quinta-feira, 16 de março de 2023



A BELEZA NUNCA SAI DE MODA

    Venho acalentando há algum tempo certa birra contra a necessidade que muita gente aparenta ter de gostar de um filme pela simples razão de ele ter se dado bem no Oscar. Sem saber do que se tratava, logo na semana de lançamento assisti no streaming "Tudo em todo lugar ao mesmo tempo". Achei péssimo! Para usar uma expressão do tio Paulo, verdadeira "loucurada". Não é porque o mundo digital vai se tornando impenetrável para os pobres mortais dentre os quais me incluo, que o cinema como arte tão democrática que é precise ser tão complicado também. Além de ser  um filme plasticamente feio em que pese o critério beleza ser motivo de discussão ao tratarmos de arte. 

    Porém é de beleza mesmo que quero falar para sugerir a um ou dois leitores desse blog o lindíssimo filme "Os Banshees de Inisherin". A palavra banshee (do gaélico bean sídhe) é o nome dado a um espírito feminino presente nas histórias tradicionais irlandesas cujos gritos anunciam que alguém na  família irá morrer. Assistido em condições precárias na tela minúscula do avião na volta de minhas férias, me comoveu profundamente. Belissimamente filmado e com interpretações exatas dos dois protagonistas, o filme fala do que nos é mais caro: relações pessoais. Uma relação entre dois grandes amigos é quebrada e em algum momento um relembra que a amizade é como dançar um tango, é preciso que os dois estejam sempre em perfeita consonância. 

    Mas não é só isso, o filme trata também do desejo de imortalidade do homem que vai se encaminhando para os anos finais de sua vida, da recusa à mesmice dos mexericos e da brutalidade do lugarejo, do delicado afeto aos animais, da sede por algum tipo de arte e cultura quando a única diversão é um pint de cerveja ao final do dia. Tudo encenado nas paisagens remotas de uma ilha irlandesa. Só mar, montanhas riscadas por muros de pedra, vento e solidão como cenário para as emoções que cercam as relações humanas; lá estão amor, ódio, frustração, violência, delicadeza, misticismo, luto, perversidade. 

    E que trilha sonora!!! É maravilhoso como o cinema continua, a despeito de robôs, metaverso, avatares e o que mais temos de moderno hoje em dia, a nos encantar e comover com boas histórias. Sinto falta de um interlocutor para tratar de tantos e tão ricos detalhes que o filme mostra ou só insinua... Não percam!






Biscoito no seu lugar predileto da casa. 


sábado, 11 de fevereiro de 2023

    A artista dos oceanos


    Quando a Paula passou no vestibular da UnB para Comunicação, começava uma jornada em direção a um futuro que certamente ela jamais imaginou. Passou de primeira contra as expectativas do pai: essa menina dorme demais, como é que vai entrar para a faculdade? Lá estava ela com seu jeito low profile de ser. A Paula é para dentro, fala discretamente, não faz mexericos. Ela pensa e planeja a própria vida, sempre com uma lista de objetivos que vai alcançando com muito método e trabalho. 
Desde cedo já tinha uns estágios remunerados. Econômica até o último fio de cabelo, só trocava o sapato por um novo quando o velho meio que furava. Não é exagero! De início escreveu no jornal da própria faculdade, depois editou junto com o pai o jornal do Hospital Universitário. Foi jornalista do Correio Braziliense, o jornal da capital da República. Sempre inquieta, movida por forte sentimento de independência e liberdade, ela criou a  própria empresa de publicidade que há pouco completou 20 anos de existência. Não é pouco! Não tem sócios, a empresa é ela e seus funcionários que comanda com inteligência, planejamento, firmeza.
    Não sei até que ponto influenciada pelo gosto de seu pai ou por puro interesse pessoal, logo cedo na faculdade foi estudar fotografia. Fotografou em preto e branco, aprendeu revelação em papel (tem quanto tempo isso???). Foi também graças a sua constante inquietação que considero saudável, porque não se acomoda, porque ousa, porque não se intimida diante de dificuldades mas ao mesmo tempo não avança além de suas possibilidades, que a Paula mudou de rumo. E mudou porque tem coragem para desbravar o novo, aprender, trabalhar muito, mergulhar concreta e simbolicamente nos seus projetos. Encontrou debaixo da água um mundo que lhe acolheu melhor e que trouxe, penso eu, outro sentido a sua vida e com ele novos desafios e lá vai outra lista de objetivos! 
    Agora estava lá do outro lado do planeta. Graças a sua arte, porque é assim que hoje denominamos a Paula, jornalista de formação, publicitária de profissão, depois mergulhadora amadora, profissional em seguida, Artista. Assim mesmo, com maiúscula, porque figura entre um seleto grupo de premiados fotógrafos subaquáticos. Ministra cursos, ganha concursos, tem suas fotos publicadas internacionalmente. A Paula é f. A atual viagem foi um prêmio por seu trabalho. No exótico conjunto de ilhas da costa da Indonésia chamado Raja Ampat (quatro reinos no idioma Bahasa, língua oficial da Indonésia) Paula olhou com seu jeito muito próprio de enxergar o que muitas vezes nem parece estar ali. Observou, reparou e registrou para deleite de nossos olhos a vida em águas tão distantes. Certamente traz imagens que lhe valerão outros tantos prêmios. 
    O André ficaria de início um pouco mais careca de preocupação, mas seguramente cheio de orgulho por essa pessoa que é a Paula Vianna! E hoje é aniversário dela: parabéns Paula!




Esse foi o veleiro onde a Paula viveu por uma semana, ou não, já que passava mais tempo mergulhando do que a bordo.



Paula tendo ao fundo a paisagem inacreditável de Raja Ampat.

                             A SAGA DO EMAIL PERDIDO


    Dia desses escrevi um textinho que em seguida publico e qual não foi minha surpresa ao tentar sem sucesso abrir este blog. Fosse um singelo caderno e uma caneta lá estaria tudo escrito. Mas a internet tem dessas artimanhas de nos escapar muitas vezes. A frustração de ver o blog na tela em frente e não poder acessá-lo me causou uma angústia que não pude conter sozinha. Precisei apelar ao nosso vizinho e amigo João que sempre salvou o André das armadilhas e meandros obscuros da informática. Não conseguimos de modo algum usar os e-mails do André com as respectivas senhas que cuidadosamente ele anotou. Mexemos, viramos e ao final aceitei a sugestão do João: telefona e pede a reativação do Terra. Pois não é que deu certo? E para meu maior espanto descobri que o email que eu buscava não tinha nada a ver com os anotados aqui. O André usava para gerenciar este blog mercedesfabiana1@gmail.com. Vai entender...

    Obrigada amigo João.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

                PARA O AMIGO SÉRGIO





    Pouco tempo depois de nos mudarmos para nossa casa, o amigo Sérgio veio nos visitar e de presente trouxe na bagagem dentro do avião frágil mudinha. Maior trabalheira! Quem fez uma cova espaçosa para que a pequena árvore pudesse estender sem esforço suas raizes na bruta terra do cerrado foi o Seu Onofre, nosso antigo jardineiro. A primeira foto abaixo ilustra a ocasião (a qualidade da fotografia que copiei com meu celular está péssima, mas o registro do momento está lá). Perguntado sobre o nome: árvore da felicidade respondeu nosso amigo! Felicidade era mesmo o que ela nos proporcionava por estar sempre florida. Em cada extremidade de galho um buquê de flores de cor fúcsia, verdadeiro paraíso para abelhas. Anos depois vim a esclarecer que o nome verdadeiro era jatrofa,  de nome científico Jatropha interregima mais conhecida como peregrina ou jatrofa picante. Espécie de planta com flor na família spurge, Euphorbiaceae. Produz cápsulas de sementes lisas, salpicadas e tóxicas e portanto se recomenda plantar longe do alcance de crianças. Nunca tivemos problemas desse tipo, a Gabi brincou muito debaixo de sua generosa sombra.

    Por muitos anos nos alegrou a vista e nos protegeu do sol à beira da piscina. Incontáveis manhãs de domingo desfrutamos de sua sombra; encontros, conversas e silêncios, música, a vida mesmo passando ali. Ano passado ela começou a secar, podamos, adubamos e não houve remédio. Morreu. Mas como o jardim é um ser com um forte propósito de permanência ela segue viva nas filhas, mudas nascidas de suas raizes. A essa (da outra fotografia, me desculpem agora pela mangueira ao fundo), o André nomeou Heloísa em homenagem à linda Helô filha do Sérgio. Heloísa, a de pernas longas. Andava meio fraquinha, a planta, não a Helô! Suas flores não vingavam, não sei se um pouco saudosa da mãe em cuja sombra nasceu ou de quem a batizou. Há alguns meses veio se juntar às suas raizes um punhadinho de cinzas do André. Está aqui agora toda faceira, florida, crescendo rápido em busca de luz. É a árvore da felicidade, ainda que agora a felicidade seja algo diferente.

Obrigada a você amigo Sérgio!

 




sábado, 31 de dezembro de 2022

IN MEMORIAM

 

Aqui no planalto central não usamos muito a palavra verão; as estações na nossa região não obedecem às divisões clássicas. Aqui temos a seca e as águas. E posso dizer que é muito bom assim. Durante a seca com a grama completamente torrada, o céu enevoado e poeirento, nossos olhos se enchem da beleza dos ipês amarelos. Nas águas, céu chumbo, nuvens baixas, verde pra todo lado. Nosso verão é feito de águas. Nesse ano as águas estão tão chuvosas como há muito tempo não se via. Desde o início de novembro chove, e chove muito forte quase que todos os dias. As noites desde então vão ficando cada vez mais fresquinhas, puxamos um cobertor, bebericamos um vinho tinto de noite. O povo do litoral não vai entender nunca isso. 

Essa última sexta-feira do fatídico ano de 2022 não foi diferente: ao invés de chope no boteco da esquina com espuma caindo em cima do pé se estivéssemos no Rio de Janeiro, hoje me decidi por sopa. Sopa no verão?! Descongelei um pacote de carne de panela do freezer, e tal qual a madeleine do Proust, fui invadida pela memória. Este pacote é metade da carne com a qual fiz a última sopa que o André ainda comeu. O fazer, o preparo do que vai nos alimentar, as lembranças de tantas outras sextas-feiras, de tantos outros jantares, de todos os dias que partilhamos juntos, muitos alegres, alguns tantos tristes, mas acima de tudo a memória de uma vida em comum é a nossa história e não há ficção que dê conta disso. 

Nesse ano de 2022 muitas foram as perdas de pessoas essenciais, que nos impactaram e que portanto não morreram de todo, porque seguem conosco com suas ideias, seu brilhantismo, sua genialidade. Senti muito a morte da Nélida Piñon, uma mulher que desbravou um meio literário fortemente masculino, ainda que muito livre no seu viver, foi fortemente devotada às suas raízes, ao seu passado, aos seus antepassados. Coisa meio rara nos dias correntes. Tinha uma devoção quase que religiosa a Homero, da qual compartilho pois não pode haver nada mais lindo que os versos que antes de serem escritos tantas vozes repetiram para que pudessem chegar a nós. Da Nélida no entanto, a frase mais marcante para mim é aquela que descreve a emoção ao ganhar um cachorro salsichinha, o Gravetinho: “Eu não estava preparada para esse amor”. Sei bem do que ela está falando. O amor nos desarma.

Tantos outros morreram nesse ano que vai acabando. O André tinha uma certa birra da Gal Costa “por que ela tem que gritar tanto?”. Mas como esquecer “Brasil”? Atualíssima para os dias tristes que ora vivemos nesse nosso país. 

Celebrou-se o centenário de nascimento do José Saramago. Já morto há algum tempo mas precisamos celebrá-lo sempre. Que privilégio poder ler o que escreveu esse homem. Sua escrita nos encanta, nos impacta e nos transforma. No seu livro muito pessoal  “As pequenas memórias” de 2006, ao relatar  eventos da infância e juventude, sob a amorosa influência dos avós maternos, lavradores, analfabetos, ele nos comove com esse trecho acerca da preciosidade da vida: “Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: ‘O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.’ Assim mesmo. Eu estava lá.”

Vamos aqui contando os mortos, somando saudades, sem lágrimas que cheguem para falar da falta que nos fazem. Se pudesse crer numa outra vida estaria agora imaginando o André na imensa fila para chegar junto ao rei. E ao se deparar com o Pelé, ele repetiria o gesto da infância quando o viu jogar em Guaratinguetá: um tapinha nas costas e a frase “Oh Pelé!”.

 


quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

    Em meio à arrumação que a morte nos impõe, se pretendemos evoluir no doloroso processo do luto organizamos gavetas, caixas, armários. Quanta coisa guardada, meu deus!  E qual o propósito? Na tentativa de desocupar um móvel meio pesadão,  espaçoso demais (o André certamente diria que eu estava tentando me descartar dele próprio!?), encontrei um de seus inúmeros diários. Este chama a atenção pela letra caprichada, as datas lá estão. Reconheço alguns momentos, de outros não me lembro  e nem poderia porque essa é uma memória dele. Não sinto que estou invadindo, xeretando: o diário ficou aqui por quase trinta anos dentro de um armário e se hoje eu perguntasse a ele "o que é isso?" tenho quase que certeza da resposta "não faço a menor ideia". O que quero dizer é que esse diário há de ter servido naqueles tempos para uma reflexão sobre aqueles dias. Reflexão??? Palavrinha ruim essa na falta de outra melhor. Serviu para  pensar, exercitar a autocrítica e conversar de forma muito verdadeira consigo mesmo. Transcrevo aqui um trecho. A grafia e a pontuação são dele. O pequeno poema também, me corrijam se estiver enganada, mas procurei e não achei autor. Mesmo que haja penso que está bem a propósito.

23/12/1994: "Véspera de Natal. O cheiro de pêssego no ar, Bach, violino e contínuo. E uma Paz difícil de aceitar. Vontade de escrever ao irmão distante: nada dizer, a não ser da saudade, das lembranças mais queridas, de uma vida que passou.

Como tem passado a Vida!

Quanto ainda há de passar?

Água que corre

às vezes límpida

de riacho quase puro

às vezes turva

de enchente lamosa

transbordante

sem margens o rio da Vida."


domingo, 30 de outubro de 2022


 ARGENTINA 1985


    A Argentina viveu certamente a mais cruel e sangrenta das ditaduras modernas da América do Sul. Em nome do combate à grande ameaça do comunismo daqueles idos especialmente na década de  70 os mais atrozes crimes foram cometidos. Diferentemente de  nós brasileiros os argentinos já há um bom tempo tentam expurgar os excessos.

    O indefectível Ricardo Darín encarna no filme "Argentina 1985" o promotor Strassera que de forma inédita preside um tribunal civil que vai julgar os crimes perpetrados por grupo de militares das mais altas patentes. Há que convencer o povo, o cidadão comum que não acredita que todo o horror se passou sem que dele se apercebesse. Não viram ou preferiram não ver? Os relatos duros, difíceis não resvalam no sentimentalismo. Strassera é um destemido e o grupo de jovens promotores que o segue são incansáveis na procura por testemunhas, na reunião de provas, na demonstração de coragem. 

    As mães e agora avós da Praça de Maio continuam esperando uma resposta, um corpo, um atestado de óbito. Não desistem da luta contra a opressão e obscurantismo que pautou aqueles tempos. Strassera invoca uma frase da qual precisamos nos apropriar: "Nunca mais".


ARGENTINA 1985 disponível na plataforma  PRIME VÍDEO 

sábado, 8 de outubro de 2022

NOBEL DE LITERATURA 2022


    Neste ano de 2022 o prêmio Nobel de Literatura foi concedido à escritora francesa Annie Ernaux de quem tive conhecimento pouco tempo faz. E ainda que não tenha lido nenhum livro seu já me sinto muito interessada no que ela tem a dizer após ter assistido há algumas semanas o filme baseado em sua obra "L'evenement" disponível por aqui com o título "O acontecimento". Ela narra no livro que deu origem ao filme a saga de uma jovem mulher, no caso ela própria, que na década de  60 estuda  literatura para se tornar não professora como é esperado então, e sim escritora, e no entanto tem seus sonhos paralisados quando se vê às voltas com uma gravidez indesejada. No filme com  muita economia de sentimentalismos é impossível não se angustiar com a difícil jornada frente ao preconceito do meio  que a segrega e a muralha de regramento fundamentalmente machista que a impede de fazer um aborto. Em que pese a discordância de tantos em relação ao tema, não podemos ignorar a necessidade de olhar de perto o problema. E é isso que para mim o filme consegue fazer graças à escrita autobiográfica  dessa  autora nascida em 1940 na Normandia e a primeira  mulher  francesa a receber o Nobel de Literatura.
    Podemos entender o que ela defende quando no filme ao ser questionada por um professor a respeito da causa de seus repentinos insucessos escolares: "Você está doente?", "Tenho uma doença que só as mulheres tem e que as transforma em donas de casa." Annie Ernaux é feminista. Sua obra é construída sobre sua biografia, vinda de uma família modesta estuda com dificuldade encom sua arte ao dizer  "eu" está a falar de experiências comuns. Annie Ernaux pertence à categoria de mulheres muito necessárias nesse momento em que o conservadorismo tenta se apoderar de comportamentos, ideias e escolhas dos indivíduos. Seu livro mais recomendado é "Les années"  ("Os anos") de 2008 disponível no Brasil pela editora Fósforo.
    Recomendo muito o filme "O acontecimento" na HBO MAX.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

 O HOMEM IDEAL


    Nos habituamos o André e eu há muitos anos a assistir juntos a um ou dois filmes nos finais de semana. Alguns inesquecíveis e muitos umas verdadeiras patacoadas. Quando bons, tínhamos mote certo para longas conversas. Nas últimas semanas de vida do André sem querer arriscar perder tempo, passamos a rever bons filmes mais antigos: "As horas", "Fale com ela". O último filme que vimos juntos era um filme novo de 2021 que tem em português um título a meu ver pobre para o que é - "O homem ideal". Dirigido pela alemã Maria Schrader, tem como título original "Ich bin dein Mensch", que meu amigo alemão traduziu como em inglês "Eu sou o seu homem". Há meses após ler crítica elogiosa sobre o premiado filme aguardo seu lançamento nas plataformas de streaming, até que há pouco mais de um mês apareceu para alugar numa delas. O início é meio desconcertante, um pouco desconfortável. O expectador titubeia um pouco, mas segue. Ainda bem. Acompanhado por uma trilha sonora além do impecável o filme é de uma delicadeza que alguns certamente atribuirão à condução feminina da trama, eu penso que ela vem simplesmente celebrar o tema tratado: o que é SER humano e estar aberto ao amor.

    Sem entrar em detalhes para não dar spoiler, até porque as sinopses falam disso, a protagonista aceita participar de um experimento no qual vai conviver por alguns dias com um robô, um androide ou como se queira designar uma máquina em formato de homem, desenhado para atender a todos os seus desejos, necessidades e fantasias, devendo ao final fazer um relatório recomendando ou não a experiência. A ação se passa numa Berlim moderna, mas nada a ver com o cenário futurista de filmes semelhantes (quem se lembrou de Blade Runner pode tratar de esquecer). O homem ideal quer agradar com cuidadinhos, flores, champagne e sexo, por que não? No entanto esse ser humanoide não é de modo algum desprovido de senso crítico, ele observa os humanos com curiosidade e algum sarcasmo. Nada lhe escapa. Pensará a máquina no que está fazendo num mundo desses? Ele é aceito naturalmente pelos animais e se espanta com a falta de empatia dos humanos.

    E o que parecia uma experiência fácil para uma mulher já madura, uma cientista especialista em escrita cuneiforme tradutora de acádio, transforma-se numa armadilha na qual ela é forçada a olhar de frente os sonhos que foram desfeitos, frustrações que a vida amorosa e profissional nos impõem, a decrepitude e fragilidade da velhice, a morte, a inveja da felicidade alheia. E se de repente nada mais disso acontecesse? E se a imprevisibilidade da vida se extinguisse? Seríamos então destituídos do que nos faz humanos, transformados em autômatos perderíamos a capacidade extraordinária que temos de aprender a lidar com as perdas, encontrar consolo para esperanças frustradas, usar como se diz na psicanálise os recursos da mente. O resto fica por conta de quem se interesse por assistir.

    A atriz principal Maren Eggert tem uma beleza sem adornos e uma atuação maravilhosa que lhe rendeu o Urso de Prata no Festival de Berlim 2021. Já seu par Dan Stevens consegue compor um personagem que não é humano mas que nos comove ao expor ao longo do filme atitudes do homem que muitas mulheres desejam. A diretora Maria Schrader já é conhecida do público brasileiro pela impressionante minissérie exibida em plataforma de streaming "Nada ortodoxa" que trata da fuga de uma jovem da comunidade judaica ortodoxa de Nova Iorque.

    O homem ideal tem apenas uma característica que nos tempos atuais invejo: não morre nunca. Até a última vez que pude conversar com o André repeti para ele: queria muito que você fosse o homem ideal. Dávamos juntos uma risadinha triste sempre que eu falava isso. O homem ideal não existe. 




Disponível para aluguel na Apple TV ou para os assinantes Prime da Amazon

   

sábado, 13 de agosto de 2022

O LUTO E A TORTA DE MAÇÃ

 

            O luto é o tempo da saudade, das lembranças, da solidão, do remorso, por vezes do desespero. A mente retorna à experiência de uma vida muito compartilhada numa conversação aberta, fértil troca de ideias e pensamentos expostos sem censura. Um ou outro desejo silenciado. É essa a tessitura da convivência harmônica. A vida transcorreu como se as ameaças cotidianas fossem unicamente vislumbres de um futuro muito, muito distante. Mas elas estavam lá sempre à espreita.

            Remorso não tenho das palavras atravessadas, do que poderia ter sido dito, de desculpas nunca verbalizadas. Não almejando a perfeição fui até onde consegui. O que me mortifica são as tortas de maçã que deixei de fazer. Numa gaveta da geladeira ficaram cinco maçãs verdes à espera de uma torta que foi sendo adiada. Foram ficando. O desinteresse pela vida contagia. Cozinhar para que? Qual é mesmo o sentido de acordar de manhã, se arrumar para o trabalho, tomar café (que difícil que desce esse café!), dirigir até o trabalho, escutar histórias banais tidas como trágicas, escutar histórias trágicas e prescrever um analgésico para dor de garganta? Então é disso que se trata estar vivo? É!

Hoje celebramos o dia dos pais com três pais ausentes: dois mortos e um distante. Todos muito importantes para as quatro filhas que aqui estamos. Cada um a seu modo absolutamente insubstituível como é natural que seja. Hoje a torta de maçã foi ao forno e sem falsa modéstia estava perfeita. Não poderei jamais e nem quero saber se minimamente se aproximou daquela feita pela mãe, aquela da memória afetiva. Por vezes tentei inovar: sem tampa, com creme de gemas, tarte tatin. Nenhuma convenceu: “eu gosto de torta com recheio massa em cima e em baixo.” Para os entendidos está dito. Que arrogância que é tentar competir com mãe! 

Gostava muito que você estivesse aqui comendo essa torta que foi feita para você, André. Servi um vinho italiano no almoço, fiz um churrasco de bife ancho muito bom, tomates, cebolas e abobrinhas assados na brasa como você gostava! E preciso contar que a Gabi está linda com o cabelo cortado curto e pintado de ruivo. Está a cara da Shirley MacLaine quando muito jovem, mas não pode falar que ela fica encabulada. As meninas estão com saudades e eu também. “Com açúcar e com afeto..."

domingo, 3 de julho de 2022

A Morte e o pequeno cão

 


 

 

À hora do repouso noturno deitou-se com seu pequeno cão que, como de costume, se acomodou ao pé do leito. Ao lado jazia a Morte, com sua presença quase física, paciente silenciosa determinada.

          Naquele estado de semiconsciência, do lugar mais secreto de sua alma, aflorou nítido o pensamento:

          – Eis o sentimento da mais profunda solidão. 

          Passados alguns segundos o cão despertou, caminhou pelo leito e se aninhou em seu peito. 

          Sem pedir licença, a Morte se fastou, ciente de que fora apenas uma batalha perdida. Levou consigo a Solidão!

 

segunda-feira, 27 de junho de 2022

domingo, 26 de junho de 2022

A vírgula e o buraco negro

Após longo período de silêncio sinto irresistível vontade de escrever. É que a cabeça anda vazia, os miolos consumidos pela doença, e desse oco não pode sair nada mesmo. Minha cabeça virou um buraco negro.

            Mas o desejo de escrever persiste, forte, autoritário, uma necessidade, ou mais que isso, uma ordem. Mas as ideias? Rosa Montero vem em meu socorro com seu novo livro A Boa sorte (Todavia, 2022). Meu improvável leitor não espere texto crítico sério, qualquer consideração literária de peso, mesmo porque a autora é das melhores que há nesta quadra, dona de escrita contemporânea privilegiada, livre de ranços e passadismos. (Se é para escrever puta, ela escreve puta.) Quase perfeita!

            Eu desejo apenas tocar num assunto do qual tenho me ocupado por longo tempo: o problema da vírgula. Que eu saiba, apenas Marcel Proust soube utilizar a vírgula com propriedade. Nem Machado, ouso dizer. (Isso veio do buraco negro.)

            Não sei por quanto tempo vou aguentar sentado diante do computador. Passemos sem perda de tempo à frase de Montero, à página 12.

 

“A maioria das lojas está fechada, e o fechamento deve ter ocorrido noutra era geológica.”

 

            Frase perfeita, dirão os leitores normais. Simples, clara, com arremate cheio de humor. De fato, não se pode apontar erro de qualquer espécie. Pergunto eu: para que essa vírgula? Peço que o leitor leia em voz alta a alternativa que ofereço:

 

“A maioria das lojas está fechada e o fechamento deve ter ocorrido noutra era geológica.”

 

            A ideia da autora é que a maioria das lojas está fechada há muito tempo. (Pois faz muito tempo que o povoado entrou em franca decadência.) A ideia é una, indivisível, o que vem depois da vírgula é inseparável daquilo que vem antes. A quebra da ideia por uma vírgula desnecessária enfraquece a frase. Não está errado, mas a ideia perde força. E uma ótima escritora deve manter a força de suas ideias e de sua escrita, se possível durante todo o livro.

 

            Tenho perfeita consciência da insignificância do texto acima, a não ser para os obcecados pela vírgula, como eu. Mas era tanta minha vontade de escrever! (Outra vez a Escrita Terapêutica.) De uma cabeça vazia, o que mais poderia sair? Apenas uma vírgula.

            Dois últimos comentários. Ao chegar à página 50, do total de 250, estou encantado com o livro. Ótima literatura, com destaque para a vívida construção e apresentação das personagens. Acho que vai continuar bom até o fim. Rosa Montero é uma craque; o leitor não perca seu livro anterior: A ridícula ideia de nunca mais te ver. (Alguém pode perguntar: se a leitura estava tão interessante, por que interrompê-la para escrever essa bobagem sobre uma ínfima vírgula?  Minha resposta é que UMA VÍRGULA É UMA VÍRGULA, É UMA VÍRGULA, É UMA VÍRGULA.)

            O segundo comentário refere-se à capa do livro. Poucas vezes vi coisa tão horrorosa. Portando, meu conselho é: não deixe de comprar um livro por causa da capa.