quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Resposta das feministas francesas

Resposta do grupo feminista, na tradução da filósofa da UFRJ, Tatiana Roque:

"Os porcos e seus (suas) aliado(a)s têm razão de se inquietar
Cada vez que os direitos das mulheres progridem, que as consciências acordam, as resistências aparecem. Em geral, elas tomam a forma de um “é verdade, mas...”. Com diversas militantes feministas, respondemos à tribuna do Le Monde.
Este 9 de janeiro tivemos direito a um “#Metoo é legal, mas....”. Nada realmente novo nos argumentos utilizados. Encontramos os mesmos argumentos no texto publicado no Le Monde no trabalho, em torno da máquina de café ou em refeições familiares. Esta tribuna é um pouco o colega incômodo ou o tio cansativo que não entendem o que está acontecendo.
"Arriscaríamos ir muito longe". Sempre que a igualdade avança, mesmo que meio milímetro, as boas almas imediatamente nos alertam para o fato de que arriscamos cair no excesso. No excesso, estamos totalmente dentro. É aquele do mundo em que vivemos. Na França, todos os dias, centenas de milhares de mulheres são vítimas de assédio. Dezenas de milhares de agressões sexuais. E centenas de violações. Todos os dias. A caricatura está aí.
"Não se pode mais dizer nada". Como se o fato de nossa sociedade tolerar - um pouco - menos do que antes as propostas sexistas, assim como as propostas racistas ou homofóbicas, fosse um problema. "Nossa! Era francamente melhor quando podíamos chamar as mulheres de vagabundas tranquilamente, hein?". Não. Era pior. A linguagem tem influência no comportamento humano: aceitar insultos contra as mulheres significa, na verdade, autorizar as violências. O controle de nossa língua é um sinal de que nossa sociedade está progredindo.
“É puritanismo”. Fazer com que as feministas pareçam travadas ou mesmo mal-amadas: a originalidade das signatárias da tribuna é... desconcertante. A violência pesa sobre as mulheres. Todas. Pesa sobre nossos espíritos, nossos corpos, nossos prazeres e nossas sexualidades. Como imaginar, só por um instante, uma sociedade liberada, na qual as mulheres disponham livremente e plenamente de seus corpos e de suas sexualidades, enquanto uma em cada duas declara já ter sofrido violência sexual?
“Não se pode mais paquerar”. As signatárias da tribuna misturam deliberadamente uma relação de sedução, baseada no respeito e no prazer, com uma violência. Misturar tudo é prático. Permite colocar tudo no mesmo saco. No fundo, se o assédio ou a agressão são “a paquera pesada”, é que não é tão grave. As signatárias se enganam. Não há uma diferença de grau entre a paquera e o assédio, mas uma diferença de natureza. As violências não são “sedução exagerada”. De um lado, considera-se a outra como igual, respeitando seus desejos, quaisquer que sejam. De outro, como um objeto à disposição, sem ligar para seus próprios desejos nem para seu consentimento.
“É responsabilidade das mulheres”. As signatárias falam sobre a educação a ser dada às meninas para que elas não se deixem intimidar. As mulheres são, portanto, designadas como responsáveis por não serem agredidas. Quando colocaremos a questão da responsabilidade dos homens de não estuprar ou agredir?
As mulheres são seres humanos. Como os outros. Temos direito ao respeito. Temos o direito fundamental de não sermos insultadas, assobiadas, agredidas, estupradas. Temos o direito fundamental de vivermos nossas vidas em segurança. Na França, nos Estados Unidos, no Senegal, na Tailândia ou no Brasil: este não é o caso hoje. Em nenhum lugar.
As signatárias são, em sua maior parte, reincidentes na defesa de pedófilos ou de apologias ao estupro. Elas usam, mais uma vez, sua visibilidade midiática para banalizar a violência sexual. Elas desprezam de fato as milhões de mulheres que sofrem ou sofreram essas violências.
Muitas delas estão, frequentemente, prontas a denunciar o sexismo quando vem de homens de bairros populares. Mas a mão na bunda, quando é exercida por homens de seu meio, tem a ver, segundo elas, com o "direito de importunar". Essa estranha ambivalência permite apreciar seu apego ao feminismo que elas reivindicam.
Com este texto, elas tentam recolocar a camisa de força que começamos a retirar. Elas não conseguirão. Nós somos as vítimas de violência. Não temos vergonha. Estamos de pé. Fortes. Entusiastas. Determinadas. Vamos acabar com as violências sexistas e sexuais.
Os porcos e seus (suas) aliado(a)s estão preocupados? É normal. Seu velho mundo está desaparecendo. Muito devagar – devagar demais – mas inexoravelmente. Algumas reminiscências empoeiradas não mudarão nada nisso, mesmo publicadas no Le Monde."



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Barulho de Gullar




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Suzete vira a página

Meu caro André,

escrevo-lhe com certo constrangimento, com um pouco de vergonha mesmo, diante dos últimos acontecimentos, resumidos por você como o Caso do Assassinato no Salão de Beleza.
Quase me arrependi de ter permitido que publicasse aqueles acontecimentos tão funestos (acho que li esta palavra em Kafka, não estou certa), mas diante da atenção que me dedicou, dos cuidados que me dispensou, fui obrigada a fazê-lo, também por amor à literatura. Ficou bonito o conto policial!
            Escrevo principalmente para dizer que virei aquela página. Acho que todos nós vivemos algum drama ao longo de nossas vidas, não necessariamente envolvendo um assassinato, ainda bem, mas cada um sabe de si, das suas dores, e o drama de cada um é sempre doloroso, seja por um amor desfeito, pela morte de alguém muito querido, pela derrocada material, por uma grave doença, física ou mental (esta última parece ainda pior), ou pelo fortuito envolvimento em um crime como ocorreu comigo. São frustrações inevitáveis, próprias do viver. “Viver é muito perigoso.”
            Diante do problema, onde a solução? Há quem permaneça remoendo remoendo remoendo (isso aprendi com você, três repetições sem vírgulas entre elas, na expectativa de que o leitor leia as palavras rapidinho e sem interrupção), na esperança de que o problema se resolva por ele mesmo, e não se resolve.
            A sensação de vergonha a que me referi no início desta carta pode ser vista como arrogância, pela dificuldade em aceitar nossos próprios erros. Erramos. Pronto. Que novidade!
            Mesmo fazendo votos de que o erro não se repetirá, não há qualquer garantia sobre isso. Errar de novo também não é novidade.
            Bem, de minha parte, virei a página. Virou conto policial em seu blogue, André. A troca de cadeira no salão é a perfeita metáfora (nossa, nunca pensei que um dia usaria esta palavra!): muda-se, para que nada mude. A vida prossegue, a fila anda. Continuo cortando cabelo de homem.
            Mudando de assunto, gostei muito do que postou hoje, sobre o manifesto dos artistas franceses, contra o puritanismo e a favor da “liberdade de importunar” (adorei esta expressão!). Também não acho que as mulheres sejam essas “pobres indefesas”, vítimas da truculência masculina.
Estupro não. Agressão física ou psíquica não. Agora, tanto barulho por causa da mão no joelho, isso também é exagero. Eu acho, André. Mas posso estar errada. Cada caso é um caso, isso é verdade, e não estamos aqui para julgar.
São ponderadas as considerações dos franceses. Vamos pensar sobre elas.
Acho que a cartinha está de bom tamanho. Despeço-me com um beijo, renovando meus agradecimentos pelo apoio que me dispensou.
Da sempre sua


                                    Suzete.

Limite para a Arte?


Obra da Exposição Queermuseu


No último domingo (7 jan 18), a prova de redação da Fuvest 2018 apresentou a questão "Devem existir limites para a arte?"
A pergunta foi acompanhada por reportagens que tratavam do cancelamento da exposição Queermuseu, no Santander Cultural, em Porto Alegre (RS), em setembro. Na época, uma onda de protestos dizia que as obras expostas, que abordavam a questão LGBT, promoviam blasfêmia contra símbolos religiosos e apologia à zoofilia.
Parabéns a Fuvest: o fato de tratar-se de assunto altamente controvertido não impediu que fosse utilizado como tema de redação, obrigando os candidatos a pensarem sobre ele.
Por si mesma, esta é uma lição para ser aprendida por aqueles que se apegam a dogmas, ao moralismo radical, ao conservadorismo, ao fundamentalismo religioso.
Infelizmente, em pleno século XXI, o fenômeno não é exclusivo do nosso país. Recentemente ocorreu a censura de um nu de Egon Schiele no metrô de Londres; foi solicitada a retirada de um quadro de Balthus de uma mostra do Metropolitan de Nova York; houve manifestações contra retrospectiva dedicada à obra de Roman Polanski em Paris.
Interessante notar que o cancelamento da exposição em Porto Alegre, bem como o impedimento da mostra no Rio de Janeiro pelo prefeito Marcelo Crivella, fizeram com que reação oposta ao conservadorismo se desencadeasse, tornando o debate sobre o tema inevitável. Daí para tema de redação de vestibular foi um pulo.
É como a definição de maré: fluxo e refluxo das águas do mar...



Manifesto francês



Artistas e intelectuais francesas criticam 'puritanismo' de campanha contra o assédio.
Manifesto defende a 'liberdade de importunar' dos homens, que consideram 'indispensável para a liberdade sexual'.
Cem artistas francesas contra o “puritanismo” sexual em Hollywood.
Manifesto assinado por atrizes como Catherine Deneuve defende que série de denúncias de assédio vai na contramão da liberação sexual.

            Estas são manchetes de alguns dos principais jornais de hoje (09 Janeiro 2018), quando cerca de cem artistas e intelectuais franceses lançaram manifesto no qual criticam o "puritanismo" da campanha contra o assédio surgida por conta de casos envolvendo o produtor Harvey Weinstein. Eles defendem a "liberdade de importunar" dos homens, que consideram "indispensável para a liberdade sexual". O manifesto, publicado no jornal francês "Le Monde", afirma que homens devem ser "livres para abordar" mulheres.
            A divulgação do manifesto ocorre dois dias depois da cerimônia do Globo de Ouro, tomada por protestos contra a onda de assédios: atrizes se vestiram de preto e a apresentadora Oprah Winfrey, homenageada da noite, fez um discurso contra o machismo.
“O estupro é crime. Mas o flerte insistente ou desajeitado não é um delito, nem o cavalheirismo uma agressão machista", disseram Catherine Deneuve, a escritora Catherine Millet, a editora Joëlle Losfeld e a atriz Ingrid Caven.
As artistas disseram que "não se sentem representadas por esse feminismo que, além das denúncias dos abusos de poder, adquire uma face de ódio aos homens e sua sexualidade", em alusão ao movimento #MeToo, que surgiu para denunciar nas redes sociais casos de abusos machistas.
As artistas reconhecerem que o caso Weinstein deu lugar a uma "tomada de consciência" sobre violência sexual contra as mulheres no contexto profissional; lamentam que agora sejam favorecidos os interesses dos inimigos da "liberdade sexual" e dos extremistas "religiosos". “Mas esta liberação da palavra se transforma no contrário: nos intima a falar como se deve e nos calar no que incomode, e os que se recusam a cumprir tais ordens são vistos como traidores e cúmplices”, argumentam as signatárias, que lamentam que as mulheres tenham sido convertidas em “pobres indefesas sob o controle de demônios falocratas”.
O manifesto prega que as mulheres deveriam se unir contra outro oponente, os "inimigos da liberdade sexual", como extremistas religiosos e reacionários.
O manifesto alerta ainda para as repercussões que este novo clima poderia ter na produção cultural. “Alguns editores nos pediram [,,,] que façamos nossos personagens masculinos menos ‘sexistas’, que falemos de sexualidade e amor com mais comedimento ou que convertamos ‘os traumas sofridos pelas personagens femininas’ em mais explícitos”, denunciam as signatárias, opondo-se também à recente censura de um nu de Egon Schiele no metrô de Londres, ao pedido de retirada de um quadro de Balthus de uma mostra do Metropolitan de Nova York e às manifestações contra uma retrospectiva dedicada à obra de Roman Polanski em Paris.”
“O filósofo Ruwen Ogien defendeu a liberdade de ofender como algo indispensável para a criação artística. Da mesma maneira, nós defendemos uma liberdade de importunar, indispensável para a liberdade sexual”, subscrevem as cem signatárias do manifesto.
           
            Sem qualquer tomada de posição, penso que o manifesto francês é oportuno e traz o contraditório, ampliando assim o campo de discussão.





 Foto de Catherine Deneuve: Loic Venance / AFP


Não-posse

Política sem palavras





Foto: André Dusek / Estadão