terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Poema


A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.
        
         Manoel de Barros
In Tratado geral das grandezas do ínfimo

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Cannabis e surto psicótico



Estudos mostram provável elo entre o uso da cannabis e a esquizofrenia em pessoas com predisposição genética 
Foto: Carlos Osorio/Reuters


“Uso de cannabis de 'alta potência' pode desencadear surto psicótico. Segundo especialistas, os riscos são para adolescentes e jovens que fazem uso de maconha e possuem histórico familiar de distúrbios mentais.” A reportagem é de Benedict Carey, para The New York Times (11 Fev 2019).
Prossegue a reportagem: “Legisladores e médicos estão cada vez mais preocupados com os perigos da maconha. Especialistas diferenciam entre a "nova cannabis" – legalizada, altamente potente, disponível sob a forma de produtos comestíveis ou em vaporizadores – e a versão antiga, uma erva mais fraca. Faz pelo menos três décadas que os níveis do THC, elemento químico responsável pelo efeito da maconha, estão aumentando.” 
Preocupa a todos o uso contínuo da erva e o surgimento de psicose entre os jovens, pois há 70 anos as evidências se acumulam. “No livro “Tell Your Children” [Conte aos seus filhos], o autor Alex Berenson, que já foi repórter do New York Times, argumenta que a legalização está expondo uma geração inteira a um elevado risco de esquizofrenia e outras síndromes psicóticas.”
“Há evidências circunstanciais de um mecanismo biológico por meio do qual o uso da cannabis poderia causar um distúrbio psicótico, episódios que tendem a ocorrer no fim da adolescência e início da vida adulta, durante ou após um período de rápido desenvolvimento do cérebro.”
“Durante a adolescência, o cérebro desfaz algumas conexões desnecessárias entre os neurônios do córtex pré-frontal - onde ocorrem o pensamento e o planejamento - e a região que é perturbada pelos distúrbios psicóticos. A região é rica em receptores CB1, envolvidos nessa "poda" e estimulados pelo uso da cannabis. Alterações no processo de poda podem aumentar o risco de esquizofrenia, de acordo com pesquisas recentes.”  
Parece que o histórico familiar de distúrbios psicóticos tem papel muito mais preponderante que qualquer efeito causado pelo uso da cannabis. Um estudo de 2014 indicou um maior risco de esquizofrenia entre pessoas com histórico familiar desse distúrbio, independentemente do uso da Cannabis. 
"Meu estudo mostra claramente que a cannabis não causa, sozinha, a esquizofrenia", disse a Dra. Lynn E. DeLisi, da Faculdade de Medicina de Harvard. "Na verdade, é necessária uma predisposição genética." Ela acrescentou que é provável que o uso da cannabis durante a adolescência e até os 25 anos pode desencadear um quadro de esquizofrenia.  
            Aguardamos estudos que apresentem conclusões definitivas sobre o assunto.



domingo, 10 de fevereiro de 2019

Dois artistas?


Mais uma surpresa de nossa visita, eu e meu amigo Sergio, à exposição "50 anos de Realismo - do Fotorrealismo à Realidade Virtual"no CCBB de Brasília.
            Paramos diante de impressionante pintura, enorme óleo sobre tela, de Andrés Castellanos (1956), intitulada Shopping Center N.Y. (2014). Revela vista de Nova Iorque, baseada em fotografia tirada de dentro de um shopping diante do Columbus Circle. A trama quadriculada corresponde a um extenso vidro diante da fachada do prédio.
            Eis a pintura (é uma pintura!):




            Instantaneamente eu disse, Já estive nesse lugar e bati uma foto muito parecida com este quadro. 
Em nossa última estada em Nova Iorque, eu e Mercêdes fomos a três apresentações em um espetacular clube de jazz localizado no quinto andar do The Shops at Columbus Circle, o famoso Dizzy’s Club Coca-Cola. (A sugestão do programa foi de meu irmão Paulo.) 
            Eis a fotografia do artista que lhes escreve:




            
            Recomento fortemente aos que visitarem NY: não deixem de ir ao Dizzy’s Club Coca-Cola.




Nu frontal


Ainda sobre nossa visita à exposição"50 anos de Realismo - do Fotorrealismo à Realidade Virtual"no CCBB de Brasília.
            A certa altura da visita, eu e meu amigo Sergio observamos, por tempo relativamente longo, cena que nos chamou a atenção. A escultura hiper-realista, intitulada Christine (2011), de autoria de John Deandrea (1941), mostrava uma mulher nua. Nos colocamos de frente para a face anterior do corpo e vimos que cinco adolescentes permaneciam observando – e conversavam animadamente sobre o que viam –, apenas a parte posterior da escultura. Do que riam? De que tanto falavam? Jamais saberemos.
            O que nos intrigou foi o fato de permanecerem olhando para a face posterior do corpo. Parece que evitavam propositalmente a visão do nu frontal. Adolescentes envergonhadas?



50 anos de Realismo


Teve início neste começo de fevereiro a exposição "50 anos de Realismo - do Fotorrealismo à Realidade Virtual"no CCBB de Brasília (5 de fev a 28 de abr)
Entramos na primeira sala, eu e meu amigo Sergio Pripas, e diante dos três primeiros quadros permanecemos quase que perplexos, sem compreender o que víamos, É uma fotografia bastante manipulada, Mas parece uma pintura, Não, é muito real para ser pintura, a conversa ia por aí quando um guarda que zelava pela sala, muito educadamente, chegou e disse, Isso é tudo pintura, não tem fotografia, e o nosso susto foi enorme, Nossa Mãe do Céu! 
O próprio site da exposição explica: “O foco das obras é o hiperrealismo. As esculturas tridimensionais são uma representação realista do ser humano. Já os quadros trarão a constante dúvida "foto ou pintura?". 
            Eu e meu amigo não conhecíamos esse Hiperrealismo na Arte contemporânea. Concordamos ambos que a Exposição é belíssima, surpreendente, acima de nossas (parcas) expectativas.
            Abaixo, destaques que darão pálida ideia do que é a exposição.

Clique na foto para aumentar.




Na chegada, de longe, a árvore parecia real.
Cobre e plástico.



As 3 primeiras obras e nossa perplexidade.




Trailer com cavalinho de balanço. Aquarela! (1974-1975)
Jonh Salt (1937)





Onda ao luar (2016)
Antonis Titakis (1974)





Aparas em vermelho, azul e branco (2018)
Javier Banegas (1974)



Realidade virtual para os visitantes.


            Encerramos a esplêndida visita em alto estilo, com vinho branco, pão e queijo. A conversa prosseguiu.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

É isso Medicina?

Conselho de Medicina regulamenta consulta, diagnóstico e cirurgia online, este o título da reportagem de Lígia Formenti para  O Estado de S.Paulo (3 Fev 2019).
“Médicos poderão atender seus pacientes pela internet. Resolução aprovada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), que deverá ser publicada na próxima semana, permite que profissionais façam consultas, diagnósticos e cirurgias online. A regra, que entra em vigor dentro de três meses, surge no momento em que os governos se deparam com vazios de assistência em regiões distantes do País, provocados pela saída de profissionais cubanos do Mais Médicos.” 
O relator da resolução no CFM, Aldemir Soares, afirma que “as consultas a distância podem ser úteis para levar assistência nas cidades que não conseguem atrair profissionais.” 
A consulta a distância somente pode ser feita com a concordância do paciente. Um termo por escrito, com autorização expressa, tem de ser assinado. (A afirmação chega a ser ridícula. Imagine o leitor alguma situação na qual o paciente fosse “obrigado” a ser atendido a distância!)
O texto aprovado pelo CFM permite também o diagnóstico a distância. “O relator conta que a tecnologia já permite que alguns exames, como o de ouvido e garganta, possam ser feitos pela internet.” 
A resolução prevê ainda a teletriagem, quando um médico avalia o paciente e determina qual o tipo de atendimento que ele deve receber. “Isso pode ser muito útil, evita que o paciente, por exemplo, seja encaminhado para uma especialidade que não é tão apropriada para o seu caso.” 
As regras estabelecidas se aplicam para a assistência em geral, seja de médicos particulares, que atuam no Sistema Único de Saúde, ou para planos. 
“A resolução do Conselho Federal de Medicina permite também cirurgias a distância. Soares conta que já existe no País cerca de 40 centros habilitados para esse tipo de procedimento em que um médico opera, por meio de um robô, um paciente que pode estar a muitos quilômetros de distância. A norma que deverá ser publicada nesta semana prevê que o procedimento somente poderá ser feito em locais com infraestrutura adequada. E, além do cirurgião remoto, é preciso estar presente, no local onde está um paciente, um cirurgião da mesma especialidade. “Ele pode auxiliar na operação, com manipulação de alguns instrumentos e, caso haja qualquer problema, pode assumir a operação.”
(Hospitais e postos de atendimento com frequência estão desprovidos de um simples esfigmomanômetro; como falar em cirurgia a distância?)
Uma pergunta me ocorre de imediato: É isso Medicina?
Ou teremos de dar outro nome a esta prática, que não envolve necessariamente a presença física de médico e seu paciente? A tão festejada relação médico-paciente agora torna-se virtual. 
            Tempos estranhos esses.






Primeiro dia de vida

A foto do dia




"tartaruga bebê
seu primeiro dia de vida
em direção ao mar"


Foto e texto: Paula Vianna, Papua Nova-Guiné, dez 2018.


domingo, 3 de fevereiro de 2019

Deus acima de todos?


Após ser eleito presidente, Jair Bolsonaro acompanha oração
feita por Magno Malta. Reprodução/TV Globo


Oportuna, mas principalmente corajosa, a crônica de hoje de Hélio Schwartsman para a Folha de S.Paulo (3 fev 2019), com o sugestivo título Trevas cristãs. O subtítulo é bastante provocativo: “'Deus acima de todos' deveria provocar calafrios nas pessoas historicamente alfabetizadas. ...Sejam elas religiosas ou não”.
Afirma Scchwartsman: “nossos professores de história, todos eles esquerdistas, fracassaram miseravelmente em mostrar para seus alunos os crimes cometidos em nome de Deus. Um bom jeito de sanar essa falha é a leitura de “The Darkening Age” (a idade das trevas), de Catherine Nixey (há uma edição lusitana).”
“O cristianismo triunfou na Europa e cercanias destruindo o mundo clássico que o precedeu. O “destruir” deve ser interpretado literalmente, para incluir a pilhagem de templos, vandalização de estátuas, queima de livros e, é claro, tortura e assassinato de adversários. Para dar uma ideia da escala da destruição, estima-se que apenas 10% da literatura clássica tenha sobrevivido até a Idade Moderna. Se considerarmos só os latinos, o quadro é ainda pior. Só 1% do que foi escrito por romanos não cristãos foi preservado. Santos das Igrejas Católica e Ortodoxa, como João Crisóstomo, gabavam-se de ter feito desaparecer toda uma cultura.”
Conclui o brilhante articulista da Folha: “Há total semelhança entre “o que fizeram os cristãos dos anos 300, 400 e 500 o que fazem hoje membros do Taleban e do Estado Islâmico. A intolerância que militantes religiosos radicais mostram para com outros credos, os assassinatos praticados com requintes de crueldade e a insana “certeza” de estar obedecendo a comandos de um ente supremo infalível revelam quão perigoso é pôr Deus acima de tudo.” (O grifo é meu.)


Em vez de Catherine Nixey, eu gostaria de sugerir a obra completa de José Saramago, nosso Nobel de Literatura. In nomine Dei, peça de teatro que se passa na Idade Média, seria um bom começo, seguido de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, para terminar com Caim, esta a mais eloquente voz contra o desmando de um certo Deus, a que se refere Schwartsman. Além do aprendizado, o leitor poderá usufruir da deliciosa prosa saramaguiana, inspirada, segundo ele mesmo, em ninguém menos que Pe. António Vieira, o Imperador da Língua Portuguesa. Literatura em estado puro!



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

camarão-amarelo




lindo de nome e de cor
camarão-amarelo
manjar de beija-flor


Foto: AVianna, fev 2019, jardim

Cuidados com o Professor




Professora e alunos em sala de aula de escola municipal
em Santana de Parnaíba (SP) – Foto Joel Silva / Folhapress

“Melhorar a profissão de professor é um bom começo”, afirma Claudia Costin, Diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV, e ex-diretora de educação do Banco Mundial (Folha de S. Paulo, 1º.fev.2019). Segundo Costin, esta deveria ser a agenda prioritária.
            O ano começa com o estabelecimento da Base Nacional Comum Curricular, com as aprendizagens mínimas que qualquer aluno deve adquirir ao longo de sua escolaridade. Isso é muito bom. “Mas pesquisas internacionais mostram que o fator mais importante no processo educacional é o professor.” O que significa investir na formação do professor.
           “Infelizmente, apenas 2,4% dos jovens brasileiros desejam cursar licenciaturas ou educação, contra 7,5% há cerca de dez anos. As razões são conhecidas: baixos salários e reduzido prestígio social da carreira.”  
           Costin levanta ainda um problema pouco discutido, mesmo entre especialistas: “as universidades não formam para a profissão. Há um total divórcio entre o que é ensinado em licenciaturas e a realidade do chão da escola. Fazendo um paralelo com a profissão de médico, cujo curso na universidade tem diálogo constante com a prática, o que fazemos para formar professores seria o equivalente a dar-lhes aulas sobre sociologia da medicina, história da medicina, filosofia da medicina e depois pedir a esses médicos recém-formados que operem um paciente.” 
            Daí a ideia de mudar os currículos das instituições que formam professores. “Deveríamos levar adiante a ideia, divulgada no fim do ano passado, de elaborarmos uma base nacional de formação docente, que inclua formação inicial e continuada.
Há muito que ser feito para melhorar a educação. Uma parte será avançar no que já foi decidido, outra será priorizar ações. Nisto, acerta o MEC quando estabelece que a alfabetização deve ser enfatizada, embora, naturalmente, precisamos discutir como fazê-lo.”
          Outras recomendações importantes são “pagar salários melhores, contratar os docentes para jornadas semanais menos fragmentadas e, de preferência, numa única escola.”
            Tudo é uma questão de Educação, gosta de repetir este blogueiro.