sábado, 9 de março de 2019

Na Espanha as maiores manifestações

A foto do dia


375 mil pessoas nas manifestações de Madri
no Dia Internacional da Mulher


Foto: Fernando Villar / EFE
Charge do dia (tirinha)


Este cão sou eu!


Saramago perde a carteira




Numa postagem anterior a esta, sob o título A chegada, (http://loucoporcachorros.blogspot.com/2019/03/a-chegada.html), tratei de assunto corriqueiro, prosaico, banal, que foi perder-me em um estacionamento de aeroporto, certo de que me haviam roubado o carro, quando da visita de meu amado irmão. A intenção era confirmar a ideia de que qualquer assunto serve para uma crônica. O que varia é a arte do escrevinhador.
            Havia lido dois dias antes, no Último caderno de Lanzarote, de José Saramago Companhia das Letras, 2018), texto interessantíssimo do nosso Nobel, relatando a terrível experiência de esquecer a carteira numa cabine telefônica e perdê-la. Terrível porém corriqueira, prosaica, banal, e Saramago aproveita-se dela para escrever delicioso texto, repleto de humor fino, a erigir até mesmo uma estátua da Desolação.  
            Isso é saber escrever!
            Vamos a um trecho do diário de 13 de fevereiro de 1998.

“Restava-me agora aguardar tranquilamente que acabasse de se organizar a caravana de autocarros que transportaria os passageiros a Corralejo, de onde o barco da carreira me devolveria a Lanzarote. A tranquilidade, porém, não durou muito, a alma caiu-me desamparada aos pés. Tinha deixado na cabina telefônica a carteira em que guardo os documentos de viagem, passaporte, bilhetes, cartões de companhias aéreas, cartões para chamadas, algum dinheiro... Não era a primeira vez que me acontecia uma destas nem iria ser com certeza a última. Extraio meticulosamente a carteira da mala de mão, coloco-a direitinha na prateleira da cabina, mesmo diante do nariz, não vá a má sorte fazer com que me esqueça, enfio o cartão na ranhura, marco o número, falo, ouço, termino a chamada, e depois (se não o deixei lá...) retiro o cartão e vou aos meus outros afazeres como se nada de anormal tivesse sucedido, abandonado os preciosos salvo-condutos à curiosidade ou à cobiça do primeiro que apareça. Levantei a alma do chão e corri à cabina como um desesperado, mas a carteira desaparecera. Suponho que quem reparasse em mim naquele momento pensaria que a administração do aeroporto de Fuerteventura decidira erigir uma estátua representando a Desolação, inspirada, talvez, no conhecido abatimento do passageiro frustrado que perdeu o voo no último minuto. Eu não perdera o voo, perdera a carteira, e entre perdê-lo a ele e perdê-la a ela, viesse o diabo e escolhesse.”

Peço encarecidamente ao leitor que não faça qualquer comparação entre as duas postagens: impossível alguém escrever frase mais linda que “a alma caiu-me desamparada aos pés”.

P.S.: A carteira foi encontrada pela mulher da limpeza e devolvida intacta ao ilustre proprietário.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Mangueira e Marielle

A foto do dia



Não consegui até agora identificar o autor.

A chegada


De antemão posso assegurar ao meu eventual leitor que os acontecimentos que passo a narrar são absolutamente verídicos e isentos de qualquer dose de ficção e que esta afirmação é endereçada principalmente a mim mesmo pois custo a acreditar no ocorrido tanto mais ele me retorna à mente – uma lembrança recorrente de quem parece recusar-se a encarar a verdade.
            Meu irmão, e aí reside a chave do problema – trata-se do meu irmão –, chegaria de São Paulo às onze e trinta da noite de uma sexta-feira para passar conosco o fim de semana. Minha agitação começou há duas semanas, de modo que um tempão antes da hora marcada já me encontrava no aeroporto, de olho no painel Arrivals
            E o painel anunciou a confirmação da chegada dentro do horário previsto!
            Tudo bem, agora é esperar, mas eu não conseguia tirar os olhos da porta de desembarque, dos passageiros que chegavam em voos anteriores. Meu olhar desviava-se alternadamente dos passageiros que cruzavam o portão para o painel que marcava a chegada dos voos e ao relógio do meu celular. No painel, o voo do irmão sempre CONFIRMADO. Mesmo assim, minha ansiedade aumentava a cada minuto.
            Landed. Pronto, pousou, agora o olhar não mais se desvia do portão de desembarque, cada face que passa é escrutinada pelo meu complexo retina-cérebro, o coração acelera, a respiração ofegante, a impressão é que aquele desfile de rostos desconhecidos não acaba mais, até que reconheço o irmão. Nos abraçamos efusivamente.
            A primeira conversa é sempre a mesma, O voo chegou cinco minutos adiantado, Então foi bom eu chegar mais cedo, A que horas chegou?, Há quinze minutos (mentira), Ótimo voo, Cansado?, Nada, Deixa eu pagar o estacionamento, mas antes preciso avisar em casa que você chegou, para que o bacalhau vá para o forno.
            E passo a procurar um caixa eletrônico para o pagamento. O primeiro, fora de serviço; o segundo funcionando, lugar escuro, quase meia-noite, leio as instruções com certa dificuldade, coloco o cartão do estacionamento, depois o meu cartão de crédito, senha, sai o comprovante, retiro meu cartão de crédito e vamos embora.
            Então a saga tem início. Andamos quase até o fim do estacionamento e nada de encontrar o carro. Olho de um lado, olho de outro, ando pra-lá-e-pra-cá, encontro-me numa área praticamente deserta, não vejo meu carro e nenhum outro carro, sensação estranha, não sei onde estou, estou perdido, quase pânico, ROUBARAM MEU CARRO!  
Tive a impressão de que o irmão não se impressionou com a retumbante frase, não se abalou nem um pouquinho, como quem não acreditasse no que estava ouvindo, e isso me afetou. Talvez o carro esteja aqui, eu é que não o encontro, pensei, e meu irmão já sabe disso, pensamento que me acalmou. (Liguei para avisar que íamos nos atrasar para o jantar.) Então pude analisar com mais calma a topografia do enorme estacionamento de aeroporto e percebi que estava no lugar errado. (O irmão colocou a mochila no chão e permaneceu calmo imóvel impassível durante todo esse tempo.)
            Ufa! Encontrei o carro. Bagagem no porta-malas, nos acomodamos aliviados, dei a partida em direção à saída, não sem antes ligar para casa e avisar minha mulher que agora estávamos saindo do aeroporto. Parado em frente à cancela, onde o cartão do estacionamento? PERDI O CARTÃO DE ESTACIONAMENTO. PUTA-QUE-O-PARIU!
            Confesso, estava à beira de um surto psicótico. Havia também o constrangimento de obrigar o irmão a passar por todo aquele vexame. A vontade era de arremessar o carro contra a cancela, arrebentá-la, ir para casa, terminar com aquele suplício. Uma câmera bem postada dizia-me que aquela era outra má ideia.
            Procurei o guichê onde havia um funcionário com quem pudesse conversar, expliquei o caso, a senhora que me atendeu pediu documentos, identidade, carteira de motorista – parecia coisa séria –, paguei multa, recebi outro cartão para a saída, liguei de novo para casa para avisar que houve um contratempo, mas que chegaríamos em breve. (O irmão aventou a hipótese de que o cartão do estacionamento ficara esquecido na máquina de pagamento eletrônico, hipótese tão provável quanto inútil naquele momento, atestando apenas mais uma falha de minha memória.) A esta altura eu estava exausto e meu irmão visivelmente espantado com tamanha confusão. Sobre o que pensou sobre tamanho desvario, jamais me disse.
            Em pouco mais de meia hora estávamos jantando a ótima comida preparada por minha mulher, acompanhada de um bom tinto, e pouco se falou sobre o acontecido, que não me sai da cabeça decorrido mais de ano. Uma lembrança recorrente de quem parece recusar-se a encarar a verdade? Medo do tal alemão? Quem sabe este registro – mais uma vez a escrita terapêutica! – possa aliviar o pesadelo.
            

Lei boa

Charge do dia



Vacina e autismo


Por mais absurdo que pareça, ainda se discute a ocorrência de possíveis efeitos colaterais das vacinas, como o autismo.
A tese de que a vacina contra a rubéola, caxumba e sarampo, conhecida como tríplice viral, provoca o autismo surgiu após a publicação de um artigo de Andrew Wakefield, em 1998, no The Lancet. O boato persiste até hoje.
Daí a importância do recente estudo desenvolvido na Dinamarca, envolvendo 600.000 crianças e publicado nesta segunda-feira no Annals of Internal Medicine, como mostra El País de hoje (6 mar 2019), por Carolina Garcia, com o título Vacinas não causam autismo: o mais amplo estudo do tema sai na Dinamarca. 
Os pesquisadores “estudaram as características das crianças e o tempo decorrido desde a vacinação, um total de 657.461 nascidos na Dinamarca de 1999 a 2010, e as acompanharam desde o primeiro ano de vida até agosto de 2013. 
Em todos os casos se avaliou se as crianças foram vacinadas, se tinham sido diagnosticadas com autismo, se havia algum membro da família com esse transtorno neurobiológica ou algum outro fator de risco para o autismo. No total, foram avaliadas mais de cinco milhões de pessoas, das quais apenas 6.517 crianças foram diagnosticadas com a incidência de autismo, dizem os autores, ou seja, 129,7 para cada 100.000 habitantes. 
Não se observou nenhuma diferença entre as crianças vacinadas e as que não eram, e não se verificou nenhum risco adicional para padecer de TEA entre os vacinados.”
“Nossa conclusão é que a vacina tríplice viral não aumenta o risco de sofrer de autismo".
A óptica dos grandes números tem força para estabelecer a verdade. 



terça-feira, 5 de março de 2019

Bom uso do palavrão


Em sua crônica de hoje para a Folha de S.Paulo (5.mar.2019), Qual crime?, Hélio Schwartsman aproveita o desmoronamento da barragem em Brumadinho para fazer a distinção entre homicídio culposo e homicídio doloso.
Escreve ainda sobre a figura do dolo eventual, “que ocorre quando o acusado, embora não desejasse a morte da vítima, assume o risco de causá-la, revelando verdadeiro desprezo por sua vida”. Ao explicar a diferença entre dolo eventual e culpa consciente, Schwartsman utiliza-se do palavrão, pelo que pede desculpas antecipadamente.
            Eis o excelente parágrafo do articulista:

“Imagine um cidadão de bem, armado, que quer dar um susto no ladrão, atirando em sua direção. Se ele tem consciência de que pode acertar um órgão vital e matar o bandido, mas diz "foda-se" e atira, temos dolo eventual. Se, ao contrário, depois de atirar e matar o gatuno ele exclamar "fodeu", ocorre a culpa consciente. Brumadinho parece mais um caso de "fodeu" do que de "foda-se".”

            A palavra em questão não tem uso corrente nos principais jornais do país, todos com seu Manual de Instruções aos respectivos jornalistas. Schwartsman tem autoridade moral para registrá-la, e o faz com propriedade.
            Repito uma pequena história pessoal, que me marcou para a vida inteira. Tive ótimo professor de português no ginásio e científico (era assim que se chamava, naqueles idos de 50), tratado por Seu Afonso, e que dizia enfático, As palavras são criadas para serem usadas adequadamente, uma bela menina possui lábios, mas o demônio tem beiço.
            O foda-se do Schwartsman é para a vida toda.
            



segunda-feira, 4 de março de 2019

O susto de Suzete


Meu querido André,

como você demora a me escrever, escrevo eu, mesmo que não tenha grandes novidades para contar. 
Não escrevo sobre política pois sei que você está bem mais atualizado do que eu, nesse nosso país da piada pronta, como diz o José Simão. Mas escrevo quando tenho um caso para contar, aí sim, com prazer redobrado relato o acontecido no salão, ah! sempre o salão, com gente que senta na minha cadeira, onde só corto cabelo de homem. (Outro dia recebi um e-mail de um leitor de seu blog, dizendo que eu repito muito esse negócio de “só cortar cabelo de homem”, está bem, todos já entenderam isso, que não preciso ficar repetindo repetindo repetindo, mas o que posso fazer se esta é a minha marca registrada?) Sem mais delongas (nunca pensei que um dia escreveria esta palavra!), vamos ao caso.
Há poucos dias sentou-se em minha cadeira homem perto dos 40, bonito, porte atlético, pediu o corte da moda, máquina zero nas laterais, deixando o cabelo curto até a nuca. Meu trabalho já ia pela metade quando de repente o homem, Bráulio seu nome, saiu-se com essa:
– Você sabe que a Terra é plana?
Putaqueopariu André, levei um susto danado, certa de que estava cortando cabelo de um maluco.
– Como? retruquei.
– Você nunca ouviu falar nos terraplanistas?
            – Terra-o-quê?
            – Terraplanistas. Sou um deles. Nós não acreditamos nessa bobagem difundida pela mídia oportunista reacionária conservadora que prega que a Terra é redonda. Onde já se viu? Eu acredito no que vejo, e vejo a Terra bem planinha; você já viu essas plantações de algodão soja milho cana feijão arroz café, todas a perder de vista, uma planura só, já viu? Pois é, como a Terra pode ser redonda, me diga?
            André, eu não sabia o que dizer, se ria ou se chorava, Bráulio falava com tamanha convicção, não havia espaço para diálogo, muito menos contradição. E ele continuou com a ladainha, com sua epanástrofe cansativa, eu parada com pente e tesoura nas mãos, besta de tudo.
            – E onde o senhor aprendeu isso, Seu Bráulio?
            – No YouTube, naturalmente! Está tudo lá, é só você procurar. Tudo provado e comprovado, a Terra é, e sempre foi, PLANA. E nós, os terraplanistas, estamos planejando uma viagem para o lugar onde a Terra termina.
            Arrisquei mais uma intervenção:
            – Mas o que pensar das fotografias enviadas por satélites, pelas naves ocupadas por astronautas, mostrando a terra azul e redonda?
            – Tudo conspiração de uma mídia manipuladora. Está tudo lá, a verdade, no YouTube. São os terraplanistas que afirmam e provam: a Terra é plana!
            André, não abri mais a boca, terminei logo o serviço, o homem elogiou o corte, levantou-se e se despediu enfaticamente:
– Vá ao YouTube, está tudo lá, ciência pura, junte-se a nós, porque a Terra é plana.
Você não vai acreditar, meu amigo. Ao chegar em casa abri meu computador e fui direto ao YouTube, onde encontrei milhares de notícias, vídeos, prós e contras a ideia da Terra Plana, uma discussão sem fim, e eu nunca tinha ouvido falar dessa estultícia. 
Pergunto a você, que sabe das coisas, que mundo é esse em que vivemos? Se tem gente duvidando até da redondeza da Terra, em que então podemos acreditar? Mídia manipuladora, é isso mesmo?
Bem, eis o caso que desejava contar.
Espero sua resposta em breve.

Da sempre sua,
                                               Suzete.


P.S.: Gostou da epanástrofe? Aprendi isso, usar palavras dicionarizadas mas que não são de uso comum, com o Evandro Affonso Ferreira, de quem você é fã.

sábado, 2 de março de 2019

Pedro Salomão, palhaço e poeta




O vento da liberdade bateu tão forte em minha bandeira,
que ela voou
e virou passarinho.

* * * 
A pessoa que se acha grandiosa
olhou pouco para o céu.


* * *
Eu sou um louco das palavras.
Só me falta literatura para ser poeta.
Não a quero, muito obrigado,
me deixe sangrar. 


* * *

Para construir a casa que tenho construído em mim,
eu precisei passar um longo período limpando
o terreno baldio
em que minha alma se encontrava.
Foram muitas carriolas de entulho jogado fora.
Como está sua construção?

ps. Meus amigos me ajudaram muito.



            A poesia acima é de Pedro Salomão, formado em Geografia, participante de um grupo de palhaços no Hospital do Câncer de Presidente Prudente em 2017.
            O título do seu livro (Ed. Planeta, 2018) chama a atenção: 

eu tenho
sérios
poemas
mentais
            
Também é instigante a espécie de introdução intitulada UMA CRISE A MENOS, UMA CRISE A MAIS, que reproduzo parcialmente.  

“Antes de mais nada, eu gostaria de pedir licença ao seu coração, pois sinto que a relação que vamos criar a partir de agora é muito forte. Eu escrevi neste livro poesias sobre os lugares mais íntimos em mim, aqueles lugares tão profundos que até eu mesmo só consigo visitar às vezes... Estou me apresentando para você como sou, sem rosto, sem voz e sem cheiro. Apenas ideias. E tudo o que sou são ideias.”

            Concluo esta apresentação com mais dois poemas:

A minha insegurança é tanta,
que quando tenho uma boa ideia
não consigo sentir o mérito,
sinto que copiei a ideia de alguém
que mora dentro de mim.


* * *

Eu estou o tempo todo escrevendo.
Mas só às vezes
passo para o papel.


Por fim, uma bela capa, que impressiona pela simplicidade, de autoria de André Stefanini. Gostei muito do livro de Pedro Salomão, principalmente por se tratar de mais um exemplo da Teoria da Escrita Terapêutica.