quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Françoise Frenkel


Janelas quebradas de uma gráfica judia depredada, em Berlim. 
(Library of Congress Courtesy Everett Collection / Cordon Press)



Um certo bibliófilo, intrigado pela capa sóbria e pelo título enigmático do livro intitulado Rien Où Poser La Tête (Nenhum Lugar para Encostar A Cabeça), acabou por descobrir o testemunho de uma judia polonesa, fundadora da primeira livraria francesa de Berlim em 1921. Trata-se da obra de Françoise Frenkel, que passou 70 anos extraviada e reapareceu em um sebo de Nice em 2010.  
Ela cruzou a Europa fugindo dos nazistas: da capital alemã a Paris, e dali até Nice, onde cruzou a fronteira suíça. A autora terminou o manuscrito em 1944 à margem do Lago dos Quatro Cantões, na Suíça, onde seria publicado um ano mais tarde pela extinta editora Jeheber.
Segundo Álex Vicente, de Paris para El País (7 fev 2017),  “sentindo-se, enfim, a salvo, Frenkel pôs-se a escrever para registrar sua experiência. Mas o fez com rara contenção. Mais que uma denúncia da perseguição e da vida na clandestinidade ao longo de seu périplo, a obra foi concebida como uma homenagem “aos homens de boa vontade e valentia inesgotável” que conseguiram “resistir até o final”. A escritora deixou as passagens mais traumáticas de sua existência fora de suas páginas. Frenkel se esforça para ressaltar a generosidade dos estranhos. Insinua os comportamentos mesquinhos com um irônico desdém. O nome de seu marido, Simon Rachenstein, deportado para Auschwitz em 1942, nem sequer é mencionado.”
Frenkel morreu em janeiro de 1975, deixando apenas alguns documentos, algumas roupas e duas máquinas de escrever. Até hoje não foi encontrada nenhuma foto da autora.
Ainda não há previsão para a publicação da obra em português. Esperemos.



terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

De quê ri este homem?


“BEIRUTE - A Anistia Internacional acusou nesta terça-feira o regime sírio de ter enforcado cerca de 13 mil pessoas entre 2011 e 2015 em uma prisão do governo perto de Damasco e denunciou uma "política de extermínio". (O Estado de S.Paulo, 07 Fevereiro, 2017.

 Segundo o relatório, pelo menos uma vez por semana entre 2011 e 2015 grupos de até 50 pessoas eram tirados de suas celas para processos arbitrários. Eles eram espancados e depois, enforcados "em plena noite, em absoluto segredo".


Gabi na Austrália

A foto do dia


Gabriela, pronta para a escola, vestida com uniforme australiano!


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Princesa celta de 2.600 anos


Mulher de cerca de 35 anos, da nobreza celta, foi sepultada em uma câmara mortuária de luxo há 2.600 anos, às margens do Rio Danúbio, ao sul da atual Alemanha. A reportagem é de Fábio de Castro, para O Estado de S.Paulo (6/2/17).
A tumba foi desenterrada em 2010, com a remoção de um bloco de terra completo, e estudada minuciosamente em laboratório. Joias, adornos de ouro, bronze, âmbar e jais (uma gema de carbono fóssil), finamente trabalhados, foram encontrados junto ao corpo.
“Algumas das peças indicam que havia artesãos trabalhando nas primeiras cidades celtas, ao norte dos Alpes, que aprenderam seu ofício ao sul dos Alpes”, informou o coordenador das escavações, Dirk Krausse.
“De acordo com estudos anteriores, os povos que falavam línguas célticas habitavam partes da Europa há pelo menos 3,3 mil anos. Eles começaram a produzir ferro na Europa Central há cerca de 2,7 mil anos e fundaram a chamada “cultura Hallstatt”. Segundo os autores, o túmulo da nobre celta é a mais antiga evidência de que o povo Hallstatt fazia enterros elaborados dos membros de sua elite.” 
A prancha de madeira que recobria a câmara mortuária permitiu que os cientistas pudessem contar os anéis de crescimento das árvores que a formaram. Descobriram então que a tumba foi fabricada no ano de 583 a.C., com precisão maior do que seria possível com o método de datação convencional por carbono 14.
            Afirmam os antropólogos que o sepultamento, na pré-história, foi a primeira manifestação do ato humano, ou sinal de humanização.


Hospital Saint Paul

Meus quadros favoritos


Vincent van Gogh

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Manchester by the sea



            Com o título em português de Manchester à beira-mar, o filme de Kenneth Lonergan está entre os melhores dramas recentemente produzidos.
            O protagonista, tio Lee (Casey Affleck), é um faz-tudo sobrevivendo em Boston, um morto-vivo desrespeitado pelos moradores que o chamam para reparos de encanador, eletricista, pedreiro, enfim, pau-pra-toda-obra sem qualquer valor. Os desaforos que ele ouve, ora reage, ora não, numa apatia impressionante. (Um certo morador, depois de discutir sobre o melhor tipo de reparo a ser executado, pergunta-lhe Por quê você não pode dar uma resposta profissional? Ele simplesmente não pode, em sua permanente anedonia.)
            O clima sombrio, parado, com cenas praticamente estáticas, prenuncia uma tragédia, que não devo revelar aqui.
            Enfim, o filme trata de um trauma nunca superado. O mais interessante é que em momento algum alguém aconselha tio Lee que ele deve superar o trauma, que precisa superar o trauma.
            “Trauma é trauma”, ouvi certa feita de meu analista, e naquele momento a frase simples, curta, óbvia, me fez muito sentido. O filme é tristíssimo exatamente por isso: trata-se do relato de um trauma insuperável, ao menos para tio Lee, e talvez para a maioria dos humanos.
            Diante de um grave trauma, supera-se ou não se supera. No filme de Lonergan, não há obrigação de superá-lo, depende da capacidade de cada um, da escolha de cada um. Os de fora têm dificuldade para compreender isso, e por isso repetem Você tem que superar, Você tem que se cuidar, Você tem que aceitar.
            Em determinado momento do filme, tio Lee é instado a assumir a responsabilidade de tutor do sobrinho, e ele simplesmente responde que não pode! Acima de tudo, ele reconhece as próprias limitações, o que não é fácil para a maioria das pessoas. A ele, talvez possamos dar o título de anti-herói.
            O outro tema presente no filme – e de resto presente em inúmeros dramas do cinema – é o sentimento de culpa. Este é em grande parte responsável pela não superação do trauma, como ocorre exatamente na vida real.
            O desempenho de Casey Affleck no papel principal é mesmo monumental. A trilha sonora é de primeira qualidade, bem como a fotografia. Um grande filme.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Violência no Império


           O excelente Histórias da gente brasileira, Império, volume 2, de autoria de Mary Del Priore (Leya Editora, 2016), dá uma ótima ideia da situação em que vivia o povo nas diversas regiões do Brasil, e em particular da violência que grassava nos tempos do Império.
Priore nos conta o que foi a Balaiada, no Maranhão, na primeira metade do século XIX, “tempos de barbárie”, segundo ela. O relato que se segue é bem ilustrativo.
Manoel dos Anjos, o Balaio, atentou contra a honra da filha do major Juvêncio que, revoltado, “golpeou” o Balaio no rosto. O revide foi imediato. Transcrevo registro do acontecido efetuado por Viriato Correa, a partir de documento deixado pelo historiador maranhense Jerônimo de Viveiros:

“O Balaio, no meio da varanda, estava lívido, estarrecido, o olhar encima do fazendeiro chispando... João Vitório e Guariba, dois facínoras que acolitavam o chefe, atiraram-se a Juvêncio...  – Não matem! Segurem o homem apenas! Eu mesmo quero vingar. Nunca ninguém me deu na cara. Levem o velho para fora, aí na frente de casa. Balaio prepara-se para atirar na cara do major, mas, rápido, tem uma lembrança e manda que dispam o velho, tragam uma agulha de saco, fio forte, uma faca e o leitãozinho que há pouco tinha recebido de presente. A sorrir, passou a mão pelo ventre de Juvêncio, e foi um golpe só, golpe firme de cirurgião, do estômago às virilhas. Com a mão esquerda pôs para fora as vísceras da vítima, e com a direita, empurrou-lhe o leitão ventre adentro. O animal esperneou em arrancos, guinchando desesperadamente. – Ajuda aqui, Ruivo, depressa! Calca, enquanto eu coso. E foi cosendo, cosendo toda a ferida... Vinham lá de dentro do ventre sangrento, cada vez mais abafados, cada vez mais surdos, os grunhidos do porquinho. Cenas horripilantes repetiram-se na Balaiada, espalhando o terror por todas as fazendas do rico vale do Itapicuru.”

            Nem mesmo Quentin Tarantino seria capaz de imaginar cena de tamanha violência e crueldade. O episódio em si, por mais repugnante que seja, deu-me o que pensar e pode ser resumido numa frase: O Desejo De Colocar Um Bicho Dentro Do Outro. Para o Balaio, todos não passavam de bichos, alguns disfarçados de gente. E ele desejava que seu inimigo engravidasse de um porco, que gerasse um porco, e parisse um porco, em vez da cobiçada e proibida moça, filha do major. Vingança maior não poderia haver.
            Segundo Priore, este era o estado de coisas na época: povo bruto, violento, ignorante, sujo, bárbaro. Nossos primórdios. Ao tomarmos conhecimento deles, compreendemos melhor o presente. Este o papel da História.