após o relato acima, quando de minha visita a Guaratinguetá e à fazenda, meu amigo Manoelito já bem idoso, em frente ao casarão.            

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Cine-olho

“Na trilha da homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a poeta Hilda Hilst, o EL PAÍS entra em sua terceira semana de corrente lírica. Agora, Risério escolhe Cine-Olho, de Ricardo Aleixo. O texto do autor mineiro está no livro A Roda do Mundo, de 1996. Artista múltiplo, Aleixo é conhecido por fazer apresentações intermídia em que mescla som, imagem e leitura. Ao final, há um vídeo do poema apresentado pelo escritor no Itaú Cultural, em São Paulo.”


Cine-olho


Um
menino
não.
Era
mais um
felino,
um
Exu
afelinado
chispando
entre
os
carros
-
um
ponto
riscado
a
laser
na
noite
de
rua
cheia
-
ali
para
os
lados
do
Mercado


Ricardo Aleixo, nascido em 1960, é mineiro de Belo Horizonte. É artista e pesquisador intermídia. Desenvolve projetos que cruzam entrecruzam poesia, música, design sonoro, dança, teatro, vídeo e artes gráficas. Já fez performances em todo o Brasil e em países como Alemanha, Portugal, França, EUA, México, Espanha e Suíça, entre outros. Lançou, pela editora Todavia (2018) a antologia Pesado demais para a ventania, que reúne poemas de todos os títulos que publicou desde 1992, quando estreou com Festim(edição independente).





quinta-feira, 12 de julho de 2018

NY em perspectiva




Foto: Mercêdes Fabiana, jun 2018.


Fotoabstração N.46





Foto: AVianna, jul 2018.

Olhar

fotominimalismo





Foto: AVianna, jul 2018.

Tomate-cereja mais doce e nutritivo



“Um tomate-cereja com teores mais elevados de açúcar e licopeno e com resistência natural a doenças foi desenvolvido por uma equipe de pesquisadores da Embrapa.
Produzido a partir de métodos convencionais de melhoramento genético – a variedade não é transgênica –, ele é resultado de uma pesquisa iniciada em 2007.
O tomatinho híbrido, além de muito doce, apresenta alto teor de licopeno sem alteração no paladar.”
            A reportagem é de Marcelo Toledo para a Folha (12 jul 2018). 
Os teores de ácidos e açúcares são balanceados e ele apresenta firmeza e textura crocante, além de coloração intensa. 
“Conforme a Embrapa Hortaliças, o custo das sementes é cerca de 30% mais baixo.
Para se chegar a esse tomate, os pesquisadores usaram técnicas de melhoramento convencionais que envolveram cruzamentos entre linhagens. O tomate já é cultivado em São Paulo, Paraná, Bahia, Ceará e Goiás, além do Distrito Federal, e é resistente a pragas como pinta-bacteriana, requeima e oídio (impede a fotossíntese), além de tolerante à mancha bacteriana e viroses.”